{"id":415,"date":"2011-10-03T17:20:38","date_gmt":"2011-10-03T20:20:38","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=415"},"modified":"2011-10-03T20:42:00","modified_gmt":"2011-10-03T23:42:00","slug":"o-brasil-em-frankfurt-em-1994-%e2%80%93-1","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=415","title":{"rendered":"O Brasil em Frankfurt em 1994 \u2013 1"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_419\" aria-describedby=\"caption-attachment-419\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=419\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D419','logo+fkf_0001')\" rel=\"attachment wp-att-419\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/logo-fkf_00011-300x291.jpg\" alt=\"\" title=\"logo fkf_0001\" width=\"300\" height=\"291\" class=\"size-medium wp-image-419\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/logo-fkf_00011-300x291.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/logo-fkf_00011-1024x995.jpg 1024w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/logo-fkf_00011.jpg 1224w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-419\" class=\"wp-caption-text\">No logotipo da participa\u00e7\u00e3o brasileira, a esperan\u00e7a de um pa\u00eds de leitores<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA participa\u00e7\u00e3o do Brasil como \u201cPa\u00eds Tema\u201d da Feira do Livro de Frankfurt, em 1994, representou para mim e para a equipe que coordenou o evento durante quase tr\u00eas anos de trabalho, empenhados em que o pa\u00eds fizesse uma bela figura. O n\u00facleo central da equipe foi coordenado por Alfredo Weizsflog, representando a CBL, Regina Bilac Pinto, o SNEL, o Embaixador Wladimir Murtinho, do MinC, Embaixador S\u00e9rgio Telles, Chefe do Departamento Cultural do Itamaraty e M\u00e1rcio Souza, representando a Biblioteca Nacional. Na \u00e1rea executiva est\u00e1vamos com J\u00falio Heilbron e Gilberta Mendes, da EMC \u2013 Empresa de Marketing Cultural, na \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o, juntamente com Helo\u00edsa Alves. Eu era o encarregado de rela\u00e7\u00f5es institucionais, ajudando na converg\u00eancia das a\u00e7\u00f5es. Essa equipe, mais um punhado de curadores das exposi\u00e7\u00f5es, respondia junto aos \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es integrantes e colaboradoras do projeto, mais de vinte no Brasil e outro tanto na Alemanha.<br \/>\n<!--more--><br \/>\n O resultado foi um evento muito bem estruturado, com resultados que avaliamos, na \u00e9poca, como muito bons: uma enorme porta se abria para a difus\u00e3o n\u00e3o apenas dos autores brasileiros, mas da nossa cultura e da vitalidade do pa\u00eds, que se expressava no lema \u201cUm Encontro de Culturas\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7o aqui uma s\u00e9rie de posts sobre isso, seu contexto, seus problemas e o que se pode aprender com a experi\u00eancia de 1994 para que, em 2013, a literatura e a cultura brasileira brilhem em Frankfurt.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, no entanto, come\u00e7arei por uma avalia\u00e7\u00e3o publicada anos depois do evento por Peter Weidhaas, o Diretor da Feira do Livro de Frankfurt, em seu livro \u201cSee you in Frankfurt\u201d, pois os aspectos negativos ali mencionados nos proporcionar\u00e3o informa\u00e7\u00f5es do contexto que cercou nossa presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Transcrevo:<\/p>\n<p><em>\u201cO Brasil, por sua vez, n\u00e3o foi como eu esperava. Tr\u00eas bons amigos trabalharam para esse pa\u00eds convidado. Na frente estava Alfredo Weiszflog, o editor brasileiro de ascend\u00eancia alem\u00e3 de S\u00e3o Paulo, que, como presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro foi o respons\u00e1vel por toda a participa\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds. Depois havia a agente liter\u00e1ria Ray G\u00fcde-Mertin, de Bad Homburg, uma aglutinadora, que era especialmente dedicada \u00e0 literatura em l\u00edngua portuguesa. Eu a conheci j\u00e1 em 1971 quando fiz a exposi\u00e7\u00e3o de livros alem\u00e3es em S. Paulo, quando ela ainda estava nessa cidade. A \u00faltima pessoa era o livreiro de Frankfurt especializado em literatura em l\u00edngua portuguesa, Teo Mesquita, nascido na antiga col\u00f4nia portuguesa de Goa, agora \u00cdndia, que por mais de 20 anos procurava construir em Frankfurt uma base de clientes para autores brasileiros e portugueses.<br \/>\nTinha grandes expectativas na equipe brasileira baseado no empenho dessas tr\u00eas maravilhosas pessoas do livro. \u00c9 tamb\u00e9m verdade que os brasileiros n\u00e3o pouparam investimento. Como Alfredo me contou mais tarde, houve inclusive um d\u00e9ficit de US 750.000 que a C\u00e2mara do Livro teve que honrar e pagou em alguns anos. Tudo foi realmente bomb\u00e1stico \u2013 o pavilh\u00e3o brasileiro, e a meia d\u00fazia de livros ilustrados cuidadosamente editados sobre o Brasil, parte dos quais s\u00f3 chegou a Frankfurt depois da Feira. Esses livros, cada um em uma edi\u00e7\u00e3o de mais de 1.000 c\u00f3pias, devem ter custado o resgate de um rei. As apresenta\u00e7\u00f5es de autores brasileiros tiveram tamb\u00e9m um bom p\u00fablico. Havia interesse, mas n\u00e3o se conseguiu nenhum destaque, seja em algum aspecto particular do conte\u00fado ou com algum autor em particular. Havia Paulo Coelho, logo em seguida ao enorme sucesso de seu livro de 1988, O Alquimista, traduzido em 40 pa\u00edses, com mais de cinco milh\u00f5es de exemplares vendidos, alcan\u00e7ando o topo das listas de best-sellers pelo mundo afora. Ainda assim, as pessoas n\u00e3o foram capazes de concordar quanto a um autor realmente cintilante para falar na abertura. Terminaram trazendo um autor bem desinteressante, o professor Josu\u00e9 de Souza Montello, que pronunciou um discurso acad\u00eamico sobre a influ\u00eancia de Goethe na literatura brasileira e seus autores. O orador era um cavalheiro bem am\u00e1vel, que com voz suave contou esse tipo de anedota: &#8230; \u201cnaquele mesmo instante uma senhora me encontrou na entrada da Biblioteca Nacional e, com m\u00e3os tr\u00eamulas, queria me entregar um embrulho enorme. Disse ela, \u201cSou alem\u00e3, vi\u00fava do Dr. Juliano Moreira. Ouvi falar dessa exposi\u00e7\u00e3o e estou trazendo esse presente \u2013 um busto de Goethe, que ficava na mesa do meu marido\u201d.<br \/>\nTudo isso era bem intencionado, mas n\u00e3o era adequado para quem queria inspirar o p\u00fablico alem\u00e3o com as coisas brasileiras. Estou convencido que a escolha do orador foi feita pelo governo brasileiro, que estava muito envolvido financeiramente. Aprendemos que \u00e9 a abertura da Feira do Livro que determina a for\u00e7a da conquista do p\u00fablico para um t\u00f3pico\u201d. (p\u00e1gs. 239\/240)<br \/>\n<\/em><br \/>\nEncerra-se a transcri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Analisemos primeiro a quest\u00e3o substantiva levantada por Weidhaas que \u00e9, de fato, a escolha de Josu\u00e9 Montello para o discurso da abertura. <\/p>\n<p>Visto em retrospectiva, realmente observamos que os autores convidados para a abertura da Feira de Frankfurt quase sempre tiveram um papel de destaque, seja porque eram estrelas do universo liter\u00e1rio, ou porque sua escolha fora objeto de pol\u00eamicas no pa\u00eds homenageado. Alguns exemplos: 1988 \u2013 It\u00e1lia \u2013 Umberto Eco (logo depois de <em>O Nome da Rosa<\/em>); 1989, Fran\u00e7a: a estrela foi Jack Lang, Ministro da Cultura \u201cpopstar\u201d; M\u00e9xico, 1992 \u2013 Grande disputa entre dois egos gigantescos, o de Carlos Fuentes e Oct\u00e1vio Paz. Ganha Paz e Fuentes fica em casa, amuado; 1993 \u2013 Flandres (B\u00e9lgica) e Holanda: outra briga, deste vez entre Cees Notteboom e Harry Mulisch, com o \u00faltimo ganhando a distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do evento brasileiro, com a concord\u00e2ncia do Affonso Romano de Sant\u2019Anna, ent\u00e3o Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, optou por uma \u201csolu\u00e7\u00e3o institucional\u201d: Josu\u00e9 Montello era o Presidente da Academia Brasileira de Letras e, nessa condi\u00e7\u00e3o, seria o orador da abertura.<\/p>\n<p>Pela avalia\u00e7\u00e3o de Weidhaas, cometemos grande erro.<\/p>\n<p>Cometemos?<\/p>\n<p>Lembrem-se: em pelo menos dois casos (M\u00e9xico e Holanda), a escolha de quem faria o discurso de abertura provocou pol\u00eamicas amargas que deixaram sequelas nos respectivos pa\u00edses.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 muito simples: ego. Ego de escritor (e dos artistas em geral) \u00e9 monumental. A preocupa\u00e7\u00e3o de Weiszflog e da organiza\u00e7\u00e3o brasileira era a de minimizar a possibilidade de pol\u00eamicas desagregadoras, principalmente porque isso n\u00e3o interessava aos editores. No final, n\u00e3o se conseguiu isso, e tivemos disputas de ego muito significativas n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escolha de quem discursaria na abertura (a escolha do presidente da ABL acalmou os \u00e2nimos nesse sentido), mas sim quanto a quem faria parte das \u201cdelega\u00e7\u00f5es oficiais\u201d. Veremos mais adiante.<\/p>\n<p>Mas, do epis\u00f3dio Montello e da avalia\u00e7\u00e3o de Peter Weidhaas fica uma advert\u00eancia: Frankfurt espera \u2013 ainda que de modo subjacente \u2013 um nome pol\u00eamico que atraia aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e da m\u00eddia para fazer o discurso de abertura.<\/p>\n<p>Os organizadores da participa\u00e7\u00e3o brasileira em 2013 ter\u00e3o que enfrentar esse dilema, tanto maior quanto pela aus\u00eancia de um nome de repercuss\u00e3o internacional na literatura brasileira, salvo o j\u00e1 mencionado por Weidhaas: Paulo Coelho.<\/p>\n<p>Fora Coelho, qualquer outro nome ligado \u00e0 literatura contempor\u00e2nea se revela pequeno no contexto internacional. Digo isso independentemente dos m\u00e9ritos liter\u00e1rios de v\u00e1rios grandes escritores brasileiros contempor\u00e2neos, mas h\u00e1 que reconhecer que sua proje\u00e7\u00e3o internacional e \u2013 consequentemente \u2013 a capacidade de chamar aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico alem\u00e3o e da m\u00eddia internacional s\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, muito reduzidas.<\/p>\n<p>Como gosto de provocar, deixo logo minha sugest\u00e3o: convidar o ex-presidente Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva para fazer o discurso de abertura da feira. E n\u00e3o lhe faltam m\u00e9ritos no \u00e2mbito da ind\u00fastria editorial e da educa\u00e7\u00e3o que o credenciem: Plano Nacional do Livro e Leitura; Desonera\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva do livro; Mais Cultura; aumento do n\u00famero de universidades e escolas t\u00e9cnicas e do investimento na educa\u00e7\u00e3o e na cultura.<\/p>\n<p>E, com certeza, vai chamar toda a aten\u00e7\u00e3o que precisamos para as dezenas de autores que l\u00e1 estar\u00e3o.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, em outro post, al\u00e9m de comentar outras observa\u00e7\u00f5es de Weidhaas, tratarei de como foi elaborado o programa da participa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A participa\u00e7\u00e3o do Brasil como \u201cPa\u00eds Tema\u201d da Feira do Livro de Frankfurt, em 1994, representou para mim e para a equipe que coordenou o evento durante quase tr\u00eas anos de trabalho, empenhados em que o pa\u00eds fizesse uma bela figura. 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