{"id":395,"date":"2011-09-27T13:43:57","date_gmt":"2011-09-27T16:43:57","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=395"},"modified":"2011-10-09T20:12:44","modified_gmt":"2011-10-09T23:12:44","slug":"o-portugues-brasileiro-no-mundo-e-a-traducao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=395","title":{"rendered":"O portugu\u00eas brasileiro no mundo e a tradu\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=396\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D396','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-396\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar4.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar\" width=\"859\" height=\"424\" class=\"aligncenter size-full wp-image-396\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar4.jpg 859w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar4-300x148.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 859px) 100vw, 859px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande fator de consolida\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o das l\u00ednguas liter\u00e1rias. Mesmo depois de sua consolida\u00e7\u00e3o \u2013 geralmente por um processo pol\u00edtico, mas que inclui em muitos casos a cristaliza\u00e7\u00e3o em uma grande obra liter\u00e1ria \u2013 o enriquecimento dos idiomas sempre se dinamiza com a poliniza\u00e7\u00e3o feita pelas tradu\u00e7\u00f5es. No caso das l\u00ednguas neolatinas, deu-se a necessidade de traduzir os textos origin\u00e1rios do latim, que em muitos casos j\u00e1 eram tradu\u00e7\u00f5es do grego, e mais ainda, tradu\u00e7\u00f5es feitas atrav\u00e9s do \u00e1rabe.  No caso do ingl\u00eas e do alem\u00e3o as respectivas tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia foram fator important\u00edssimo na cristaliza\u00e7\u00e3o dos respectivos idiomas. As tradu\u00e7\u00f5es de Lutero e a do Rei Jaime introduziram e consolidaram muitas palavras e express\u00f5es que, paulatinamente, se tornaram comuns no alem\u00e3o e no ingl\u00eas.<\/p>\n<p>No decorrer da hist\u00f3ria, algumas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais fazem que, em um determinado per\u00edodo, alguns idiomas assumam um papel predominante. No in\u00edcio do mundo moderno o portugu\u00eas e o espanhol assumiram esse papel, e espalharam voc\u00e1bulos pelo mundo afora. Mais tarde foi a vez do franc\u00eas, a l\u00edngua da diplomacia, talvez a primeira \u2013 depois da elimina\u00e7\u00e3o do latim \u2013 a se tornar \u201cl\u00edngua franca\u201d no chamado Ocidente. Finalmente o ingl\u00eas, impulsionando primeiro pelo Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e depois pela preponder\u00e2ncia econ\u00f4mica e militar dos Estados Unidos, assumiu esse papel.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nEssa preponder\u00e2ncia aparece de modo muito concreto no mundo editorial, evidenciando-se sob duas formas. Em primeiro lugar, o ingl\u00eas \u00e9 o idioma de origem da imensa maioria das tradu\u00e7\u00f5es feitas para qualquer outro idioma. Em segundo lugar, o idioma ingl\u00eas \u2013 e particularmente o que se expressa nos livros publicados nos Estados Unidos \u2013 \u00e9 o que menos recebe tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Chad Post, professor da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, mant\u00e9m um site chamado \u201c<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.rochester.edu\/College\/translation\/threepercent\/');\"  href=\"http:\/\/www.rochester.edu\/College\/translation\/threepercent\/\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fwww.rochester.edu%2FCollege%2Ftranslation%2Fthreepercent%2F','The+Three+Percent+Problem')\" target=\"_blank\">The Three Percent Problem<\/a>\u201d. O nome vem da avalia\u00e7\u00e3o feita por ele que ao norte apenas tr\u00eas por cento das publica\u00e7\u00f5es nos EUA s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es, e que isso estreita a vis\u00e3o do mundo dos americanos. Chad Post \u00e9 um batalhador pelo aumento das tradu\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos. H\u00e1 alguns anos o secret\u00e1rio da Academia Sueca tamb\u00e9m \u201cacusou\u201d a literatura estadounidense de provinciana e limitada por n\u00e3o receber a influ\u00eancia da literatura universal. <\/p>\n<p>\u00c0 parte a ranhetice do sueco, o fato \u00e9 que, n\u00e3o apenas na literatura, mas tamb\u00e9m nas ci\u00eancias, o predom\u00ednio do ingl\u00eas \u00e9 avassalador. T\u00e3o grande que gera rea\u00e7\u00f5es bem caracter\u00edsticas em diferentes pa\u00edses, geralmente bradando por um apoio especial para suas literaturas e na promo\u00e7\u00e3o dos respectivos escritores. E os norteamericanos acabam se encerrando em sua autossufici\u00eancia.<\/p>\n<p>A UNESCO mantem um arquivo chamado \u201c<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/portal.unesco.org\/culture\/en\/ev.php-URL_ID=7810&#038;URL_DO=DO_TOPIC&#038;URL_SECTION=201.html');\"  href=\"http:\/\/portal.unesco.org\/culture\/en\/ev.php-URL_ID=7810&#038;URL_DO=DO_TOPIC&#038;URL_SECTION=201.html\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fportal.unesco.org%2Fculture%2Fen%2Fev.php-URL_ID%3D7810%26URL_DO%3DDO_TOPIC%26URL_SECTION%3D201.html','Index+Translationum')\" target=\"_blank\">Index Translationum<\/a>\u201d, desde 1932. A partir de 1979 as informa\u00e7\u00f5es foram colocadas online e servem de base para algumas observa\u00e7\u00f5es interessantes. Recentemente estudei essas informa\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o de um projeto em que trabalho no Ita\u00fa Cultural, o \u201cConex\u00f5es &#8211; Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira\u201d (www.conexoesitaucultural.org.br), que pretende montar um banco de dados com informa\u00e7\u00f5es de pesquisadores, professores e tradutores da literatura brasileira no exterior. J\u00e1 temos mais de 200 mapeados e continuamos crescendo, e v\u00e1rios quadros estat\u00edsticos que podem ser vistos no site.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de alguns dados do Index revelou-se interessante. Dos cinquenta autores mais traduzidos no mundo, segundo o Index, nada menos que vinte e dois s\u00e3o de l\u00edngua inglesa, seis s\u00e3o alem\u00e3es e franceses, quatro russos, um polon\u00eas (Jo\u00e3o Paulo II), um grego (Plat\u00e3o), uma sueca (Astrid Lindgren), um checo (Kafka), um dinamarqu\u00eas (Andersen) e um \u201ccoletivo\u201d. Ou seja, 44% do total s\u00e3o de l\u00edngua inglesa. \u00c9 muito para um s\u00f3 idioma.<\/p>\n<p>Entretanto, dos vinte pa\u00edses que mais publicam tradu\u00e7\u00f5es, os Estados Unidos est\u00e3o em 11\u00ba. lugar e a Inglaterra n\u00e3o est\u00e1 no grupo. E, considerando o tamanho da produ\u00e7\u00e3o editorial e a popula\u00e7\u00e3o dos EUA, essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 sintom\u00e1tica da falta de interesse pelo que se escreve no resto do mundo. O pa\u00eds que mais traduz \u00e9 a Alemanha, o Brasil est\u00e1 em 12\u00ba. lugar, logo depois da China. Esses n\u00fameros dizem respeito a todos os tipos de tradu\u00e7\u00e3o, das ci\u00eancias humanas e sociais \u00e0s ci\u00eancias naturais e exatas, e \u00e0 literatura.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es confirmam a percep\u00e7\u00e3o de que os Estados Unidos s\u00e3o \u201cexportadores idiom\u00e1ticos\u201d muito maiores que importadores. E a Alemanha absorve gulosamente em seu idioma uma boa parte do que se escreve pelo resto do mundo.<\/p>\n<p>As recentes iniciativas da Biblioteca Nacional de melhorar o programa de bolsas para a tradu\u00e7\u00e3o podem contribuir um pouco para aumentar a presen\u00e7a brasileira (e, por conseguinte, do portugu\u00eas), no panorama. Mas certamente n\u00e3o v\u00e3o alterar o quadro geral.<\/p>\n<p>Ao manusear os question\u00e1rios enviados pelos mapeados do Conex\u00f5es percebemos tamb\u00e9m um problema ligado a esse interc\u00e2mbio idiom\u00e1tico: nosso mercado editorial \u00e9 muito pobre em dicion\u00e1rios. Nos \u00faltimos vinte anos tivemos a publica\u00e7\u00e3o no Brasil de dois importantes dicion\u00e1rios do portugu\u00eas, o Aur\u00e9lio e o Houaiss, al\u00e9m do Dicion\u00e1rio da Academia de Ci\u00eancias de Lisboa (Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa Contempor\u00e2nea). Todos referentes ao portugu\u00eas contempor\u00e2neo, sem nenhum que tenha um alcance hist\u00f3rico e filol\u00f3gico que mesmo de longe possa ser comparado ao OED \u2013 Oxford English Dictionary (mas esse, ep\u00edtome da lexicografia, dificilmente ser\u00e1 algum dia emulado).<\/p>\n<p>Na \u00e1rea dos dicion\u00e1rios t\u00e9cnicos a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais prec\u00e1ria. Temos a Enciclop\u00e9dia Agr\u00edcola Brasileira, projeto da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, que se destaca nesse panorama. Existem, \u00e9 claro, v\u00e1rios dicion\u00e1rios especializados de direito, economia, ci\u00eancias naturais, mas h\u00e1 uma queixa constante de tradutores a prop\u00f3sito da insufici\u00eancia de nossa produ\u00e7\u00e3o lexicogr\u00e1fica. Os dicion\u00e1rios de g\u00edria e express\u00f5es idiom\u00e1ticas s\u00e3o quase todos folcl\u00f3ricos, al\u00e9m de limitados, produzidos mais a partir de uma perspectiva bairrista do que com rigor cient\u00edfico.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 particularmente sens\u00edvel na \u00e1rea dos dicion\u00e1rios bil\u00edngues, onde a presen\u00e7a daqueles produzidos em Portugal \u00e9 muito maior que a dos brasileiros.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de dicion\u00e1rios \u00e9 uma tarefa cara, exige investimentos consider\u00e1veis e de longo prazo. No mercado editorial, acrescente-se agora a necessidade premente de que sejam produzidas vers\u00f5es eletr\u00f4nicas, e essas t\u00eam sido v\u00edtimas implac\u00e1veis da c\u00f3pia n\u00e3o autorizada. <\/p>\n<p>A elabora\u00e7\u00e3o de dicion\u00e1rios nas diferentes \u00e1reas t\u00e9cnicas e tamb\u00e9m de dicion\u00e1rios bil\u00edngues merece uma aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de pol\u00edticas governamentais, o que at\u00e9 hoje n\u00e3o existiu.<\/p>\n<p>Pior ainda, nos \u00faltimos anos \u2013 em particular entre 1994 e 2002 \u2013 houve um recuo do Itamaraty na manuten\u00e7\u00e3o dos Centros de Estudos Brasileiros, onde se d\u00e3o cursos de portugu\u00eas e se desenvolve \u2013 nos que sobraram \u2013 uma importante a\u00e7\u00e3o cultural. Foram tamb\u00e9m encerradas c\u00e1tedras de portugu\u00eas em algumas universidades europeias e norte-americanas onde existiam.<\/p>\n<p>Tudo isso contrasta com a a\u00e7\u00e3o do Instituto Cam\u00f5es, de Portugal, e o Instituto Cervantes, da Espanha. Duas institui\u00e7\u00f5es que, apesar das recentes restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias, principalmente em Portugal, aplicam uma pol\u00edtica proativa de promo\u00e7\u00e3o do idioma, de est\u00edmulo ao seu ensino e da tradu\u00e7\u00e3o de seus autores. Com o devido respeito \u00e0 lusofonia, n\u00e3o podemos ficar dependentes dos portugueses para a difus\u00e3o do idioma, e urge tornar real a antiga promessa da cria\u00e7\u00e3o do Instituto Machado de Assis para a promo\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas falado no Brasil e de nossos autores. Essa \u00e9 uma tarefa \u00e0 qual n\u00e3o podem se furtar o Itamaraty, o Minist\u00e9rio da Cultura e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande fator de consolida\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o das l\u00ednguas liter\u00e1rias. Mesmo depois de sua consolida\u00e7\u00e3o \u2013 geralmente por um processo pol\u00edtico, mas que inclui em muitos casos a cristaliza\u00e7\u00e3o em uma grande obra liter\u00e1ria \u2013 o enriquecimento dos idiomas sempre se dinamiza com a poliniza\u00e7\u00e3o feita pelas tradu\u00e7\u00f5es. 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