{"id":309,"date":"2011-09-01T13:56:17","date_gmt":"2011-09-01T16:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?p=309"},"modified":"2011-09-01T13:56:17","modified_gmt":"2011-09-01T16:56:17","slug":"nossa-elusiva-materia-prima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=309","title":{"rendered":"Nossa elusiva mat\u00e9ria prima"},"content":{"rendered":"<p>Uma das coisas que aprendi nessa faina do mercado editorial \u00e9 que o mundo dos livros \u00e9 um reflexo do mundo real. Cabe tudo. Das coisas mais sublimes \u00e0s calhordices mais inomin\u00e1veis. Como papel (e agora, bits) aguenta tudo, \u00e9 poss\u00edvel encontrar toda e qualquer coisa impressa e sendo vendida (ou empurrada, ou doada por conta de outros interesses) no mundo do livro.<br \/>\nEssa variedade me fascina.<br \/>\nDo lado positivo, h\u00e1 o aprendizado de uma li\u00e7\u00e3o de humildade: o que eu gosto, o que me satisfaz intelectual e esteticamente, n\u00e3o \u00e9 nem (necessariamente) o melhor nem \u00e9 o que o OUTRO precisa para satisfazer o mesmo tipo de necessidades. E isso n\u00e3o \u00e9 uma rendi\u00e7\u00e3o a um relativismo absoluto: o que acho uma porcaria tenho minhas raz\u00f5es para considerar assim e n\u00e3o pretendo mudar de opini\u00e3o. Mas, quando analiso pol\u00edticas p\u00fablicas de acesso ao livro, devo reconhecer o direito do outro gostar (ou ter necessidade) do que eu n\u00e3o gosto ou at\u00e9 mesmo desprezo.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Isso vem da reflex\u00e3o de quem analisa e defende pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea do livro: a pedra de toque \u00e9 o respeito \u00e0s necessidades dos outros. Por isso mesmo defendo a import\u00e2ncia de que as bibliotecas ofere\u00e7am aos seus frequentadores os livros que eles queiram ler, e n\u00e3o apenas aqueles que os \u201cs\u00e1bios\u201d consideram bons e que encaminham para a forma\u00e7\u00e3o do famoso e abstrato \u201cleitor cr\u00edtico\u201d. Kenneth Tynan, cr\u00edtico ingl\u00eas que foi uma das testemunhas no julgamento sobre a obscenidade do \u201cAmante de Lady Chatterley\u201d, de D. H. Lawrence, louvou, em um ensaio sobre os \u201cDirty Movies\u201d \u2013 os filmes declaradamente pornogr\u00e1ficos dos anos 20 e 30 nos EUA &#8211; a literatura e o cinema pornogr\u00e1ficos, por seu car\u00e1ter \u201cutilit\u00e1rio\u201d (e quem quiser que v\u00e1 ver o que Tynan entendia por isso). Com ele de respaldo, eu defendo a presen\u00e7a da pornografia nas bibliotecas simplesmente porque esse g\u00eanero interessa a um segmento do p\u00fablico, que tem o direito de ter acesso a ele do mesmo modo que quem deseje ler Jacques Maritain ou Paulo Coelho. Como sei onde o calo aperta, nunca comprei do g\u00eanero para bibliotecas que montei, e o trabalho de bons mediadores pode indicar outras alternativas de leitura aos adeptos do sexo solit\u00e1rio.<br \/>\nO velho mote latino, \u201cde gustibus non est disputandum\u201d se aplica perfeitamente aqui.<br \/>\nMas n\u00e3o s\u00f3 aqui.<br \/>\nO segmento mais prestigioso (embora n\u00e3o seja o mais rent\u00e1vel do ponto de vista financeiro) do mercado editorial \u00e9 a literatura. Mas, que diabos vem a ser literatura?<br \/>\nOra, ora&#8230;<br \/>\nO leitor da Zylbia Gasparetto (se pensar no assunto), dir\u00e1 que l\u00ea literatura e \u00e9 daquela que ele gosta. Jos\u00e9 de Souza Martins, eminente soci\u00f3logo uspiano que lan\u00e7ou recentemente um livro autobiogr\u00e1fico, declarou em entrevista que a \u201cforma liter\u00e1ria\u201d \u00e9 constitutiva da sua conceitua\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Nada de exatamente novo: os linguistas, e os antrop\u00f3logos, s\u00e3o coincidentes em afirmar que o discurso contem todos os elementos da cultura. De certa forma \u00e9 uma invers\u00e3o da proposta do McLuhan: n\u00e3o \u00e9 o meio que constitui a mensagem e sim a mensagem (conte\u00fado) que encontra seu meio de express\u00e3o, sempre, e de modo muiltifacetado, j\u00e1 que o conte\u00fado se expressa n\u00e3o apenas pelas palavras, como tamb\u00e9m pelos gestos, pelas ilustra\u00e7\u00f5es, e isso tudo dentro do famoso \u201ccontexto\u201d.<br \/>\nQuando fundamos a hoje falecida Marco Zero (que n\u00e3o tem nada a ver com esse cad\u00e1ver zumbi que ainda anda por a\u00ed), Maria Jos\u00e9 Silveira, M\u00e1rcio Souza e eu decidimos que s\u00f3 publicar\u00edamos o que gost\u00e1ssemos, e gost\u00e1vamos de literatura e pol\u00edtica. Mas o nosso \u201cgosto\u201d estava condicionado n\u00e3o apenas pela combina\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias pessoais, como tamb\u00e9m pela necessidade de fazer sobreviver a editora e ganhar nosso suado dinheirinho. Por isso, o que defin\u00edamos, na pr\u00e1tica, como literatura, era simplesmente o que gost\u00e1vamos, e n\u00e3o passava por nenhuma discuss\u00e3o acad\u00eamica sobre \u201co que \u00e9 literatura\u201d e, muito menos, sobre supostos par\u00e2metros de qualidade.<br \/>\nAinda que trabalhando sob os condicionamentos daquilo que Bourdieu define como \u201ccampo\u201d \u2013 especificamente o campo da literatura, parcialmente sobreposto e imbricado com o campo da edi\u00e7\u00e3o \u2013 para n\u00f3s, simplesmente, era liter\u00e1rio aquilo que gost\u00e1vamos ou que pretend\u00edamos vender em quantidade.<br \/>\nCertamente n\u00e3o \u00e9ramos os \u00fanicos a pensar e a agir dessa maneira. Todos os editores, simplesmente, fazem a mesma coisa: editam o que gostam, ainda que esse gosto esteja condicionado (em maior ou menor grau) pela determina\u00e7\u00e3o de vender (ou colocar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o) do p\u00fablico aqueles t\u00edtulos escolhidos por crit\u00e9rios que s\u00e3o totalmente subjetivos. E mais ainda, crit\u00e9rios que dialogam com o p\u00fablico leitor, abrindo a possibilidade que cada t\u00edtulo lido enrique\u00e7a o \u201cvocabul\u00e1rio do gosto\u201d de cada um dos leitores e, por sua vez, reforce as apostas da editora.<br \/>\nOutra seara \u00e9 a do cr\u00edtico. Mesmo que n\u00e3o assuma uma postura normativa e autorit\u00e1ria, o cr\u00edtico l\u00ea e analisa com base em uma s\u00e9rie de conceitos e a uma hist\u00f3ria do c\u00e2none liter\u00e1rio. Suas ferramentas anal\u00edticas s\u00e3o diferentes das do editor e mais ainda das do leitor comum.<br \/>\nEste, o leitor comum, o objeto de desejo de autores e editores, pesca em \u00e1guas turbulentas dentro de uma oferta fenomenal. S\u00e3o milhares e milhares de t\u00edtulos que se oferecem para ser lidos e a sua escolha obedece a in\u00fameras vari\u00e1veis: educa\u00e7\u00e3o, trajet\u00f3ria de vida, leituras anteriores, ambiente familiar, c\u00edrculo de amizades, indica\u00e7\u00f5es da imprensa, de amigos, de bibliotec\u00e1rios, de vendedores de livrarias. Ufa!<br \/>\nEntrar em uma livraria ou uma biblioteca e decidir por um livro para ler \u00e9 uma fa\u00e7anha. A realiza\u00e7\u00e3o desse \u201cencontro feliz\u201d entre o leitor e um livro, mencionado pelo <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/5Bqa3');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/5Bqa3\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2F5Bqa3','Gabriel+Zaid')\" target=\"_blank\">Gabriel Zaid<\/a> em \u201cLivros Demais\u201d \u00e9 quase uma loteria.<br \/>\nEssa caracter\u00edstica escorregadia de conceitos e defini\u00e7\u00f5es \u00e9 a grande diferen\u00e7a entra a ind\u00fastria editorial e a de outros produtos de consumo. Quem escolhe sabonetes no fundo est\u00e1 decidindo entre um n\u00famero de vari\u00e1veis pequeno e defin\u00edvel: textura e perfume. Mas quem vai atr\u00e1s de um livro de literatura acaba construindo, antes de ler qualquer livro, um conceito imagin\u00e1rio e extremamente pessoal do que seja literatura. E viva essa diversidade an\u00e1rquica.<br \/>\nEssas mal tra\u00e7adas me vieram depois de uma conversa com a Maria Jos\u00e9 sobre sua participa\u00e7\u00e3o no <strong><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/5Bqbk');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/5Bqbk\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2F5Bqbk','Encontros+de+Interroga%C3%A7%C3%A3o')\" target=\"_blank\">Encontros de Interroga\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong> do Ita\u00fa Cultural, no pr\u00f3ximo dia 7. Ela estar\u00e1 em uma mesa que homenageia a primeira dama da literatura brasileira, nossa querida Lygia Fagundes Telles. Junto com Fabr\u00edcio Carpinejar e Marcelino Freira, com media\u00e7\u00e3o do Fl\u00e1vio Carneiro, eles conversar\u00e3o com a Lygia sobre sua literatura e trajet\u00f3ria como escritora.<br \/>\nVai ser \u00f3timo, e anote a\u00ed: dia 7 de setembro, \u00e0s 20 horas, no Ita\u00fa Cultural, na Av. Paulista 149.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas que aprendi nessa faina do mercado editorial \u00e9 que o mundo dos livros \u00e9 um reflexo do mundo real. Cabe tudo. Das coisas mais sublimes \u00e0s calhordices mais inomin\u00e1veis. 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