{"id":3182,"date":"2019-05-07T09:00:20","date_gmt":"2019-05-07T12:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3182"},"modified":"2019-05-07T12:52:34","modified_gmt":"2019-05-07T15:52:34","slug":"em-louvor-as-bibliotecas-publicas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3182","title":{"rendered":"EM LOUVOR \u00c0S BIBLIOTECAS P\u00daBLICAS"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>H\u00e1 alguns dias li, na <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.nybooks.com\/articles\/2019\/04\/18\/in-praise-of-public-libraries\/');\"  href=\"https:\/\/www.nybooks.com\/articles\/2019\/04\/18\/in-praise-of-public-libraries\/\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.nybooks.com%2Farticles%2F2019%2F04%2F18%2Fin-praise-of-public-libraries%2F','%2F')\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.nybooks.com%2Farticles%2F2019%2F04%2F18%2Fin-praise-of-public-libraries%2F','New+York+Review+of+Books')\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre numa nova aba)\">New York Review of Books<\/a><\/strong><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.nybooks.com\/articles\/2019\/04\/18\/in-praise-of-public-libraries\/');\"  href=\"https:\/\/www.nybooks.com\/articles\/2019\/04\/18\/in-praise-of-public-libraries\/\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.nybooks.com%2Farticles%2F2019%2F04%2F18%2Fin-praise-of-public-libraries%2F','%2F')\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.nybooks.com%2Farticles%2F2019%2F04%2F18%2Fin-praise-of-public-libraries%2F','New+York+Review+of+Books')\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre numa nova aba)\">\/<\/a> <strong>uma resenha escrita por Sue Halpern sobre um tema que me \u00e9 muito caro, o das bibliotecas. J\u00e1 havia visto o document\u00e1rio <em>Ex Libris<\/em>, sobre a biblioteca p\u00fablica de Nova York, dirigido por Frederick Wiseman em proje\u00e7\u00e3o no Instituto Moreira Salles, e depois encomendei o DVD. S\u00f3 est\u00e1 dispon\u00edvel na loja da Amazon nos EUA ou na produtora ExLibris Films \u2013 One Richdale Av., Unit 4, Cambridge, MA 02140 &#8211; EUA.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O t\u00edtulo do primeiro livro resenhado foi o que me enganchou: <em>Palaces for the People: How Social Infraestructure Can Help Fight Inequality, Polarization and the Decline of Civic Life<\/em> (Pal\u00e1cios para o Povo: Como a Infraestrutura Social pode Contribuir para a Luta contra a Desigualdade, Polariza\u00e7\u00e3o e o Decl\u00ednio da Vida P\u00fablica), por Eric Klinenberg. O t\u00edtulo descreve sucintamente a minha percep\u00e7\u00e3o sobre o papel das bibliotecas p\u00fablicas, centros culturais e outros locais nos quais o p\u00fablico tem acesso (na maioria das vezes gratuito) \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura e ao divertimento. R$ 82,76 no formato Kindle na <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.amazon.com.br\/Palaces-People-Infrastructure-Inequality-Polarization\/dp\/1524761176\/ref=sr_1_fkmr0_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=Palaces+for+the+People%3A+How+Social+Infraestructure+Can+Help+Fight+Inequality%2C+Polarization+and+the+Decline+of+Civic+Life&amp;qid=1554932250&amp;s=gateway&amp;sr=8-1-fkmr0\ufeff');\"  href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Palaces-People-Infrastructure-Inequality-Polarization\/dp\/1524761176\/ref=sr_1_fkmr0_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=Palaces+for+the+People%3A+How+Social+Infraestructure+Can+Help+Fight+Inequality%2C+Polarization+and+the+Decline+of+Civic+Life&amp;qid=1554932250&amp;s=gateway&amp;sr=8-1-fkmr0\ufeff\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.amazon.com.br%2FPalaces-People-Infrastructure-Inequality-Polarization%2Fdp%2F1524761176%2Fref%3Dsr_1_fkmr0_1%3F__mk_pt_BR%3D%25C3%2585M%25C3%2585%25C5%25BD%25C3%2595%25C3%2591%26amp%3Bkeywords%3DPalaces%2Bfor%2Bthe%2BPeople%253A%2BHow%2BSocial%2BInfraestructure%2BCan%2BHelp%2BFight%2BInequality%252C%2BPolarization%2Band%2Bthe%2BDecline%2Bof%2BCivic%2BLife%26amp%3Bqid%3D1554932250%26amp%3Bs%3Dgateway%26amp%3Bsr%3D8-1-fkmr0%EF%BB%BF','Amazon')\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Amazon (abre numa nova aba)\">Amazon<\/a>, em ingl\u00eas.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u00faltimo t\u00edtulo resenhado, <em>The Library Book<\/em>, por Susan Orlean, \u00e9 uma hist\u00f3ria sucinta da Biblioteca P\u00fablica de Los Angeles que sofreu um enorme inc\u00eandio em 1976, o qual destruiu mais de 400.000 mil livros e danificou outros 600.000. A biblioteca foi reconstru\u00edda, boa parte dos livros danificados foi recuperada e as acomoda\u00e7\u00f5es ampliadas, tornando-a novamente uma das maiores bibliotecas p\u00fablicas dos EUA. Pode ser adquirido em ingl\u00eas e em e-book na <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.amazon.com.br\/Library-Book-English-Susan-Orlean-ebook\/dp\/B07CYM488X\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=-the+library+book&amp;qid=1554932352&amp;s=gateway&amp;sr=8-1');\"  href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Library-Book-English-Susan-Orlean-ebook\/dp\/B07CYM488X\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=-the+library+book&amp;qid=1554932352&amp;s=gateway&amp;sr=8-1\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.amazon.com.br%2FLibrary-Book-English-Susan-Orlean-ebook%2Fdp%2FB07CYM488X%2Fref%3Dsr_1_1%3F__mk_pt_BR%3D%25C3%2585M%25C3%2585%25C5%25BD%25C3%2595%25C3%2591%26amp%3Bkeywords%3D-the%2Blibrary%2Bbook%26amp%3Bqid%3D1554932352%26amp%3Bs%3Dgateway%26amp%3Bsr%3D8-1','Amazon')\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Amazon (abre numa nova aba)\">Amazon<\/a>.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escrevi para Sue Halpern, que gentilmente autorizou a tradu\u00e7\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o da resenha.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>EM LOUVOR \u00c0S BIBLIOTECAS P\u00daBLICAS \u2013 Sue Halpern<\/p>\n\n\n\n<p>Anos atr\u00e1s morei em uma remota cidade montanhosa que jamais\nhavia tido uma biblioteca p\u00fablica. O munic\u00edpio tinha uma das maiores \u00e1reas do\nEstado de Nova York, mas a popula\u00e7\u00e3o era pequena, alguns milhares de habitantes\nespalhados em mais de quinhentos quil\u00f4metros quadrados. Na \u00e9poca em que eu e\nmeu marido nos mudamos para l\u00e1, a cidade havia perdido boa parte de sua base\necon\u00f4mica \u2013 no s\u00e9culo XIX foi sede de v\u00e1rios curtumes e moinhos \u2013 e nossos\nvizinhos em sua maioria tinham empregos sazonais, se tivessem. Quando a\nbiblioteca m\u00f3vel do sistema regional foi descontinuada, a cidade n\u00e3o tinha\nacesso f\u00e1cil a livros. O conselho municipal prop\u00f4s um pequeno aumento de\nimpostos para financiar uma biblioteca, algo em torno de dez d\u00f3lares por\nfam\u00edlia. A proposta foi rotundamente rejeitada. O sentimento dominante parecia\nser \u201cdeixe as coisas como est\u00e3o\u201d e \u201cquem precisa de livros?\u201d. E um sujeito\ndeclarou que \u201cbibliotecas s\u00e3o comunistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o conselho municipal armou algumas maquina\u00e7\u00f5es e conseguiu extrair quinze mil d\u00f3lares do or\u00e7amento geral e nomeou a mim e dois professores aposentados \u2013 para, de alguma maneira \u2013 transformar esses recursos em uma biblioteca de empr\u00e9stimo. T\u00ednhamos cerca de tr\u00eas mil livros emprestadas pelo sistema regional de bibliotecas, que estavam enfiados em uma sala nos fundos da prefeitura. Fomos informados pelas bibliotec\u00e1rias do sistema que, se consegu\u00edssemos quinhentos associados em um ano, pod\u00edamos prosseguir. Levamos tr\u00eas semanas para conseguir isso. Nosso bibliotec\u00e1rio, cujo trabalho anterior era cuidar de um sebo, revelou-se um mestre em convencimentos, at\u00e9 mesmo junto aos lenhadores e trabalhadores de manuten\u00e7\u00e3o das estradas, que traziam seus filhos para a hora de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e saiam com romances que ele escolhia para eles, que depois voltavam sozinhos para retirar outros. Os livros estavam sendo retirados aos montes e havia filas no balc\u00e3o de atendimento. As crian\u00e7as especialmente, mas tamb\u00e9m os adultos, n\u00e3o acreditavam que tudo era gr\u00e1tis.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/los-angeles-central-fire-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3183\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/los-angeles-central-fire-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/los-angeles-central-fire-300x169.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/los-angeles-central-fire-768x432.jpg 768w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/los-angeles-central-fire.jpg 2047w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A Biblioteca Central de os Angeles incendiou em 1986\n<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No final do ano j\u00e1 t\u00ednhamos cerca de 1.500 inscritos, e\nhavia um clube de livros, uma hora de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias para a pr\u00e9-escola, filmes\n\u00e0 noite e um grupo de leitura de pe\u00e7as teatrais. Alunos da escola p\u00fablica,\nmuitos dos quais n\u00e3o tinham Internet em casa, vinham \u00e0 tarde para fazer as\ntarefas escolares. As pessoas entregavam livros nas m\u00e3os de estranhos, que n\u00e3o\npermaneciam estranhos por muito tempo. Um s\u00e1bado, quando eu observava tecel\u00e3s\nde cobertores trocando padr\u00f5es em uma mesa e crian\u00e7as esvaziando as prateleiras\ndos livros da s\u00e9rie <em>Magic School Bus<\/em>,\ne correndo para o balc\u00e3o de empr\u00e9stimos, me ocorreu que o sujeito que disse que\nas bibliotecas eram comunistas tinha raz\u00e3o. Uma biblioteca p\u00fablica \u00e9 dedicada\naos ethos do compartilhamento e da igualdade. N\u00e3o julga. E desse modo se\ncontrap\u00f5e ao materialismo e individualismo que, por outro lado, define nossa\ncultura. Ela \u00e9 desafiadora, orgulhosamente comunit\u00e1ria. At\u00e9 mesmo nossa pequena\nsala com estantes e mob\u00edlia desencontrada e tapete gasto era, como nos lembra o\nsoci\u00f3logo Eric Klinenberg, pal\u00e1cios para o povo, como uma vez as bibliotecas\nforam chamadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Klinenberg est\u00e1 interessado nas maneiras como espa\u00e7os\ncomunit\u00e1rios podem corrigir nossa vida c\u00edvica turbulenta e polarizada. E ainda\nque argumente em seu novo livro, <em>Palaces\nfor the People, <\/em>que playgrounds, clubes esportivos, botecos, parques,\nfeiras de produtores e igrejas \u2013 qualquer coisa, na verdade, que coloque as\npessoas em contato pr\u00f3ximo umas com as outras \u2013 t\u00eam a capacidade de fortalecer\naquilo que Tocqueville chamou de linhas cruzadas que nos ligam com aqueles que\nmuitas vezes e de v\u00e1rias maneiras s\u00e3o diferentes de n\u00f3s, ele sugere que as\nbibliotecas talvez sejam as mais eficientes. \u201cBibliotecas s\u00e3o lugares onde pessoas\ncomuns, com forma\u00e7\u00f5es, paix\u00f5es e interesses distintos podem fazer parte de uma\ncultura democr\u00e1tica viva\u201d, escreve. No entanto, como observa Susan Orlean em\nseu enc\u00f4mio \u00e0s bibliotecas de todos os lugares, e que \u00e9 adequadamente\nintitulado <em>The Library Book<\/em>, o \u201ccar\u00e1ter\np\u00fablico da biblioteca p\u00fablica \u00e9 uma caracter\u00edstica cada vez mais rara. Cada vez\n\u00e9 mais dif\u00edcil pensar em lugares que d\u00e3o boas vindas a todos e nada cobram por\nesse c\u00e1lido abra\u00e7o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como assinala Klinenberg:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cInfraestrutura\u201d n\u00e3o \u00e9 um termo convencionalmente usado para descrever o que \u00e9 subjacente na vida social&#8230;  <\/em><\/p>\n\n\n<p>[mas]<\/p>\n\n\n\n<p> <em>se os estados e as sociedades n\u00e3o reconhecerem a infraestrutura social e como esta funciona, fracassar\u00e3o em perceber um modo poderoso de promover o engajamento c\u00edvico e a intera\u00e7\u00e3o social, tanto dentro das comunidades como acima das afinidades grupais&#8221;. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para vislumbrar o que ele quer dizer, s\u00f3 \u00e9 preciso mergulhar nas tr\u00eas horas e dezessete minutos do document\u00e1rio \u00e9pico e inspirador de Frederick Wiseman, <em>Ex Libris<\/em>, um pitoresco percurso no maior de todos os pal\u00e1cios do povo: o sistema de Bibliotecas P\u00fablicas de Nova York, uma cole\u00e7\u00e3o de noventa e dois ramais com dezessete milh\u00f5es de frequentadores por ano (e milh\u00f5es a mais online). <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/ex-libris.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3186\" width=\"142\" height=\"189\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/ex-libris.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/ex-libris-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Wiseman aponta suas lentes para o quotidiano (pessoas fazendo fila para entrar no edif\u00edcio central ou folheando livros), o obscuro (a voz de um ator gravando um livro para cegos), e o singular (Khalil Muhammad<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> discutindo o Centro Schomburg de Pesquisa da Cultura Negra, um dos ramais do sistema), e sem dizer explicitamente (o filme n\u00e3o tem narra\u00e7\u00e3o), mostra como a BPNY \u00e9 um caso exemplar do que \u00e9 uma biblioteca e o que esta pode fazer. Vemos bibliotec\u00e1rios ajudando estudantes com tarefas de matem\u00e1tica, apresentando feiras de empregos, ensinando braile, dando aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o e cidadania e patrocinando confer\u00eancias. Vemos pessoas usando computadores, pontos de WiFi e, \u00e9 claro, livros. S\u00e3o brancos, negros, morenos, asi\u00e1ticos, jovens, sem teto, n\u00e3o t\u00e3o jovens, surdos, mudos, cegos; eles s\u00e3o todos, o que simplesmente \u00e9 a quest\u00e3o. Se voc\u00ea quiser entender a raz\u00e3o pela qual o governo Trump eliminou as verbas para bibliotecas nas propostas or\u00e7ament\u00e1rias de 2018, 2019 e 2020, isso \u00e9 mostrado nesse filme: as bibliotecas p\u00fablicas derrubam os muros que existem entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso \u00e9 de prop\u00f3sito. Uma declara\u00e7\u00e3o feita pela Associa\u00e7\u00e3o de\nBibliotecas P\u00fablicas em 1982, intitulada \u201cA Biblioteca P\u00fablica: Um Recurso da\nDemocracia\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>A biblioteca p\u00fablica \u00e9 uma de nossas institui\u00e7\u00f5es singulares. Apenas a biblioteca p\u00fablica proporciona um ambiente aberto e sem preconceitos no qual os indiv\u00edduos e seus interesses se encontram com o universo das ideias e da informa\u00e7\u00e3o&#8230; O uso que se faz dessas ideias e informa\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o variado quanto os indiv\u00edduos que as procuram. As bibliotecas p\u00fablicas oferecem acesso livre \u00e0s suas cole\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os para todos os membros da comunidade sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cidadania, idade, educa\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, ou qualquer outra qualifica\u00e7\u00e3o ou condi\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Acesso livre \u00e0s ideias e\ninforma\u00e7\u00f5es, um pr\u00e9-requisito \u00e0 exist\u00eancia de uma cidadania respons\u00e1vel, \u00e9 t\u00e3o\nfundamental para os Estados Unidos quanto os princ\u00edpios de liberdade, igualdade\ne direitos individuais.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00fablico ama a biblioteca p\u00fablica. Klinenberg cita um\nestudo de 2016 do Pew Research Center mostrando que mais de 90 por cento dos\namericanos considera a biblioteca ser \u201cmuito\u201d ou \u201cde algum modo\u201d importante para\nsuas comunidades. Os pesquisadores da Pew descobriram tamb\u00e9m que metade de\ntodos os americanos com mais de dezesseis anos de idade usaram as bibliotecas\nno ano anterior. Mesmo assim, as bibliotecas s\u00e3o frequentemente alvos\nconvenientes para os cortes or\u00e7ament\u00e1rios. Depois da crise financeira, nos anos\n2008-2013 por exemplo, a cidade de Nova York eliminou 68 milh\u00f5es de d\u00f3lares do\nor\u00e7amento operacional da Biblioteca P\u00fablica de Nova York, o que resultou numa\ndiminui\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica das horas de trabalho dos funcion\u00e1rios e no or\u00e7amento de\naquisi\u00e7\u00f5es. (Uma boa parte do <em>Ex Libris<\/em>\n\u00e9 dedicada \u00e0 filmagem de intensas discuss\u00f5es sobre or\u00e7amentos). Mas n\u00e3o foi\napenas a Biblioteca P\u00fablica de Nova York que sofreu. Um estudo da American\nLibrary Association (Associa\u00e7\u00e3o dos Bibliotec\u00e1rios) por volta da mesma \u00e9poca,\nconstatou que houve cortes no financiamento de bibliotecas em vinte e um\nestados.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso j\u00e1 aconteceu antes, e acontece agora: bibliotecas, que s\u00e3o sustentadas por recursos locais, estaduais e federais, assim como por doa\u00e7\u00f5es particulares, s\u00e3o cronicamente subfinanciadas e sujeitas aos caprichos de pol\u00edticos e filantropos. Em uma carta de 1972 publicada nesta revista, um grupo de acad\u00eamicos e escritores que inclu\u00edam Hannah Arendt, William Buckley, Ralph Ellison e Betty Friedan, entre muitos outros, denunciou os cortes no or\u00e7amento que prejudicavam os servi\u00e7os na sede da Biblioteca P\u00fablica de Nova York:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"284\" height=\"178\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3187\"\/><figcaption>O Ramal Central da Biblioteca P\u00fablica de Nova York<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Houve um momento em que as portas da biblioteca estavam abertas ao p\u00fablico durante treze horas por dia, nos 365 dias do ano; assim o trabalhador, os que n\u00e3o tinham capacita\u00e7\u00e3o os pesquisadores sem afilia\u00e7\u00e3o acad\u00eamica podiam usar amplamente e de forma an\u00f4nima, sem nenhum custo, as riquezas das cole\u00e7\u00f5es de obras de refer\u00eancia. H\u00e1 um ano, entretanto, a crise financeira da Biblioteca for\u00e7ou o fechamento da divis\u00e3o de refer\u00eancia \u00e0s seis da tarde, e o fechamento completo nos fins de semana e feriados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os signat\u00e1rios pediam aos leitores que contribu\u00edssem para as\ncole\u00e7\u00f5es de pesquisa e refer\u00eancia. A carta saiu sob o t\u00edtulo \u201cCrise na\nBiblioteca P\u00fablica de NY\u201d. (A sede atualmente abre durante quatro horas aos\ndomingos; a maioria dos ramais menores \u00e9 fechada nesse dia).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2008, o bilion\u00e1rio de fundos de investimento Stephen Schwartzman doou 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares para as estranguladas finan\u00e7as da biblioteca. O edif\u00edcio estilo Beaux Arts, o primeiro e principal da biblioteca, localizado na esquina da Quinta Avenida com a rua 42, que abriu em 1911 e levou dezesseis anos para ser terminado, a um custo de 9 milh\u00f5es de d\u00f3lares (mais 20 milh\u00f5es pelo terreno), agora leva seu nome. Cem milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 um monte de dinheiro, mas se apequena em compara\u00e7\u00e3o com a filantropia &nbsp;de Andrew Carnegie, o santo padroeiro das bibliotecas (e um dos bar\u00f5es da industrializa\u00e7\u00e3o dos EUA), cuja generosidade de 55 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 equivalentes a 1.6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de hoje \u2013 financiou 2.509 bibliotecas pelo mundo a fora, das quais 1.679 bibliotecas p\u00fablicas nos Estados Unidos, entre 1886 e 1919. Sessenta e sete destas estavam na cidade de Nova York, dezesseis das quais ainda abertas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl-rose-reading-room-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3190\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl-rose-reading-room-1-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl-rose-reading-room-1-300x169.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl-rose-reading-room-1-768x432.jpg 768w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/nypl-rose-reading-room-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Rose Reading Room, o principal sal\u00e3o de leitura da BPNY<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A devo\u00e7\u00e3o de Carnegie pelas bibliotecas era antiga. Seu pai ajudou a fundar a Tradesmen`s Subscription Library em Dunfermline, Esc\u00f3cia, onde era tecel\u00e3o e membro do derrotado movimento Cartista<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Quando a industrializa\u00e7\u00e3o liquidou com seu emprego, a fam\u00edlia emigrou para a \u00e1rea de Pittsburg e, aos treze anos, depois de apenas cinco anos de escolariza\u00e7\u00e3o formal, Carnegie come\u00e7ou a trabalhar, inicialmente como carregador de bobinas em uma f\u00e1brica de algod\u00e3o e depois como mensageiro para uma companhia de tel\u00e9grafo. Os jovens trabalhadores tinham permiss\u00e3o para retirar um livro por semana da biblioteca particular do Coronel James Anderson, um bem-sucedido fabricante local de ferro e veterano da Guerra de 1812. Carnegie escreveu em sua autobiografia:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foi a partir de minhas primeiras experi\u00eancias que decidi que n\u00e3o havia dinheiro mais bem empregado e produtivo para mo\u00e7os e mo\u00e7as que tivessem o bem dentro de si, habilidade e ambi\u00e7\u00e3o para desenvolv\u00ea-lo, que o financiamento de uma biblioteca p\u00fablica em uma comunidade que estivesse disposta a mant\u00ea-la como institui\u00e7\u00e3o municipal. Tenho certeza que o futuro das bibliotecas que tive o privil\u00e9gio de financiar provar\u00e1 a corre\u00e7\u00e3o dessa opini\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira biblioteca de Carnegie em Braddock, Pennsylvania, foi constru\u00edda cerca de cem anos depois da funda\u00e7\u00e3o da primeira biblioteca p\u00fablica do que mais tarde seriam os Estados Unidos. Em 1790, os residentes de Franklin, Massachusetts, escolheram permitir a circula\u00e7\u00e3o gratuita entre seus residentes de uma cole\u00e7\u00e3o de livros doadas \u00e0 cidade pelo seu xar\u00e1, Benjamin Franklin. Ao fazer isso, escolheram n\u00e3o seguir o exemplo de Franklin: em 1731 ele fundou uma biblioteca de subscri\u00e7\u00f5es na Filad\u00e9lfia. Massachusettes tamb\u00e9m foi o local do primeiro grande sistema de bibliotecas p\u00fablicas, o de Boston, fundado em 1854. A biblioteca que Carnegie fundou em Braddock era diferente dessas, j\u00e1 que tinha um teatro de 964 poltronas, com cortina de veludo, uma quadra de basquete e uma piscina. Sua miss\u00e3o era exercitar tanto o corpo quanto a mente. Nos dias de hoje, a biblioteca de Braddock, um edif\u00edcio imponente, com torre\u00e3o, constru\u00edda no alto de uma colina acima da sider\u00fargica fechada de Carnegie, est\u00e1 danificada, e um grupo est\u00e1 tentando levantar 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares para reform\u00e1-la \u2013 n\u00e3o de uma pessoa de grande riqueza, mas com um bilh\u00e3o de centavos doados pelo p\u00fablico. (At\u00e9 agora conseguiram 40 mil d\u00f3lares).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"275\" height=\"183\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/crnegie.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3188\"\/><figcaption>A primeira biblioteca constru\u00edda por Carnegie &#8211; hoje deteriorada. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As bibliotecas de Carnegie se estendem por todo o pa\u00eds, e as\n106 do Estado de Nova York s\u00e3o eclipsadas por 142 na Calif\u00f3rnia. Seis dessas\nestavam em Los Angeles, uma cidade com pouco mais de cem mil habitantes no\ncome\u00e7o do S\u00e9culo XX, quando Carnegie fez suas doa\u00e7\u00f5es; tr\u00eas ainda est\u00e3o\nfuncionando. Nenhum dinheiro de Carnegie contribuiu para o que se tornou a\nBiblioteca Central da cidade. Fundada em 1872 como organiza\u00e7\u00e3o financiada pela\nanualidade de cinco d\u00f3lares paga por seus membros, o que era inacess\u00edvel para a\nmaior parte dos cidad\u00e3os, mas que em 1933 j\u00e1 circulava mais livros que qualquer\noutra biblioteca do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Orlean documenta com agilidade esse crescimento fenomenal,\nvoltando para tr\u00e1s desde o estr\u00e9pito do inc\u00eandio da Biblioteca Central em 1986,\nenquanto percorre a biblioteca como ela \u00e9 hoje, \u201cuma m\u00e1quina intrincada, uma\nengenhoca de rolamentos que zumbem\u201d. Ao fazer isso, consegue no papel o que\nWiseman faz no filme: familiarizar o leitor com a verdadeira infraestrutura da\nbiblioteca \u2013 o departamento de circula\u00e7\u00e3o que envia 32.000 livros diariamente\npara todos os cantos da cidade; as cole\u00e7\u00f5es de fotografia e mapas; os\nbibliotec\u00e1rios da \u00e1rea de refer\u00eancias dispon\u00edveis para responder perguntas, por\nexemplo, sobre Pussy Riot, etiqueta de obitu\u00e1rio e o tempo de vida dos\npapagaios; os membros da equipe que ensinam crian\u00e7as a codificar e ligam\nusu\u00e1rios sem-teto com servi\u00e7os muito necess\u00e1rios \u2013 e revela assim a extens\u00e3o\ndesse valioso recurso comunit\u00e1rio e um exemplo perfeito do que Klinenberg est\u00e1\nfalando quando louva os benef\u00edcios da infraestrutura social.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a Biblioteca Central de Los Angeles incendiou, o pr\u00e9dio ardeu a mais de 1.000 <sup>0<\/sup>C durante sete horas. Mais de quatrocentos mil livros foram destru\u00eddos, entre os quais toda a cole\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as americanas e inglesas da biblioteca, todos os livros sobre a B\u00edblia e a hist\u00f3ria da igreja; 45.000 obras de literatura, 18.000 livros de ci\u00eancias sociais, 12.000 livros de culin\u00e1ria, todos os livros sobre p\u00e1ssaros, 5,5 milh\u00f5es de patentes registradas que datavam desde 1799, e muito mais, nada disso coberto por seguro. Orlean busca, de modo ligeiro, revelar o mist\u00e9rio de quem \u2013 se foi algu\u00e9m &#8211; come\u00e7ou o inc\u00eandio, e por que raz\u00e3o. Queimar livros, do seu ponto de vista, \u00e9 um tipo de genoc\u00eddio, um modo de apagar a mem\u00f3ria coletiva de um povo: Mao (ele mesmo bibliotec\u00e1rio), os nazistas, os frequentadores dos festivais de queima de livros durante a Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola, e no ano passado um fan\u00e1tico religioso que queimou uma quantidade de livros LGBTQ infantis que havia retirado de uma biblioteca p\u00fablica de Iowa \u2013 todos envolvidos em \u201clibric\u00eddio\u201d para incinerar ideias e apagar grandes trechos da hist\u00f3ria. Se o inc\u00eandio na Biblioteca Central foi deliberado, com que objetivo?<\/p>\n\n\n\n<p>Como outros que investigaram o inc\u00eandio, Orlean mira\nprincipalmente em um ator desempregado e vagabundo chamado Harry Peak, que pode\nou n\u00e3o ter estado no edif\u00edcio na manh\u00e3 do inc\u00eandio, deu um encontr\u00e3o em uma\npessoa correndo para fora do pr\u00e9dio, sendo o jovem colocado para fora da sala\ndos bibliotec\u00e1rios onde havia se servido de um copo de caf\u00e9, ou ser o mesmo\njovem que foi mandado para fora de \u00e1reas restritas da biblioteca, e ser o jovem\nlouro do desenho feito por um artista da pol\u00edcia depois de ouvir descri\u00e7\u00f5es da\npessoa que havia feito tais coisas. Inc\u00eandio proposital \u00e9 algo dif\u00edcil de\ndeterminar, especialmente em um edif\u00edcio j\u00e1 antigo, conhecido por ter problemas\nde fia\u00e7\u00e3o, e Peak, que morreu em 1993, resultou ser um narrador definitivamente\nn\u00e3o confi\u00e1vel. Alegou mais de uma vez que esteve na biblioteca naquela manh\u00e3, e\nem outras ocasi\u00f5es afirmou que nem chegou perto dali. Seus \u00e1libis mudavam e\nmudavam novamente, o que provocou pouca surpresa em quem o conhecia (sua irm\u00e3\ndisse que ele era \u201co maior mentiroso do mundo\u201d), mas desconcertaram os\ninvestigadores policiais, que fracassaram espetacularmente na acusa\u00e7\u00e3o, prendendo-o,\nmas tendo que solt\u00e1-lo por falta de provas.<\/p>\n\n\n\n<p>A despeito de seus melhores esfor\u00e7os, Orlean, tamb\u00e9m, foi incapaz de solucionar o caso. \u201cO inc\u00eandio da Biblioteca Central me confundiu\u201d, escreve. \u201cPor mais que tentasse, n\u00e3o consegui me convencer totalmente de que Harry iniciou o inc\u00eandio\u201d. Para os leitores entretidos com as peregrina\u00e7\u00f5es de Peak, isso tem pouca consequ\u00eancia. A hist\u00f3ria dele \u00e9 apenas um adendo a um mist\u00e9rio maior e mais fascinante: como uma biblioteca cresceu a partir de quase nada para se tornar, como sugere seu nome, central para os residentes da segunda mais populosa cidade do pa\u00eds, emprestando mais de 900.000 livros por ano, respondendo a seis milh\u00f5es de consultas de refer\u00eancia, e dando boas-vindas a 700.000 usu\u00e1rios. Essa noz \u00e9 deliciosamente quebrada por Orlean.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/central-library-zodiac-chandelier-es.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3189\" width=\"290\" height=\"193\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/central-library-zodiac-chandelier-es.jpg 712w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/central-library-zodiac-chandelier-es-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><figcaption>Sagu\u00e3o central da Biblioteca Central de Los Angeles, reconstru\u00edda depois do inc\u00eandio.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O crescimento da Biblioteca Central espelha o crescimento de\nLos Angeles. Em 1873, quando a biblioteca por assinatura foi aberta, Calif\u00f3rnia\ntinha menos de vinte e cinco anos como estado e Los Angeles uma popula\u00e7\u00e3o de\nmenos de 11.000 pessoas. Em 1904, a popula\u00e7\u00e3o havia se multiplicado por dez e a\nbiblioteca circulava aproximadamente 800.000 livros por ano. Pouco mais de\nvinte anos depois, quando o n\u00famero de residentes ultrapassou meio milh\u00e3o, mil\nlivros eram retirados a cada hora, cerca de tr\u00eas milh\u00f5es por ano. Realmente, representadas\nem conjunto em um gr\u00e1fico, os n\u00fameros do crescimento demogr\u00e1fico e os da\ncircula\u00e7\u00e3o de livros s\u00e3o praticamente paralelos. Se isso parece \u00f3bvio, \u00e9 apenas\nporque agora assumimos a import\u00e2ncia das bibliotecas e seus servi\u00e7os para todos\nos membros da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O que torna \u00fanica a Biblioteca Central e sua hist\u00f3ria t\u00e3o\ninteressante, s\u00e3o as pessoas que a conduziram atrav\u00e9s de sua metamorfose.\nMuitas foram mulheres, muito antes que a profiss\u00e3o de bibliotec\u00e1ria se tornasse\npredominantemente feminina. Orlean apresenta os leitores \u00e0 Mary Foy que, em\n1880, com dezoito anos de idade, assumiu a dire\u00e7\u00e3o da antecessora da Biblioteca\nCentral, a biblioteca por assinaturas que na \u00e9poca n\u00e3o permitia que mulheres\ntirassem livros emprestados e as relegava a uma separada \u201cSala de Senhoras\u201d.\nDuas bibliotec\u00e1rias a sucederam e depois uma terceira: uma rep\u00f3rter de Ohio\nchamada Tessa Kelson, uma mulher de cabelos curtos, fumante, que na \u00e9poca foi\ndescrita como \u201cfora dos padr\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Kelso teve a vis\u00e3o de antecipar a biblioteca tal como agora\na conhecemos, imaginando-a n\u00e3o apenas como o reposit\u00f3rio de livros, como tamb\u00e9m\nde material esportivo, jogos de mesa e \u201ctoda a parafern\u00e1lia para uma divers\u00e3o\nsaud\u00e1vel&#8230; que est\u00e1 fora do alcance da m\u00e9dia dos rapazes ou mo\u00e7as\u201d. Antes que\nela pudesse tornar realidade sua vis\u00e3o, foi demiti por acrescentar \u00e0 cole\u00e7\u00e3o o\nromance <em>Le Cadet<\/em>, do autor franc\u00eas\nJean Richepin, considerada maliciosa por alguns dos \u00e1rbitros da moralidade da\ncidade. Ela processou um deles por cal\u00fania, um ministro metodista chamado J. W.\nCampbell, e apesar de ter vencido (a igreja fez acordo), ainda assim perdeu o\nemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois veio Mary Jones, que foi sumariamente demitida em 1905,\nquando o conselho da biblioteca subitamente decidiu que preferia um homem\ndirigindo a biblioteca. Jones contestou a decis\u00e3o, mobilizando mais de mil\nmulheres para assinar uma peti\u00e7\u00e3o de apoio a ela dirigida ao prefeito e ao\nconselho da biblioteca e, quando n\u00e3o obteve resposta a ir \u00e0s ruas. No final ela\ndesistiu, mudou-se para a costa leste, e foi bibliotec\u00e1ria chefe em Bryn Mawr.<\/p>\n\n\n\n<p>Orlean se diverte muito descrevendo as desventuras e pecados\ndo sucessor de Jones, um <em>bon vivant<\/em>\nchamado Charles Lummis. Este era um poeta cujo primeiro livro, <em>Birch Bark Poems<\/em> (Poemas na Casca de\nB\u00e9tula), foi realmente publicado em cascas de b\u00e9tulas, que ele mesmo descascou\ne costurou, e que ganhou fama nacional quando ele fez o relato de sua caminhada\ndesde a costa leste, onde renunciou a Harvard, para ir a Calif\u00f3rnia, onde iria\nassumir uma posi\u00e7\u00e3o no <em>Los Angeles Times<\/em>.\nSua propens\u00e3o para desaparecer durante semanas para vagabundear ou presidir\nbacanais orgi\u00e1sticos finalmente lhe custou o emprego no jornal, e n\u00e3o diminuiu\nquando ele assumiu a biblioteca. Ainda assim, Orlean lhe d\u00e1 o cr\u00e9dito de\ntransformar a biblioteca na \u201cinstitui\u00e7\u00e3o que \u00e9 hoje&#8230; [pressionando] para que\nse transformasse em um centro s\u00e9rio de pesquisas acad\u00eamicas\u201d, e estabelecendo a\ncole\u00e7\u00e3o de fotografias, assim como cole\u00e7\u00f5es de Hist\u00f3ria da Espanha e da Calif\u00f3rnia.\n\u201cSua ambi\u00e7\u00e3o era tornar a biblioteca completamente acess\u00edvel \u2013 \u201cuma oficina\npara acad\u00eamicos, incluindo todos os aprendizes de pintores ou jovens\ntrabalhadores ou condutores de bondes, tanto quanto inclua professores de grego\nou o artista amador\u201d, escreve Orlean, citando Lummis. \u201cSua atitude de inclus\u00e3o\nera incomum na \u00e9poca. Fez campanhas para atrair usu\u00e1rios que antes n\u00e3o haviam\nconsiderado usar a biblioteca\u201d. Essa \u00e9 a ess\u00eancia e a miss\u00e3o da biblioteca\np\u00fablica de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Julho passado um professor da Universidade de Long Island\npublicou um artigo na <em>Forbes<\/em>\nargumentando que as bibliotecas p\u00fablicas deviam ser fechadas, porque estavam\nultrapassadas, agora que a Netflix faz streaming de filmes, Starbuks oferece\nwi-fi gr\u00e1tis e, o que seria mais conveniente, livros eletr\u00f4nicos ficam instantaneamente\ndispon\u00edveis na Amazon. Fechar bibliotecas em favor da Amazon seria ent\u00e3o algo\nproveitoso para todos, disse ele, porque os impostos diminuiriam, enquanto o\npre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es da Amazon subiria. O professor estava especialmente enamorado\ndas lojas sem caixas de pagamento da Amazon, as quais, na sua avalia\u00e7\u00e3o,\n\u201cbasicamente combinam uma biblioteca com uma Starbucks\u201d. A \u201cbiblioteca\u201d a qual\nele se refere \u00e9 um empreendimento comercial que vende livros.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o ao artigo, quando os leitores se deram conta que\nele n\u00e3o era uma s\u00e1tira, foi de ultraje e rid\u00edculo, e <em>Forbes<\/em> removeu-o de seu website cerca de setenta e duas horas\ndepois da publica\u00e7\u00e3o. Mas o engra\u00e7ado foi que o autor, inadvertidamente,\napresentou fortes argumentos em favor do valor e da exist\u00eancia continuada das\nbibliotecas p\u00fablicas:<\/p>\n\n\n\n<p>Houve \u00e9pocas em que as\nbibliotecas ofereciam \u00e0 comunidade local muitos servi\u00e7os em troca do dinheiro\ndos impostos. Traziam livros, revistas e publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas para as massas\natrav\u00e9s de um sistema de empr\u00e9stimos&#8230; Tamb\u00e9m proporcionavam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o um\nlocal confort\u00e1vel no qual podiam desfrutar dos livros. Proporcionavam \u00e0s\npessoas um lugar onde podiam fazer suas pesquisas em paz com a ajuda de\nbibliotec\u00e1rios amig\u00e1veis&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>As bibliotecas pouco a pouco\ncome\u00e7aram a prestar mais servi\u00e7os \u00e0 comunidade. As bibliotecas introduziram empr\u00e9stimo\nde v\u00eddeos e acesso livre \u00e0 Internet. A moderna biblioteca local ainda\nproporciona esses servi\u00e7os, mas n\u00e3o s\u00e3o gratuitos. [Na verdade s\u00e3o] financiados\npelos contribuintes [na] forma de um \u201cimposto de livraria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As bibliotecas, na verdade, jamais foram \u201cgratuitas\u201d, n\u00e3o\nmais que as escolas p\u00fablicas, estradas ou servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade s\u00e3o\n\u201cgratuitos\u201d. Era de se esperar que um professor de economia soubesse disso. Ou\npelo menos que soubesse fazer as contas: o \u201cimposto <em>per capita<\/em> da biblioteca\u201d (a parte al\u00edquota do or\u00e7amento p\u00fablico\nque financia a biblioteca) do sistema de bibliotecas de Los Angeles, por\nexemplo, \u00e9 de apenas US$ 32,77 \u2013 ou seja o valor de cerca de nove\ncaf\u00e9-com-leite m\u00e9dios no Starbuck. Existem nove lojas Amazon Go nos Estados\nUnidos, e 16.568 bibliotecas p\u00fablicas, muitas em lugares onde nem a Amazon ou\nStarbucks jamais se aventurar\u00e3o, como os ramais no extremo do Bronx e Los\nAngeles, onde Wiseman e Orlean nos levam, ou nos lugarejos rurais como o da\nbiblioteca que ajudei a fundar est\u00e1 localizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa biblioteca tem agora cerca de 40.000 itens em suas\nprateleiras, incluindo jogos, quebra-cabe\u00e7as e equipamentos esportivos, tal\ncomo Tessa Kelson imaginou h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. Ainda que pequena e sem alguns\ndos confortos de uma comunidade com mais recursos, \u00e9 uma sucessora valiosa das\nbibliotecas financiadas por Carnegie. Essas, isso deve ser assinalado, tamb\u00e9m\nn\u00e3o eram \u201cgratuitas\u201d: antes de fazer a doa\u00e7\u00e3o, Carnegie exigia que cada cidade se\ncomprometesse a alocar recursos que cobrissem pelo menos dez por cento do custo\nanual da biblioteca, assim como proporcionar o terreno para sua constru\u00e7\u00e3o. E esses\nbenefici\u00e1rios se comprometiam tamb\u00e9m a fornecer os servi\u00e7os sem custos para os\nfrequentadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a refuta\u00e7\u00e3o mais definitiva da ideia de trocar\nbibliotecas pela Amazon e por caf\u00e9s seja a de um antigo empregado da Starbucks,\nque Klinenberg conheceu em um dos ramais da Biblioteca P\u00fablica de Nova York,\nonde ele \u00e9 agora \u201cespecialista em informa\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cNo Starbucks, e na maior parte\ndos neg\u00f3cios, realmente, a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 de que voc\u00ea, fregu\u00eas, \u00e9 melhor por ter\ncomprado tal coisa, certo? \u2013 disse ele. \u2013 Na biblioteca, a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 de que voc\u00ea\n\u00e9 melhor. Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 isso&#8230; A biblioteca sup\u00f5e sempre o melhor das pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Movimento\noper\u00e1rio ingl\u00eas, particularmente ativo entre 1838 e 1848, que lutava por\ndireitos pol\u00edticos para os trabalhadores (o voto era censit\u00e1rio na \u00e9poca)<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Professor\nda Harvard Kennedy School e do Instituto Radcliffe, militante do movimento\nnegro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias li, na New York Review of Books\/ uma resenha escrita por Sue Halpern sobre um tema que me \u00e9 muito caro, o das bibliotecas. J\u00e1 havia visto o document\u00e1rio Ex Libris, sobre a biblioteca p\u00fablica de Nova York, dirigido por Frederick Wiseman em proje\u00e7\u00e3o no Instituto Moreira Salles, e depois encomendei o &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=3182\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D3182','Continue+lendo+EM+LOUVOR+%C3%80S+BIBLIOTECAS+P%C3%9ABLICAS+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">EM LOUVOR \u00c0S BIBLIOTECAS P\u00daBLICAS<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[146,819,814,813,815,818],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3182"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3182"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3194,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3182\/revisions\/3194"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}