{"id":3255,"date":"2020-06-10T11:20:33","date_gmt":"2020-06-10T14:20:33","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3255"},"modified":"2020-06-10T11:20:37","modified_gmt":"2020-06-10T14:20:37","slug":"producao-e-vendas-de-livros-perguntas-mais-que-reflexoes-sobre-a-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3255","title":{"rendered":"Produ\u00e7\u00e3o e vendas de livros. Perguntas \u2013 mais que reflex\u00f5es \u2013 sobre a pesquisa"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena lembrar que a pesquisa de Produ\u00e7\u00e3o e Vendas do Mercado Editorial nasceu de uma reuni\u00e3o de t\u00e9cnicos em informa\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es de dados estat\u00edsticos, organizada pelo CERLALC e feita na Bienal do Livro de S. Paulo de 1990. A iniciativa de propor a reuni\u00e3o no contexto da Bienal foi do Alfredo Weiszflog, ex-presidente da CBL e diretor da entidade na \u00e9poca. Para a reuni\u00e3o vieram colegas de v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, al\u00e9m do secret\u00e1rio geral do CERLALC na \u00e9poca (o nome me escapa) e um representante do Census Bureau dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes mesmo da reuni\u00e3o, Alfredo j\u00e1 havia me convocado para participar da equipe de dois (ele e eu), que deveria pensar modos de recolher informa\u00e7\u00f5es do mercado editorial brasileira. J\u00e1 havia consenso majorit\u00e1rio na diretoria da CBL (n\u00e3o unanimidade) de que informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis sobre o mercado eram componente essencial para duas \u00e1reas, al\u00e9m de acabar com o chut\u00f4metro at\u00e9 ent\u00e3o imperante: 1) para detectar tend\u00eancias; 2) para ter for\u00e7a em negocia\u00e7\u00f5es com governo, outras entidades e o p\u00fablico em geral, mostrando o tamanho e a import\u00e2ncia do mercado editorial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Foi uma trajet\u00f3ria longa que se iniciou ali, e bem que mal completa este ano sua trig\u00e9sima edi\u00e7\u00e3o. A CBL montou uma \u201cComiss\u00e3o de Pesquisa\u201d, entre representantes de seus associados, que supervisionava e discutia perspectivas e resultados. At\u00e9 quando permaneci na CBL, em 2002, a participa\u00e7\u00e3o e interesse dos membros da Comiss\u00e3o de Pesquisa era intensa, e desde o in\u00edcio, dentre outros princ\u00edpios, foi decidido que os dados seriam divulgados mesmo que apresentassem n\u00fameros desfavor\u00e1veis ao mercado. Era uma \u00e9poca tamb\u00e9m quando listas de bestsellers, divulga\u00e7\u00e3o do n\u00famero de tiragens pelos editores, quantidade de pessoas presentes nas feiras e bienais costumava ser fantasmag\u00f3rica. Tudo aumentava&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da pesquisa havia a prepara\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio de divulga\u00e7\u00e3o para a imprensa e o p\u00fablico em geral, mas havia tamb\u00e9m um relat\u00f3rio bem mais detalhado dos dados, que era enviado aos s\u00f3cios. Como n\u00e3o sou s\u00f3cio nem da CBL nem do SNEL, h\u00e1 anos que n\u00e3o leio o relat\u00f3rio completo, que suponho continue sendo produzido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim, com base no divulgado e na apresenta\u00e7\u00e3o feita hoje, meus pitacos (d\u00favidas e aplausos).<\/p>\n\n\n\n<p>A coordenadora informou que a amostragem incluiu \u201c61%\u201d do mercado. Mais adiante qualificou o assunto explicitou que os livros digitais n\u00e3o entraram, e que est\u00e3o sendo objeto de outra pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas eu me pergunto: como se chegou a essa porcentagem da amostra?<\/p>\n\n\n\n<p>Explico. As empresas participantes s\u00e3o divididas em categorias pelo faturamento: grandes, m\u00e9dias, pequenas, al\u00e9m do setor ou subsetor. Para projetar a produ\u00e7\u00e3o total e o faturamento, uma amostra que inclua, por exemplo, 90% das did\u00e1ticas (bem poss\u00edvel), mais um tanto das grandes de livros em geral, \u00e9 mais que suficiente. As editoras pequenas pouco contribuem para o c\u00e1lculo do volume de produ\u00e7\u00e3o, e isso pode ser projetado. Entretanto, as editoras pequenas e m\u00e9dias t\u00eam um papel importante para a detectar a bibliodiversidade da produ\u00e7\u00e3o editorial. Autores novos (nacionais e estrangeiros), ou pouco conhecidos (mas de reconhecida qualidade) e eventualmente de prest\u00edgio (mas poucas vendas) s\u00e3o publicados principalmente pelas pequenas e m\u00e9dias, que arriscam mais, seja por princ\u00edpio, seja por necessidade (os adiantamentos s\u00e3o menores, \u00e9 claro).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, dizer que a amostra abarca 61% do mercado suscita a pergunta: de produ\u00e7\u00e3o de exemplares ou de t\u00edtulos? Qual a diversidade e abrang\u00eancia dos temas editados no Brasil? Pode-se desenhar uma tend\u00eancia a partir da s\u00e9rie hist\u00f3rica? A estrutura da amostra \u00e9 crucial para se entender isso. Anteriormente os temas eram listados a partir de uma tabela do ISBN, simplificada. Provavelmente hoje seja mais f\u00e1cil ampliar isso com outros c\u00f3digos de metadados.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser que essa informa\u00e7\u00e3o esteja no relat\u00f3rio completo. Quem s\u00f3 acompanha a divulga\u00e7\u00e3o est\u00e1 manco.<\/p>\n\n\n\n<p>Pre\u00e7o m\u00e9dio. Logo no come\u00e7o, a Mariana Bueno reconheceu que s\u00e3o muitos os fatores que condicionam o que se poderia chamar de pre\u00e7o m\u00e9dio: tamanho, acabamento, n\u00famero de p\u00e1ginas. Cert\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, logo adiante, revelou: o c\u00e1lculo \u00e9 feito simplesmente pela divis\u00e3o do faturamento \u2013 l\u00edquido, \u00e9 claro \u2013 pela quantidade de exemplares vendidos. Assim, um livro para crian\u00e7as que custe R$ 20,00 \u00e9 somado com os livros CTP que podem custar mais de R$ 100,00. Qual a m\u00e9dia disso? Sem mencionar como se descobre o desconto m\u00e9dio&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O Marcos da Veiga Pereira mencionou um fato real, e que a maioria dos livros tem o pre\u00e7o (de capa) fixado hoje por raz\u00f5es mercadol\u00f3gicas em categorias (geralmente com os famosos 90 centavos finais, porque n\u00e3o sei quem d\u00e9cadas atr\u00e1s descobriu que era mais f\u00e1cil vender qualquer coisa sem o n\u00famero redondo&#8230;). E essa defini\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os est\u00e1, em grande medida, influenciada por formatos. As editoras n\u00e3o informariam, qual o pre\u00e7o de capa de cada livro, mas se quisermos mesmo usar esse conceito de pre\u00e7o m\u00e9dio, dessa maneira \u00e9 que n\u00e3o se chega a nada significativo. J\u00e1 discuti esse assunto em 2011, e remeto para o <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=672\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D672','post')\" target=\"_blank\">post<\/a>.  O que n\u00e3o d\u00e1 \u00e9 somar o peso de laranja, mam\u00e3o, morango e melancia e dividir pelo total das frutas para achar um ficcional e in\u00fatil \u201cpeso m\u00e9dio\u201d da frutaria. H\u00e1 que imaginar outras maneiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m desse ponto dos formatos, o faturamento \u00e9 influenciado tamb\u00e9m pelos diferentes n\u00edveis de desconto. As grandes redes t\u00eam mais poder de barganha e, portanto, descontos maiores. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de subproblema embutido nisso: para ter sua remunera\u00e7\u00e3o m\u00ednima, a editora deve calcular o pre\u00e7o considerando principalmente o maior n\u00edvel de descontos para que o recebido por cada exemplar possa efetivamente recuperar o investimento, os direitos autorais e a margem da editora (inclusive a rota\u00e7\u00e3o do estoque, que \u00e9 um problema \u00e0 parte). A consequ\u00eancia: isso influi no pre\u00e7o de capa (que \u00e9 nominal, mas \u00e9 a base do pagamento de D.A.s) j\u00e1 que, para maior n\u00edvel, de descontos maior tem que ser esse pre\u00e7o nominal. Os ingressos das vendas est\u00e3o sempre em descompasso com as despesas correntes e os investimentos da editora.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O resultado \u00e9 que a bicicleta tem sempre que correr e planejar (ou torcer) para os best-sellers ou os livros da moda (felizes anos do porn\u00f4-chic dos \u201c50 tons de cinza\u201d e similares e dos livros de desenhar&#8230;) compensarem tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mariana Bueno tem toda raz\u00e3o ao afirmar que a metodologia da pesquisa n\u00e3o mudou, todos esses anos. N\u00e3o mudou no essencial, o que \u00e9 fundamental para as compara\u00e7\u00f5es (e houve uma quebra da s\u00e9rie hist\u00f3rica quando se fez uma reavalia\u00e7\u00e3o do universo das editoras pesquisadas). N\u00e3o mudou no essencial, mas foi sendo aperfei\u00e7oada no decorrer doa anos, e acredito (sem ter acesso aos relat\u00f3rios completos) que possa ser ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00faltimo ponto no que diz respeito aos dados de produ\u00e7\u00e3o e vendas. Acredito que seja urgente unificar o recolhimento dos dados das vendas de conte\u00fados digitais, incluindo os audiobooks (ainda poucos por aqui, mas melhor inclu\u00ed-los enquanto s\u00e3o poucos), para que se tenha uma dimens\u00e3o mais realista do mercado editorial brasileiro, sua dimens\u00e3o e seus problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aperfei\u00e7oamento positivo, sem d\u00favida, foi a especifica\u00e7\u00e3o da porcentagem de livros vendidos nas chamadas livrarias \u201cexclusivamente digitais\u201d. A Nielsen tem os dados de venda direto de algumas dessas livrarias (os magazines digitais como Submarino, Americanas e cong\u00eaneres), mas depende das informa\u00e7\u00f5es das editoras para ter os dados da Amazon, que \u00e9 opaca e s\u00f3 divulga os dados de venda diretamente aos fornecedores. S\u00f3 que a Amazon tamb\u00e9m vende de outras pequenas editoras, autores independentes e pelo KDP. Mas esse \u00e9 um problema geral da varejista, que vem sendo enfrentado de v\u00e1rias maneiras no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcos da Veiga Pereira fez uma observa\u00e7\u00e3o muito pertinente: os livros digitais n\u00e3o criam leitores, crescem na medida em que j\u00e1 exista uma grande base de leitores. Mas colocaria um pouco de sal nessa observa\u00e7\u00e3o. Considerando os problemas de log\u00edstica que enfrentamos (um livro pode levar um m\u00eas pelo correio para chegar no interior do Amazonas, por exemplo), explorar a potencialidade de entrega do livro digital \u00e9 importante. O mesmo vale para os milh\u00f5es de brasileiros que vivem no exterior. Possivelmente o \u00edndice de leitores entre eles seja ainda menor que o da popula\u00e7\u00e3o geral, mas nunca \u00e9 desprez\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa detectou um ainda pequeno, mas significativo, sinal de recupera\u00e7\u00e3o das vendas das editoras em 2018. Foi o ano em que estourou de vez as crises da Saraiva e da Cultura, de modo que essa recupera\u00e7\u00e3o de fato revela uma resili\u00eancia do mercado editorial em diversificar os canais de venda. Mariana Bueno atribui a recupera\u00e7\u00e3o do valor total de faturamento a uma recupera\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os \u201cm\u00e9dio\u201d. Recupera\u00e7\u00e3o, de fato, houve. Duas interroga\u00e7\u00f5es ficam para este ano: foi o tal \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d ou a diversifica\u00e7\u00e3o? E ser\u00e1 que essa recupera\u00e7\u00e3o deu f\u00f4lego suficiente para enfrentar a pandemia? Pelas informa\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas mais recentes, inclusive o n\u00famero de demiss\u00f5es, isso provoca d\u00favidas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que esses problemas fogem da quest\u00e3o dos dados e do recolhimento de informa\u00e7\u00f5es. Mas sempre tenho em mente um dos lemas que ouvi de um distribuidor de porta-a-porta: vamos buscar e entregar o livro donde quer que o cliente esteja&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vale a pena lembrar que a pesquisa de Produ\u00e7\u00e3o e Vendas do Mercado Editorial nasceu de uma reuni\u00e3o de t\u00e9cnicos em informa\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es de dados estat\u00edsticos, organizada pelo CERLALC e feita na Bienal do Livro de S. Paulo de 1990. A iniciativa de propor a reuni\u00e3o no contexto da Bienal foi do Alfredo Weiszflog, &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3255\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D3255','Continue+lendo+Produ%C3%A7%C3%A3o+e+vendas+de+livros.+Perguntas+%E2%80%93+mais+que+reflex%C3%B5es+%E2%80%93+sobre+a+pesquisa+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Produ\u00e7\u00e3o e vendas de livros. 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