{"id":610,"date":"2011-11-21T17:39:15","date_gmt":"2011-11-21T20:39:15","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=610"},"modified":"2011-11-21T18:03:57","modified_gmt":"2011-11-21T21:03:57","slug":"o-miasma-do-denuncismo-e-a-difusao-da-literatura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=610","title":{"rendered":"O MIASMA DO DENUNCISMO E A DIFUS\u00c3O DA LITERATURA BRASILEIRA"},"content":{"rendered":"<p>Em 1992, publicamos, na falecida Marco Zero, o livro<em> A Culpa \u00e9 da Imprensa? Ensaio sobre a Fabrica\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o<\/em>, de Yves Mamou, jornalista franc\u00eas, editor de economia do <em>Le Monde<\/em>. O livro tratava de an\u00e1lise de not\u00edcias, sua difus\u00e3o, a\u00e7\u00f5es de assessoria de imprensa e controle de danos de imagem de empresas e manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O notici\u00e1rio recente sobre o programa de bolsas de tradu\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional me fez lembrar desse livro, especialmente de um caso ali relatado. Uma mat\u00e9ria publicada n\u2019<em>O Estado de S. Paulo<\/em>, assinada por Jotab\u00ea Medeiros, insinuava que a concess\u00e3o de bolsa de tradu\u00e7\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o de <em>O Leite Derramado<\/em>, do Chico Buarque, para a Gallimard, prestigiosa editora francesa, era consequ\u00eancia de nepotismo. O tradutor do romance do cantor, compositor e romancista teria ganho a bolsa pelo fato dele ser irm\u00e3o da Ministra da Cultura, Ana de Hollanda.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>O caso relatado em <em>A Culpa \u00e9 da Imprensa<\/em> dizia respeito a not\u00edcia plantada pelo ent\u00e3o presidente do Banco American Express, acusando o banqueiro Edmond Safra de envolvimento com a m\u00e1fia, traficantes de drogas, etc. Era parte de uma briga de neg\u00f3cios entre os dois. A not\u00edcia foi inicialmente plantada em um obscuro jornal peruano, e a partir da\u00ed foi sendo citada, como verdadeira, viajando para um jornal do M\u00e9xico e indo parar nada menos que no Wall Street Journal. Bom, Edmond Safra n\u00e3o era nenhum coitadinho e colocou advogados e detetives para rastrear de onde vinha a difama\u00e7\u00e3o. O resultado foi levantado e mostrou que tudo come\u00e7ou na assessoria de imprensa do American Express, e que a opera\u00e7\u00e3o estava diretamente vinculada ao seu ent\u00e3o presidente, Jim Robinson. Resultado final: o American Express teve n\u00e3o apenas que pedir desculpas p\u00fablicas ao banqueiro, como pagou oito milh\u00f5es de d\u00f3lares de indeniza\u00e7\u00e3o, em valores de 1989.<\/p>\n<p>Um jornalista qualquer, usando o privil\u00e9gio de n\u00e3o divulgar suas fontes, planta a not\u00edcia e esta come\u00e7a a circular, a partir da\u00ed atribu\u00edda a jornais cada vez mais \u201crespeit\u00e1veis\u201d, at\u00e9 virar \u201cverdade\u201d incontest\u00e1vel. At\u00e9 porque o desmentido n\u00e3o corre com a mesma rapidez da cal\u00fania. Edmond Safra teve que passar anos monitorando as not\u00edcias a seu respeito para, a cada vez, desmenti-la com a condena\u00e7\u00e3o de Jim Robinson na justi\u00e7a americana.<\/p>\n<p>O direito de preservar as fontes \u00e9 um dos pilares da liberdade de imprensa. Mas o jornalista respons\u00e1vel n\u00e3o pode simplesmente dar como verdadeiro o que uma \u201cfonte\u201d qualquer lhe sussurra, sem verificar os fatos, sob pena de se tornar c\u00famplice de inverdades e entrar no jogo da manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No mundo acad\u00eamico apelar para o chamado \u201ccrit\u00e9rio de autoridade\u201d \u00e9 o caminho certo para a desmoraliza\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Ningu\u00e9m pode simplesmente dizer que tal coisa \u00e9 assim ou assado porque \u00e9 professor doutor ou coisa parecida. \u00c9 preciso demonstrar.<\/p>\n<p>Ou seja, uma coisa s\u00e3o os fatos, que \u00e9 preciso documentar para que sejam aceitos. Outra coisa s\u00e3o as opini\u00f5es, onde impera o reino da liberdade (mesmo que irrespons\u00e1vel&#8230;.).<\/p>\n<p>Pois bem, <em>O Estado de S. Paulo<\/em> publicou, no dia 5 de novembro, em mat\u00e9ria assinada por Maria Fernanda Rodrigues, a not\u00edcia anunciando objetiva e corretamente as primeiras bolsas concedidas este ano pelo programa da Biblioteca Nacional. As bolsas s\u00e3o decididas pelo Conselho Interdisciplinar de Pesquisa e Editora\u00e7\u00e3o, que analisa os pedidos seguindo as normas do edital p\u00fablico do programa, analisadas a cada trimestre. Todos os pedidos apresentados no prazo foram aprovados pelo CIPE, porque todos se enquadravam nos requisitos do edital. Repito: <strong>todos<\/strong> os pedidos.<\/p>\n<p>As bolsas aprovadas s\u00e3o estas, por pa\u00eds e editora:<br \/>\n<strong>Rom\u00eania<\/strong>:<br \/>\n<em>Poesia Completa<\/em> &#8211; Carlos Drummond de Andrade &#8211; Editora Humanitas Fiction Publishing House &#8211; Editora Editura Univers<br \/>\n<em>Gabriela, Cravo e Canela<\/em> &#8211; Jorge Amado &#8211; Univers<br \/>\n<em>A Guerra no Bom Fim<\/em> &#8211; Moacyr Scliar &#8212; Univers<br \/>\n<em>Sinfonia em Branco<\/em> &#8211; Adriana Lisboa &#8211; Univers<br \/>\n<em>Sombra Severa<\/em> &#8211; Raimundo Carrero &#8211; Univers<br \/>\n<em>O Movimento Pendular<\/em> &#8211; Alberto Mussa &#8211; Univers<br \/>\n<em>O Opositor<\/em> &#8211; Lu\u00eds Fernando Verissimo &#8211; Vivaldi<br \/>\n<em>Os Espi\u00f5es<\/em> &#8211; Lu\u00eds Fernando Verissimo &#8211; Vivaldi<br \/>\n<strong>Fran\u00e7a<\/strong>:<br \/>\n<em>Azul-Corvo<\/em> &#8211; Adriana Lisboa &#8211; Editions Metaili\u00e9<br \/>\n<em>Black Music<\/em> &#8211; Arthur Dapieve &#8211; Asphalte \u00c9ditions<br \/>\n<em>Elite da Tropa 2<\/em> &#8211; Luiz Eduardo Soares, Claudio Ferraz, Andr\u00e9 Batista e Rodrigo Pimentel &#8211; Anacaona \u00c9ditions<br \/>\n<em>Cidade Livre<\/em> &#8211; Jo\u00e3o Almino &#8211; Editions Metaili\u00e9<br \/>\n<em>Leite Derramado<\/em> &#8211; Chico Buarque &#8211; Gallimard<br \/>\n<strong>Espanha<\/strong>:<br \/>\n<em>O Cemit\u00e9rio dos Vivos<\/em> &#8211; Lima Barreto &#8211; Ediciones Ambulante<br \/>\n<em>Mastigando Humanos<\/em> &#8211; Santiago Nazarian &#8211; Ediciones Ambulante<br \/>\n<em>O livreiro do Alem\u00e3o<\/em> &#8211; Ot\u00e1vio J\u00fanior &#8211; Ediciones Ambulante<br \/>\n<em>M\u00e9todo Pr\u00e1tico de Guerrilha <\/em>&#8211; Marcelo Ferroni &#8211; Alfaguara<br \/>\n<strong>Alemanha<\/strong>:<br \/>\n<em>Os Deuses de Raquel<\/em> &#8211; Moacyr Scliar &#8211; Hentrich &#038; Hentrich<br \/>\n<em>A Guerra no Bom Fim<\/em> &#8211; Moacyr Scliar &#8211; Hentrich &#038; Hentrich<br \/>\n<em>A Batalha do Apocalipse<\/em> &#8211; Eduardo Spohr &#8211; Heyne Verlag (Random House\/Bertelsmann)<br \/>\n<strong>Argentina<\/strong>:<br \/>\n<em>Ravenalas (Poemas 2004-2008)<\/em> &#8211; Hor\u00e1cio Costa &#8211; Gog y Magog<br \/>\n<em>Eles e Elas<\/em> &#8211; Julia Lopes de Almeida &#8211; Editorial Leviat\u00e1n<br \/>\n<strong>Su\u00e9cia<\/strong>:<br \/>\n<em>Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem<\/em> &#8211; Clarice Lispector &#8211; Tranan Publishers<br \/>\n<em>La\u00e7os de Fam\u00edlia<\/em> &#8211; Clarice Lispector &#8211; Tranan Publishers<br \/>\n<strong>Inglaterra<\/strong>:<br \/>\n<em>Litro Magazine Brazil Issue 2012<\/em> -V\u00e1rios autores &#8211; Editora Litro<br \/>\n<strong>Irlanda<\/strong>:<br \/>\n<em>Mensagem Para Voc\u00ea<\/em> &#8211; Ana Maria Machado &#8211; Little Island Books<br \/>\n<strong>Uruguai<\/strong>:<br \/>\n<em>V\u00e1rias Hist\u00f3rias<\/em> &#8211; Machado de Assis &#8211; Cruz del Sur<br \/>\n<strong>Holanda<\/strong>:<br \/>\n<em>Se eu fechar meus olhos agora<\/em> &#8211; Edney Silvestre &#8211; Uitgeverij De Arbeiderspers<\/p>\n<p>Uma lista, digamos, bem ecl\u00e9tica.  Abrange de cl\u00e1ssicos \u2013 Machado de Assis, Lima Barreto, Julia Lopes de Almeida \u2013 \u00e0 literatura fant\u00e1stica \u2013 Eduardo Spohr, passando por autores consagrados \u2013 Scliar, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Ana Maria Machado, Jorge Amado \u2013 at\u00e9 contempor\u00e2neos das mais variadas tend\u00eancias \u2013 Edney Silvestre, Hor\u00e1cio Costa, Marcelo Ferroni, Jo\u00e3o Almino, Alberto Mussa, Raimundo Carrero, Adriana Lisboa, Santiago Nazarian, Arthur Dapieve, Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, o quarteto de Tropa de Elite \u2013 e at\u00e9 mesmo o alternativo Ot\u00e1vio J\u00fanior e sua saga de livreiro no complexo do Alem\u00e3o. E o romancista Chico Buarque de Hollanda.<\/p>\n<p>Eis que o jornalista Jotab\u00ea Medeiros, no dia 18 passado, publica mat\u00e9ria recheada de cr\u00edticas \u00e0 Ministra Ana de Hollanda, entre as quais a de que a concess\u00e3o do aux\u00edlio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o do Leite Derramado \u201csuscitou protestos de algumas editoras cujos projetos foram preteridos\u201d.<\/p>\n<p>O jornalista Jotab\u00ea Medeiros tem todo direito de achar a Ana de Hollanda p\u00e9ssima ministra, cantora med\u00edocre e o que mais sua ilustr\u00edssima opini\u00e3o quiser. Tem todo direito de entrar na banda de vi\u00favos de ex-ministros, e de fazer o jogo de tend\u00eancias do PT que se sentem politicamente preteridas pela escolha da Presidente Dilma Rousseff. Problema dele e de suas opini\u00f5es e do jogo em que se envolve. Eu tamb\u00e9m tenho minhas opini\u00f5es. Por exemplo, n\u00e3o sou f\u00e3 da literatura do Chico Buarque, que considero superestimada.<\/p>\n<p>Mas, quando o jornalista pretende sustentar sua opini\u00e3o com uma declara\u00e7\u00e3o de que o apoio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o do romance do Chico \u201csuscitou protestos\u201d de inominadas editoras, a\u00ed a coisa complica, pois claramente entra no jogo da desinforma\u00e7\u00e3o.  E a ciranda prossegue. No dia seguinte, no mesmo jornal, Gabriel Manzano repete a desinforma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 transformada em \u201cverdade\u201d, posto que proveniente das p\u00e1ginas do vetusto matutino paulistano. <em>E la nave va<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>Como pode haver \u201ceditoras preteridas\u201d se todos os projetos apresentados foram aprovados? E mais, as editoras brasileiras podem at\u00e9 ter apresentado os autores ao mercado internacional, embora esse seja um trabalho feito principalmente pelos agentes liter\u00e1rios. Mas n\u00e3o tem recompensas financeiras pelo fato do autor ser traduzido: quem ganha s\u00e3o os autores e os agentes que os representam. No m\u00e1ximo, as editoras ganham prest\u00edgio, o que n\u00e3o \u00e9 pouco, mas certamente n\u00e3o \u00e9 determinante para o desempenho exitoso (ou n\u00e3o) dos autores no mercado brasileiro.<\/p>\n<p>A evidente manipula\u00e7\u00e3o do resultado de uma pol\u00edtica p\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional com vistas a atingir a Ministra da Cultura se ressalta nesse detalhe de inventar prejudicados onde esses n\u00e3o existiram. E \u2013 felizmente para a autora \u2013 se esqueceram que a Ana Maria Machado \u00e9 irm\u00e3 do Franklin Martins, o ex-ministro da Comunica\u00e7\u00e3o Social, considerado besta-fera em v\u00e1rias reda\u00e7\u00f5es de jornal\u00f5es pelo pa\u00eds afora. Se lembrassem, Ana Maria Machado, membro da Academia Brasileira de Letras e Pr\u00eamio Hans Christian Andersen, ia acabar tamb\u00e9m v\u00edtima da acusa\u00e7\u00e3o de beneficiada por nepotismo.<\/p>\n<p>Esse ambiente denuncista, esse neo-udenismo de fancaria (a Hist\u00f3ria se repete como farsa, j\u00e1 disse um fil\u00f3sofo barbudo) n\u00e3o contribui em nada para o debate pol\u00edtico aut\u00eantico. O miasma, essa emana\u00e7\u00e3o morb\u00edfica proveniente da podrid\u00e3o, exalada por esse tipo de mat\u00e9ria, compromete a integridade do jornal e do jornalista. <\/p>\n<p>Como o envolvido n\u00e3o \u00e9 o Edmond Safra e o ambiente denuncista acua o governo, o caso foi enviado \u00e0 Comiss\u00e3o de \u00c9tica P\u00fablica. A Gallimard, at\u00f4nita, fica esperando. O Chico, que j\u00e1 teve todos seus romances traduzidos por essa editora, vai chorar as pitangas e lamentar que a maninha tenha aceito administrar esse pepino (o que, de repente, vai render mais uma mat\u00e9ria, se ele expressar publicamente isso).<\/p>\n<p>E uma injustificada mancha corre o risco de cair sobre o necess\u00e1rio e bem estruturado programa de apoio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de autores brasileiros.<\/p>\n<p>\u00c9 a minha opini\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1992, publicamos, na falecida Marco Zero, o livro A Culpa \u00e9 da Imprensa? Ensaio sobre a Fabrica\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o, de Yves Mamou, jornalista franc\u00eas, editor de economia do Le Monde. 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