{"id":606,"date":"2011-11-18T10:26:00","date_gmt":"2011-11-18T13:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=606"},"modified":"2011-11-18T10:26:00","modified_gmt":"2011-11-18T13:26:00","slug":"memoria-historia-e-narrativa-a-partir-do-ponto-de-vista-de-uma-ficcionista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=606","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria, Hist\u00f3ria e Narrativa a partir do ponto de vista de uma ficcionista"},"content":{"rendered":"<p><em>O texto \u00e9 da Maria Jos\u00e9 Silveira e foi sua participa\u00e7\u00e3o no F\u00f3rum das Letras de Ouro Preto.<\/p>\n<p>A Maria Jos\u00e9 n\u00e3o gosta de improvisar quando participa de mesas-redondas. A vantagem \u00e9 produzir textos reflexivos e importantes sobre sua vida de escritora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, l\u00e1 vai:<\/em><\/p>\n<p>O tema que nos coube hoje \u00e9 grandioso, j\u00e1 que vamos tratar &#8211; nada mais nada menos &#8211; da tr\u00edade fundamental para a literatura. Uma tr\u00edade t\u00e3o entrela\u00e7ada que \u00e9 quase imposs\u00edvel dizer qual das partes \u00e9 , digamos, seu fundamento. Qual o ovo, qual a galinha.<\/p>\n<p>Mesmo assim, aqui, como uma proposta para come\u00e7ar nossa conversa, terei a ousadia de dizer que o fundamento do trio, a base desse tri\u00e2ngulo equil\u00e1tero, \u00e9 a narrativa, pois sem a narrativa n\u00e3o ter\u00edamos mem\u00f3ria e n\u00e3o conhecer\u00edamos a hist\u00f3ria. Tenho bons acompanhantes nessa escolha, inclusive aquele famoso comecinho que diz \u201cNo princ\u00edpio era o verbo\u201d, pois o que \u00e9 a narrativa sen\u00e3o o verbo? E tamb\u00e9m Roland Barthes, estudioso do tema, quando afirma que &#8220;a narrativa est\u00e1 presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades, come\u00e7a com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da humanidade.\u201d<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPara ser coerente com minha forma\u00e7\u00e3o de antrop\u00f3loga, ent\u00e3o, penso nos mitos propriamente ditos. Ou seja, na necessidade humana que faz da narrativa m\u00edtica a primeira tentativa de entender o mundo. Um mundo em que um dia \u2013 sabe-se l\u00e1 onde \u2013 aqueles nossos primeiros ancestrais \u2013 um homem e uma mulher \u2013 abriram os olhos e disseram: Caramba! O que eu sou? E voc\u00ea, o que \u00e9?!<\/p>\n<p>Esse espanto fundador da nossa humanidade \u2013 tomo outra vez a liberdade de presumir \u2013 certamente precisou de noites e noites ao redor das fogueiras para bolar uma narrativa que pudesse organizar, ainda que provisoriamente, sua resposta. A narrativa \u00e9 estruturante. O homem precisa dela para se entender e se situar, seja l\u00e1 onde for e em que per\u00edodo hist\u00f3rico estiver.<\/p>\n<p>Dessa fogueira pr\u00e9-hist\u00f3rica das narrativas para compreender o mundo ou organizar o n\u00e3o-compreendido, e tamb\u00e9m \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 fazer o tempo passar, ou seja, se entreter um pouco porque ningu\u00e9m \u00e9 de ferro, foi se formando nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>De fogueira em fogueira, o homem foi \u201cnarrando\u201d seu entendimento do que acontecia a sua volta, formando esse imenso \u201cinconsciente coletivo\u201d \u2013 ou como queiramos cham\u00e1-lo \u2013 que s\u00e3o as narrativas entrela\u00e7adas que herdamos de nossa cultura. Narrativas que foram formando e continuam formando nossa hist\u00f3ria e nossa mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>Aqui, pensemos um instante na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 a mem\u00f3ria social que nos narra a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Como \u00e9 a mem\u00f3ria individual, \u00fanica, que narra a hist\u00f3ria particular de cada um.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos nosso corpo e o que est\u00e1 inscrito em n\u00f3s pela mem\u00f3ria. \u00c9 a mem\u00f3ria que nos forma e nos faz ser quem somos e \u00e9 com ela que se forma nossa narrativa particular, nossa \u201chist\u00f3ria de vida\u201d.<\/p>\n<p>Sem nossa mem\u00f3ria, deixamos de ser quem somos. Se continuarmos vivendo sem ela, \u00e9 no estado vegetativo de um corpo abandonado \u2013 a casca de uma fruta que n\u00e3o tem mais miolo. Assim como uma sociedade sem mem\u00f3ria, que se tornaria amorfa e que nunca se viu porque seria imposs\u00edvel existir uma sociedade assim.<\/p>\n<p>\tComo seria imposs\u00edvel tamb\u00e9m uma sociedade sem Hist\u00f3ria. (Na verdade, alguns at\u00e9 j\u00e1 tentaram mat\u00e1-la mas n\u00e3o conseguiram.)<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria \u00e9 o processo de conflitos e transforma\u00e7\u00f5es que come\u00e7ou quando o homem come\u00e7ou e vai terminar quando ele terminar! Somos n\u00f3s, e nossa sociedade, produtos dela, e \u00e9 ela que est\u00e1 a nossa volta e nos p\u00f4s aqui, hoje, neste lugar. Ela, portanto, \u00e9 feita do mesmo material de que a literatura, a narrativa por excel\u00eancia, \u00e9 feita: homens, mulheres, movimento e conflitos.     <\/p>\n<p>      Digo ainda mais: eu acredito que a Hist\u00f3ria, em seu sentido mais amplo, \u00e9 a personagem por excel\u00eancia, embora invis\u00edvel, de qualquer narrativa ficcional. J\u00e1 que somos, como homens e, tamb\u00e9m como escritores, frutos de um determinado processo hist\u00f3rico. Nesse sentido, quando falamos de n\u00f3s mesmos, do hoje e do agora, ou quando falamos do passado (ou seja, da mem\u00f3ria) que nos formou, estamos sempre falando de um momento espec\u00edfico de uma hist\u00f3ria muito maior, a hist\u00f3ria da experi\u00eancia humana.<br \/>\nO pr\u00f3prio terreno do ficcionista, que \u00e9 o da imagina\u00e7\u00e3o e da linguagem, \u00e9 ele tamb\u00e9m formado, junto com o escritor, por esse mesmo processo. No caso da linguagem, isso \u00e9 sem d\u00favida unanimemente aceito; no da imagina\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes ainda n\u00e3o \u00e9 percebido, como se a imagina\u00e7\u00e3o pudesse ser algo fora de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Estamos todos, como seres humanos e como ficcionistas com nossas narrativas, mergulhados at\u00e9 o pesco\u00e7o nas \u00e1guas profundas dessa Hist\u00f3ria (com H mai\u00fasculo).<\/p>\n<p>Como disse Benedito Nunes, conhecido cr\u00edtico brasileiro: \u201cnarrar \u00e9 contar uma hist\u00f3ria, e contar uma hist\u00f3ria \u00e9 desenrolar a experi\u00eancia humana do tempo.\u201d (in \u201cNarrativa hist\u00f3rica e narrativa ficcional\u201d)<\/p>\n<p>\tEssa rela\u00e7\u00e3o com o tempo \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o constitutiva tanto da narrativa liter\u00e1ria quanto da mem\u00f3ria e da hist\u00f3ria e \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o mais geral, mais abrangente, que abarca qualquer narrativa e tamb\u00e9m a ficcional. Nem a literatura nem a hist\u00f3ria nem a mem\u00f3ria existem sem essa no\u00e7\u00e3o de tempo humano.<\/p>\n<p>Dizendo de outra maneira, o conceito de hist\u00f3ria implica movimento, transforma\u00e7\u00e3o que se desenrola em determinado espa\u00e7o-tempo. E o conceito de narrativa tamb\u00e9m implica em movimento \u2013 seja ele qual for: subjetivo, psicol\u00f3gico, descritivo, fant\u00e1stico, realista. O verbo narrar sup\u00f5e um acontecer, seja esse acontecer fora ou dentro dos cantos mais obscuros do subjetivo do nosso personagem. <\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que uma obra liter\u00e1ria de qualidade, quer seu autor pretenda ou n\u00e3o, \u00e9 sempre um texto entranhado de hist\u00f3ria. A obra liter\u00e1ria se situa no tempo \u2013 n\u00e3o s\u00f3 o tempo que ela narra mas, do mesmo modo, o tempo em que vive o escritor \u2013  e, queira ou n\u00e3o, ela dialoga a todo instante com esses dois momentos. As ideias e detalhes que ela expressa s\u00e3o evid\u00eancias \u2013 por mais subjetivas que sejam \u2013 de sua \u00e9poca. <\/p>\n<p>A obra dos autores contempor\u00e2neos, em um tempo futuro, falar\u00e1, com maiores ou menores detalhes, da \u00e9poca na qual ela est\u00e1 sendo produzida, deixar\u00e1 por escrito a mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 dos autores mas tamb\u00e9m de sua \u00e9poca. N\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s de dados muito concretos como, por exemplo, a descri\u00e7\u00e3o de uma rua, de uma casa, de uma cidade, roupas, objetos, ou do tipo da vida fragmentada, insegura, violenta que vivemos hoje, mas tamb\u00e9m da nossa mentalidade, nossos questionamentos, preocupa\u00e7\u00f5es, sentimentos, valores e desejos, ou seja, nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como diz tamb\u00e9m Thomas C. Forster, cr\u00edtico, professor e escritor americano:<\/p>\n<p>             \u201c&#8230;. dificilmente existe um romance que n\u00e3o revele, de alguma forma, seu momento hist\u00f3rico. Um livro pode ter seu cen\u00e1rio 800 anos atr\u00e1s ou muitos s\u00e9culos no futuro, pode at\u00e9 voar para al\u00e9m dos limites da terra para uma gal\u00e1xia muito, muito distante, mas ainda assim \u00e9 um produto do AGORA, quando quer que esse agora tenha sido. E o agora \u00e9 sempre um produto da \u00e9poca. A hist\u00f3ria vai entrar, quer se queira ou n\u00e3o.\u201d                                                          <\/p>\n<p>Assim, \u00e9 interessante constatar que, entre as v\u00e1rias camadas de leitura que uma obra de qualidade permite est\u00e1 embutida tamb\u00e9m a \u201cleitura do historiador\u201d do futuro que procurar\u00e1 nessa obra vest\u00edgios e tra\u00e7os da \u00e9poca em que viveu seu autor.  <\/p>\n<p>\tEssa constata\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 nada nova. <\/p>\n<p>\tContam que o historiador grego, Tuc\u00eddedes, s\u00f3 para dar um exemplo, foi buscar nas \u201cIl\u00edadas\u201d, de Homero, as dimens\u00f5es das antigas naves gregas. E nem \u00e9 preciso lembrar que os cl\u00e1ssicos de todos os tempos \u2013 Shakespeare, Cervantes, Cam\u00f5es, Tolst\u00f3i, Proust, Kafka, para citar alguns \u2013 deixaram, todos, belos testemunhos de seu tempo.<\/p>\n<p>Todos eles t\u00eam sido constantemente visitados por historiadores de hoje. Grandes romancistas de \u00e9pocas passadas compreenderam muito bem tudo isso.  Balzac, na introdu\u00e7\u00e3o a sua \u201cA Com\u00e9dia Humana &#8211; Cenas da Vida Privada\u201d, explicita: \u201cConcedo aos fatos constantes, cotidianos, secretos ou patentes, aos atos da vida individual, \u00e0s suas causas e aos seus princ\u00edpios, tanta import\u00e2ncia quanto a que os historiadores deram at\u00e9 ent\u00e3o aos acontecimentos da vida p\u00fablica das na\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\t\u00c9 curioso, no entanto, que muitos entre os romancistas contempor\u00e2neos tenham e alardeiam a falsa impress\u00e3o de que est\u00e3o como que \u201cfora\u201d da Hist\u00f3ria.  <\/p>\n<p>Talvez porque a liberdade que temos hoje felizmente \u00e9 tanta que a cria\u00e7\u00e3o pode come\u00e7ar com uma pequena ideia ou um esbo\u00e7o de ideia, e a escolha do tema pode vir de uma pequena frase, uma imagem, de uma sensa\u00e7\u00e3o ou um desejo, alguma coisa qualquer que pode ser clara, ou ent\u00e3o vaga ou nebulosa ou inexplic\u00e1vel, e funciona como um gatilho a partir do qual o escritor contempor\u00e2neo come\u00e7a a trabalhar. <\/p>\n<p>Essa liberdade \u00e9 maravilha. Para o ficcionista, tudo \u2013 ou quase tudo \u2013 \u00e9 permitido. A literatura \u2013 que os deuses do Olimpo a conservem assim! \u2013 \u00e9 o nosso territ\u00f3rio livre. <\/p>\n<p>Sem pudores e sem pedir licen\u00e7a, o escritor vai entrando nas intimidades, nos bastidores, nos cantos ocultos, no \u201chardcore\u201d da alma humana, e de l\u00e1 volta para tentar iluminar sombras e preencher vazios, articular os comportamentos sociais e culturais de uma \u00e9poca, conferir inteligibilidade \u00e0 trama dos eventos, ideias e epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o abre para o ficcionista uma porta por onde ele penetra na subjetividade de seus personagens e tenta chegar ao fundo do seu po\u00e7o de desejos, necessidades, e inquieta\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas.<\/p>\n<p>Por isso, talvez, por esse poder de sua imagina\u00e7\u00e3o, e porque o momento concreto de seu processo de cria\u00e7\u00e3o, o escritor deixa de ter a consci\u00eancia de que, seja qual for o tema que escolheu e a ideia da qual partiu, sua obra est\u00e1 dialogando com a \u00e9poca e o imagin\u00e1rio em que ele vive e, nesse sentido, em um tempo futuro \u2013 se sua obra permanecer \u2013 ela falar\u00e1 dessa sua \u00e9poca que, explicitamente ou n\u00e3o, \u00e9 sempre um de seus personagens.<\/p>\n<p>O que, sem d\u00favida, \u00e9 um dos atributos da grande obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Agora, se todo romance est\u00e1, do ponto de vista que estou colocando aqui, mergulhado nessa Hist\u00f3ria com H mai\u00fasculo, onde fica o romance que \u00e9 chamado de \u201chist\u00f3rico\u201d por tratar de uma trama que acontece em um momento do passado?<\/p>\n<p>Esse assim chamado \u201cromance hist\u00f3rico\u201d \u00e9 escrito hoje, como qualquer outro tipo de romance contempor\u00e2neo, por um autor do presente, ou seja, por um indiv\u00edduo que est\u00e1 imerso no imagin\u00e1rio do presente, utiliza os instrumentos do presente, e parte das perguntas e inquieta\u00e7\u00f5es do presente. <\/p>\n<p>O romance que ele escreve, portanto, \u00e9 uma obra contempor\u00e2nea como qualquer outra e com o mesmo tipo de olhar e voz. Ele tamb\u00e9m trabalha com a linguagem (seu ritmo e beleza), e mistura g\u00eaneros (se quiser). Apenas sua trama, seu argumento muda.<\/p>\n<p>A necessidade de classificar de \u201chist\u00f3rico\u201d esse tipo de romance sempre me pareceu meio obscura. A n\u00e3o ser como uma cataloga\u00e7\u00e3o bastante superficial, para efeitos, talvez de organizar o mundo liter\u00e1rio colocando suas pe\u00e7as em diferentes escaninhos, como quem arruma um arm\u00e1rio de roupas: cal\u00e7as aqui, vestidos ali, lingerie naquele canto.<\/p>\n<p>Para complicar ainda mais, no Brasil, hoje \u2013 n\u00e3o sei, de maneira nenhuma, explicar por que e nem vou tentar \u2013 h\u00e1 certo \u201ctorcer de nariz\u201d da cr\u00edtica quando o escritor trata de temas hist\u00f3ricos.  J\u00e1 me disseram \u2013 mas me parece t\u00e3o prim\u00e1rio que me recuso a levar a s\u00e9rio \u2013 que isso teria a ver com o fato da televis\u00e3o brasileira, quer dizer, a Globo, ter popularizado o tema hist\u00f3rico. Como se fosse poss\u00edvel confundir novelas televisivas com literatura.  <\/p>\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o que escuto, talvez mais pertinente ou ainda mais tola, remete a um suposto car\u00e1ter do brasileiro, em geral, que parece n\u00e3o se interessar muito por seu passado. Quer dar a impress\u00e3o de que nasceu com ele mesmo.  E isso contagiaria tamb\u00e9m a literatura feita hoje e os cr\u00edticos de hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Ser\u00e1 mesmo que somos assim?  Eu duvido um pouco.<\/p>\n<p>E seja como for, como ficcionista, acho incompreens\u00edvel essa tentativa de \u201cmatar\u201d a Hist\u00f3ria na literatura, como se isso fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>E assim como muitos querem matar a Hist\u00f3ria na literatura, outros querem matar a narrativa na literatura. (Sim, a hist\u00f3ria da literatura \u00e9 cheia dessas tentativas sanguin\u00e1rias, cheia de \u201csom e f\u00faria\u201d.) Felizmente, nenhuma deu muito certo. Mas vira e mexe esses pequenos assassinos \u00e0 espreita p\u00f5em seus olhinhos de fora. Estou me referindo aqui a experi\u00eancias de formalismo extremo, do nouveau roman e experi\u00eancias similares. Na cr\u00edtica \u00e0 impossibilidade de uma narrativa dar conta de qualquer totalidade (o que \u00e9 verdade), tenta-se jogar a pr\u00f3pria narrativa junto com a \u00e1gua da banheira (o que \u00e9 um disparate.).<\/p>\n<p>Todas essas quest\u00f5es me tocam de perto porque desde meu primeiro livro, o que me interessou como escritora foi um questionamento que tem tudo a ver com a hist\u00f3ria e mem\u00f3ria: como esse tema (esse personagem, essa quest\u00e3o) veio parar aqui, dessa maneira? O que significa?  <\/p>\n<p>Hoje, depois de cinco romances e v\u00e1rios outros livros de narrativas curtas, vejo com muita clareza que \u00e9 esse processo de transforma\u00e7\u00e3o que me interessa. Meus romances quase nunca ficam estacionados em uma \u00e9poca. Voltam para tr\u00e1s ou v\u00e3o para frente ou voltam e v\u00e3o. <\/p>\n<p>           No meu primeiro livro, \u201cA m\u00e3e da m\u00e3e de sua m\u00e3e e suas filhas\u201d, por exemplo, conto a saga da linhagem de uma fam\u00edlia cuja hist\u00f3ria come\u00e7a em 1500, com uma \u00edndia tupiniquim de seus 13 anos, chamada Inai\u00e1, e um marujo portugu\u00eas de nome Fern\u00e3o. E termina, em 2002, com uma jovem estilista chamada Maria Flor.<\/p>\n<p>\tE no meu romance mais recente, \u201cCom esse \u00f3dio e esse amor\u201d, tenho duas personagens principais: uma jovem engenheira que vai construir uma ponte na Col\u00f4mbia e \u00e9 sequestrada pelos guerrilheiros das FARC; e Jose Gabriel Condorcanqui, mais conhecido como Tupac Amaru, o l\u00edder peruano da primeira rebeli\u00e3o pela liberta\u00e7\u00e3o latino-americana. Entrela\u00e7o as hist\u00f3rias desses dois personagens em uma narrativa que vai e volta entre os s\u00e9culos XXI e XVIII.<\/p>\n<p>E como seria imposs\u00edvel de outra foram, j\u00e1 que sou uma escritora que vive neste momento presente, meus livros partem sempre de uma indaga\u00e7\u00e3o atual, uma preocupa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea.  Esse meu romance mais recente, \u201cCom esse \u00f3dio e esse amor\u201d, por exemplo, come\u00e7ou com meu interesse pelas FARC, uma guerrilha que existe at\u00e9 hoje, depois de mais de 40 anos \u2013 como \u00e9 poss\u00edvel isso, eu me perguntei? Desnecess\u00e1rio enfatizar a atualidade do tema j\u00e1 que nesse exato momento, enquanto falamos aqui, um sequestro das FARC pode estar ocorrendo em alguma estrada colombiana.  E a outra parte, a do Tupac Amaru, a primeira grande rebeli\u00e3o de independ\u00eancia na Am\u00e9rica que chegou inclusive a regi\u00f5es da Col\u00f4mbia, foi uma hist\u00f3ria que conheci por ter vivido v\u00e1rios anos no Peru.                                                      <\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de um romance nascem das paix\u00f5es do escritor. E o escritor s\u00f3 se apaixona por algo que lhe interessa profundamente. E a raz\u00e3o pela qual tal ou qual assunto lhe interessa a esse ponto s\u00f3 o que ele viveu, o que viu, o que aprendeu, pode explicar. S\u00f3 a partir do material que forma sua \u201chist\u00f3ria de vida\u201d e sua mem\u00f3ria \u00e9 que ele vai poder, de alguma forma, ter alguma coisa a narrar para o leitor. <\/p>\n<p>Por tudo isso, portanto, me parece bastante claro que fazer literatura, com seu m\u00e9todo e sua linguagem e a sua maneira, significa participar da hist\u00f3ria presente. Narrativa liter\u00e1ria, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria est\u00e3o ligadas por la\u00e7os indissol\u00faveis e fazem parte da mesma vontade de compreender o ser humano em seu tempo, seu cont\u00ednuo movimento, e sua transforma\u00e7\u00e3o que, esperamos \u2013 apesar dos ind\u00edcios contr\u00e1rios \u2013 possa ser, um dia, para melhor.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\tOuro Preto, novembro\/2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto \u00e9 da Maria Jos\u00e9 Silveira e foi sua participa\u00e7\u00e3o no F\u00f3rum das Letras de Ouro Preto. A Maria Jos\u00e9 n\u00e3o gosta de improvisar quando participa de mesas-redondas. A vantagem \u00e9 produzir textos reflexivos e importantes sobre sua vida de escritora. Ent\u00e3o, l\u00e1 vai: O tema que nos coube hoje \u00e9 grandioso, j\u00e1 que &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=606\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D606','Continue+lendo+Mem%C3%B3ria%2C+Hist%C3%B3ria+e+Narrativa+a+partir+do+ponto+de+vista+de+uma+ficcionista+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Mem\u00f3ria, Hist\u00f3ria e Narrativa a partir do ponto de vista de uma ficcionista<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[203,206,205,123,204],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=606"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":609,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions\/609"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}