{"id":318,"date":"2011-09-06T13:57:29","date_gmt":"2011-09-06T16:57:29","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?p=318"},"modified":"2011-09-06T13:57:30","modified_gmt":"2011-09-06T16:57:30","slug":"a-massa-ainda-comera-o-biscoito-fino-que-fabrico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=318","title":{"rendered":"&#8220;A massa ainda comer\u00e1 o biscoito fino que fabrico&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?attachment_id=319\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2Fblog%2F%3Fattachment_id%3D319','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-319\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar\" width=\"859\" height=\"383\" class=\"aligncenter size-full wp-image-319\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar.jpg 859w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/Capturar-300x133.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 859px) 100vw, 859px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Oswald de Andrade sempre foi um dos meus her\u00f3is na literatura brasileira. Pela produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, pela milit\u00e2ncia na literatura e na pol\u00edtica, por seu desassombro e atrevimento. Maria Jos\u00e9 Silveira, M\u00e1rcio Souza e eu usamos essa frase como lema da Marco Zero, a editora que fundamos e mantivemos por dezoito anos.<br \/>\nQuando escrevi \u201cO Brasil pode ser um pa\u00eds de leitores?\u201d, mencionei na introdu\u00e7\u00e3o: \u201cA massa dificilmente comer\u00e1 do biscoito fino se a ele n\u00e3o tiver acesso e ficar reduzida ao consumo da broa de milho [&#8230;] O esfor\u00e7o aqui apresentado \u00e9 o da discuss\u00e3o de como fazer o \u201cbiscoito fino\u201d chegar \u00e0 massa.\u201d (p. 16).<br \/>\nTrata-se, portanto, de preocupa\u00e7\u00e3o constante e recorrente, que abrange a discuss\u00e3o de impasses e dificuldades do mercado editorial e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es. Afinal, o que me levou a estudar essas quest\u00f5es foi tamb\u00e9m certo grau de frusta\u00e7\u00e3o pela massa n\u00e3o consumir em quantidade o \u201cbiscoito fino\u201d que produz\u00edamos na Marco Zero.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nEm agosto de 2007 escrevi um esbo\u00e7o de projeto, chamado precisamente \u201cBiscoito Fino\u201d, que entreguei ao ent\u00e3o coordenador do livro e leitura do MinC, Jefferson Assum\u00e7\u00e3o, no qual dava algumas sugest\u00f5es para um programa de aquisi\u00e7\u00e3o de livros para bibliotecas p\u00fablicas, aproveitando o grande fundo de t\u00edtulos que vai se formando no transcorrer dos anos. Esse projeto, aperfei\u00e7oado e ampliado pelo Galeno Amorim, foi a base do Programa do Livro Popular lan\u00e7ado pela Presidente Dilma na Bienal do Livro.<br \/>\nEntre as barreiras que dificultam o acesso da massa ao \u201cbiscoito fino\u201d podemos citar os problemas de distribui\u00e7\u00e3o dos livros em um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais e com uma prec\u00e1ria rede de livrarias; a p\u00e9ssima qualidade e a pequena quantidade de bibliotecas p\u00fablicas; o \u201cciclo de vida\u201d curto dos livros lan\u00e7ados, decorrente em grande medida dos dois fatores mencionados. A qualidade de um livro n\u00e3o deve ser medida pelo tempo em que fica exposto nas livrarias, mas a verdade \u00e9 que a grande quantidade de lan\u00e7amentos imp\u00f5e um \u201cciclo de vida\u201d ditado exclusivamente por esse interesse comercial, que independe da qualidade e da import\u00e2ncia do texto. Obviamente, isso vale para os bons e para os maus livros. Se o livro n\u00e3o tem uma venda r\u00e1pida e n\u00e3o entra nas litas de mais vendidos, ou se n\u00e3o \u00e9 progressivamente adotado pelas escolas e universidades e se transforma em um \u201clong-seller\u201d, o seu desaparecimento do radar de poss\u00edveis leitores \u00e9 inexor\u00e1vel, e tais livros entram numa esp\u00e9cie de \u201cclandestinidade\u201d. E livro n\u00e3o tem prazo de validade, o que torna tr\u00e1gica essa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO desenvolvimento da Internet facilitou, em grande medida, a sobreviv\u00eancia dos livros de cat\u00e1logo para os compradores que efetivamente busquem um livro ou um autor. Os mecanismos de buscas nos cat\u00e1logos das livrarias on-line e mesmo nos sebos (que bela a iniciativa da Estante Virtual!) facilitam muito a vida de quem sai atr\u00e1s de um livro. Mas o fato \u00e9 que temos uma imensid\u00e3o de t\u00edtulos perdidos nesse limbo, encontr\u00e1veis apenas com determina\u00e7\u00e3o por quem quer comprar algum exemplar determinados.<br \/>\nEsse processo \u00e9 agravado pela situa\u00e7\u00e3o das bibliotecas p\u00fablicas. Em primeiro lugar pela precariedade da rede, muito aqu\u00e9m do que seria minimamente desej\u00e1vel em um pa\u00eds que investisse seriamente no acesso ao livro.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o das bibliotecas p\u00fablicas tem se modificado nos \u00faltimos anos, embora ainda em um ritmo aqu\u00e9m do desej\u00e1vel. Entretanto, outro fator complica a quest\u00e3o, e esse fator se apresenta insidiosamente na elabora\u00e7\u00e3o das listas para aquisi\u00e7\u00e3o de acervos. Listas elaboradas por pessoas competentes, capacitadas e empenhadas na promo\u00e7\u00e3o do que se convencionou chamar de \u201cboa leitura\u201d. Pessoas competentes e de boa vontade.<br \/>\nS\u00f3 que, como proclama o ditado, de boa vontade est\u00e1 pavimentado o caminho do inferno.<br \/>\nAs listas atuam de forma restritiva na composi\u00e7\u00e3o do acervo das bibliotecas de modo ainda mais violento que a din\u00e2mica do mercado. A imposi\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios dos selecionadores restringe drasticamente a possibilidade das escolhas dos frequentadores de bibliotecas. As comiss\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o escolhem em fun\u00e7\u00e3o das suas concep\u00e7\u00f5es do que sejam os \u201cbons livros\u201d, preocupa\u00e7\u00e3o merit\u00f3ria, etc. etc.<br \/>\nMas essa perspectiva esquece um pequeno e fundamental detalhe: a biblioteca \u00e9, em primeiro lugar, um SERVI\u00c7O P\u00daBLICO. Financiada direta ou indiretamente pelo imposto de todos, sua primeira miss\u00e3o deve ser atender \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o, que se expressam na busca dos mais diferenciados t\u00edtulos de literatura ou de conhecimentos. As bibliotecas n\u00e3o existem para satisfazer os interesses intelectuais e ideol\u00f3gicos de meia d\u00fazia de pessoas que, com toda boa vontade, acabam por expressar arrogantemente um enorme desrespeito pelas necessidades de outros.<br \/>\nQuando, em 1850, os cartistas (sindicalistas) impulsionaram a Lei das bibliotecas P\u00fablicas na Inglaterra, apoiados por fil\u00f3sofos utilitaristas, como John Stuart Mills, defendiam a ideia de que aquelas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas ofereceriam instru\u00e7\u00e3o (o ideal enciclopedista), como tamb\u00e9m meios de desfrutar do repouso e da reflex\u00e3o. Essa perspectiva se reflete nos Estados Unidos, mas tem gente que esquece hoje que Melville Dewey criou o seu sistema de classifica\u00e7\u00e3o decimal precisamente para que se pudessem achar nos livros o que interessasse ao leitor.<br \/>\nO fundamento da biblioteca p\u00fablica, tais como expressados nos documentos da UNESCO, \u00e9 o de tornar acess\u00edvel a mais ampla gama de ofertas aos poss\u00edveis leitores. E as comiss\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o partem de um princ\u00edpio totalmente diferente, que \u00e9 o de decidir o que ofertar aos poss\u00edveis leitores dentre os melhores livros entendidos como tais pela pr\u00f3pria comiss\u00e3o.<br \/>\nA base do projeto \u201cBiscoito Fino\u201d partia da conjun\u00e7\u00e3o da ideia de ofertar aos leitores e mais ampla gama de t\u00edtulos e do conhecimento de que milhares de publica\u00e7\u00f5es passavam praticamente para a clandestinidade depois de certo tempo.<br \/>\nNele eu propunha que o MinC desenvolvesse um sistema para aquisi\u00e7\u00e3o desse tesouro adormecido, dessa quantidade de \u201cbiscoitos finos\u201d, para o sistema de bibliotecas p\u00fablicas.<br \/>\nQuatro anos se passaram e o projeto finalmente vem \u00e0 luz, melhorado, aperfei\u00e7oado e ampliado sob a dire\u00e7\u00e3o do Galeno Amorim, e anunciado na inaugura\u00e7\u00e3o da Bienal do Livro do Rio de Janeiro pela presidente Dilma Rousseff.<br \/>\nMelhorado, aperfei\u00e7oado e ampliado de v\u00e1rias formas.<br \/>\nEm primeiro lugar, o portal da Biblioteca Nacional onde ser\u00e3o cadastradas as ofertas do Livro Popular n\u00e3o se destina apenas \u00e0s bibliotecas p\u00fablicas. Qualquer pessoa poder\u00e1 conhecer essa gama de livros que estava soterrada pelos novos lan\u00e7amentos e que ressurge com um pre\u00e7o realmente acess\u00edvel.  O que eu tinha imaginado apenas para as bibliotecas se transforma, na vers\u00e3o \u201cPrograma do Livro Popular\u201d, em possibilidade de acesso para quem os queira ter em casa, adquiridos nos pontos de venda cadastrados no programa.<br \/>\nEsse \u00e9 o segundo ponto importante do programa: o esfor\u00e7o para amplia\u00e7\u00e3o dos pontos de venda, incluindo bancas de jornais, vendedores porta-a-porta e outras institui\u00e7\u00f5es que se interessem em participar. Essa capilariza\u00e7\u00e3o pode se tornar realidade porque esses trinta e tantos milh\u00f5es de reais destinados \u00e0s bibliotecas passar\u00e3o necessariamente, por esses pontos de venda, cortando o ciclo nocivo das vendas diretas pelas editoras, que efetivamente asfixia a venda de livro no varejo. Caber\u00e1 aos propriet\u00e1rios e administradores desses pontos de venda cuidar de desenvolver sua clientela, oferecendo servi\u00e7os adequados para a entrega de livros nos pontos mais distantes do pa\u00eds.<br \/>\nO programa restitui aos respons\u00e1veis pelas bibliotecas p\u00fablicas a possibilidade de dialogar com seu p\u00fablico e adquirir os livros que sejam demandados, e n\u00e3o os que comp\u00f5em listas decididas no Rio de Janeiro e em Bras\u00edlia para responder a perfis de usu\u00e1rios do Oiapoque ao Chu\u00ed.<br \/>\nFinalmente, abre a possibilidade de incorpora\u00e7\u00e3o de novos contingentes de compradores de livros. Caber\u00e1 \u00e0s editoras aproveitar a oportunidade de desenvolver produtos editoriais de qualidade e dentro dos par\u00e2metros do pre\u00e7o de capa estabelecidos pelo programa. A incorpora\u00e7\u00e3o desses novos compradores poder\u00e1 proporcionar um salto na penetra\u00e7\u00e3o da leitura, no aumento dos consumidores de livros \u2013 que podem emigrar para outros t\u00edtulos \u2013 se os editores souberem desenvolver esse segmento de mercado.<br \/>\nCertamente haver\u00e1 dificuldades, problemas e erros no in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o de um programa t\u00e3o ambicioso. Isso n\u00e3o deve desencorajar o desenvolvimento do projeto. Ao contr\u00e1rio, servir\u00e1 para aperfei\u00e7o\u00e1-lo ainda mais. At\u00e9 que a massa tenha realmente oportunidade de consumir o \u201cbiscoito fino\u201d que nossos autores escrevem, as editoras publicam e os livreiros distribuem e com isso fortalecer, tamb\u00e9m, a democracia em nosso pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oswald de Andrade sempre foi um dos meus her\u00f3is na literatura brasileira. Pela produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, pela milit\u00e2ncia na literatura e na pol\u00edtica, por seu desassombro e atrevimento. Maria Jos\u00e9 Silveira, M\u00e1rcio Souza e eu usamos essa frase como lema da Marco Zero, a editora que fundamos e mantivemos por dezoito anos. Quando escrevi \u201cO Brasil &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=318\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D318','Continue+lendo+%26%238220%3BA+massa+ainda+comer%C3%A1+o+biscoito+fino+que+fabrico%26%238221%3B+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;A massa ainda comer\u00e1 o biscoito fino que fabrico&#8221;<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[136,135,87,128,137],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/318"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=318"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":323,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/318\/revisions\/323"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}