{"id":2965,"date":"2016-11-09T07:00:36","date_gmt":"2016-11-09T10:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2965"},"modified":"2016-11-10T08:16:58","modified_gmt":"2016-11-10T11:16:58","slug":"traduzir-e-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2965","title":{"rendered":"TRADUZIR \u00c9 PERIGOSO"},"content":{"rendered":"<p>Traduzir \u00e9 perigoso\u201d, diria, parodiando Guimar\u00e3es Rosa, \u00a0sobre o tema que ser\u00e1 objeto da primeira mesa do Conex\u00f5es Ita\u00fa Cultural \u2013 Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira \u2013 que come\u00e7a hoje, dia 9 e segue at\u00e9 a pr\u00f3xima sexta-feira. A mesa sobre Grande Sert\u00e3o:Veredas conta com a presen\u00e7a de Alison Entrekin, Berthold Zilly e da professora Sandra Vasconcelos, da USP e do Fundo Guimar\u00e3es Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade. Eu terei a tarefa \u2013 dif\u00edcil, mas honrosa e agrad\u00e1vel \u2013 de mediar essa mesa.<\/p>\n<p>O curr\u00edculo dos tradutores \u00e9 admir\u00e1vel. Alison Entrekin j\u00e1 enfrentou a tradu\u00e7\u00e3o de \u201cCidade de Deus\u201d, do Paulo Lins, dos romances do Chico Buarque e de muitos outros autores brasileiros. Berthold Zilly tem no curr\u00edculo tradu\u00e7\u00f5es de Euclides da Cunha e Raduan Nassar, entre outros. E a professora Sandra Vasconcelos \u00e9 especialista em Guimar\u00e3es Rosa, autor em torno do qual se organiza a mesa.<\/p>\n<p>Ora, se traduzir \u00e9 perigoso, retraduzir, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 o caso dos dois tradutores participantes da mesa. A primeira tradu\u00e7\u00e3o de GS:V para o ingl\u00eas, feita por Harriet de On\u00eds e James Taylor \u00e9 amplamente criticada. Guimar\u00e3es Rosa, ainda que reconhecesse as defici\u00eancias da primeira tradu\u00e7\u00e3o, admitiu ter ficado satisfeito pela possibilidade de ter leitores de l\u00edngua inglesa com acesso ao seu livro mais importante. Particularmente, visto da perspectiva de hoje, acredito que a tradu\u00e7\u00e3o, que apresenta GS:V quase como uma aventura de faroeste, fez mais mal que bem para a recep\u00e7\u00e3o da obra roseana em ingl\u00eas. Riobaldo como caub\u00f3i n\u00e3o ilustra&#8230; Desse modo, a tradu\u00e7\u00e3o a ser empreendida por Alison Entrekin seguramente representar\u00e1 um novo ponto de partida para a recep\u00e7\u00e3o da obra em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A primeira tradu\u00e7\u00e3o para o alem\u00e3o, feita por Curt Meier-Clason, tamb\u00e9m foi sujeita a cr\u00edticas, embora em muito menor grau que as feitas \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o dos EUA. Registre-se tamb\u00e9m duas tradu\u00e7\u00f5es para o espanhol, a mais recente feita por Florencia Garramu\u00f1o e Gonzalo Aguilar, al\u00e9m de tradu\u00e7\u00f5es para o italiano, franc\u00eas e v\u00e1rios outros idiomas. A mais recente, pelo que sei, foi para o hebraico, pelo professor Erez Volk.<\/p>\n<p>O que desejo destacar, no entanto, \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, que as tradu\u00e7\u00f5es de um grande escritor como Guimar\u00e3es Rosa passam a constituir parte do <em>corpus<\/em> cr\u00edtico do autor. Cada uma delas \u00e9, de certa forma, uma an\u00e1lise cr\u00edtica do romance. Gregory Rabassa, o grande tradutor do portugu\u00eas e do espanhol nos EUA, disse em algum momento que o tradutor \u00e9 o leitor mais atento e cr\u00edtico da obra de um autor. De fato, uma tradu\u00e7\u00e3o de qualidade representa, sempre, uma abordagem cr\u00edtica e criadora a partir do original. N\u00e3o estou querendo entrar na pol\u00eamica tradicional que se perde discutindo se tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 transposi\u00e7\u00e3o \u2013 a mais fiel poss\u00edvel, \u00e9 claro \u2013 ou uma \u201crecria\u00e7\u00e3o\u201d da obra em outro idioma. Acho essa discuss\u00e3o meio ociosa. O que gosto de destacar \u00e9 que, de fato, cada tradutor l\u00ea criticamente o livro para torn\u00e1-lo acess\u00edvel ao leitor de outro idioma. Essa tarefa \u00e9 um componente fundamental da constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira Rep\u00fablica Mundial das Letras.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que cada tradu\u00e7\u00e3o responde n\u00e3o apenas a avan\u00e7os e desenvolvimentos das t\u00e9cnicas tradut\u00f3rias e das investiga\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas, como tamb\u00e9m responde a circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e sociais espec\u00edficas da sociedade do idioma de chegada. Desse modo, cada tradu\u00e7\u00e3o reflete \u2013 em maior medida, se melhor feita \u2013 as condi\u00e7\u00f5es de recep\u00e7\u00e3o social existentes naquele momento, naquela sociedade (ou nas que comp\u00f5em um grupo lingu\u00edstico). Alison Entrekin tamb\u00e9m, em outro encontro do Conex\u00f5es, e em escritos seus, mencionou as dificuldades de adaptar as g\u00edrias e express\u00f5es do \u201cCidade de Deus\u201d para que fossem compreendidas tanto pelos leitores dos EUA como os da Inglaterra, da Austr\u00e1lia e de outros pa\u00edses angl\u00f3fonos. Dentro de mais anos, nova tradu\u00e7\u00e3o do mesmo romance do Paulo Lins exigir\u00e1, eventualmente, outras solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 leg\u00edtimo perguntar como isso \u00e9 poss\u00edvel se o original permanece \u201cimut\u00e1vel\u201d. Ora, essa \u201cimutabilidade\u201d do texto \u00e9 relativamente ilus\u00f3ria. J\u00e1 usei o exemplo da edi\u00e7\u00e3o comemorativa do IV Centen\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=885\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D885','%E2%80%9CDon+Quijote%E2%80%9D')\" target=\"_blank\">\u201cDon Quijote\u201d<\/a>. \u00a0Essa edi\u00e7\u00e3o reproduz facs\u00edmiles de v\u00e1rias p\u00e1ginas da primeira publica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o praticamente ileg\u00edveis para o leitor contempor\u00e2neo. Foram quatro s\u00e9culos de trabalhos editoriais, que normatizaram ortografia, pontua\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o (mancha) do livro, de acordo com o desenvolvimento da ind\u00fastria editorial e dos h\u00e1bitos dos leitores. Os paratextos (gloss\u00e1rios, notas cr\u00edticas, etc.) s\u00e3o hoje indispens\u00e1veis para a aprecia\u00e7\u00e3o do leitor contempor\u00e2neo. No caso do Cervantes, \u00e9 curioso notar, muitas palavras colocadas no gloss\u00e1rio s\u00e3o de uso corrente no nosso portugu\u00eas brasileiro, mas j\u00e1 de dif\u00edcil compreens\u00e3o para os leitores hispanofalantes. Br\u00e1ulio Ribeiro citou, em um post de Denise Bottman, no FaceBook, a presen\u00e7a do voc\u00e1bulo \u201cnonada\u201d l\u00e1 no meio do \u201cDon Quijote\u201d, na p\u00e1gina 591 da edi\u00e7\u00e3o do IV Centen\u00e1rio. Denise tamb\u00e9m mencionou que essa palavra est\u00e1 presente em um <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.academia.org.br\/sites\/default\/files\/publicacoes\/arquivos\/frases_feitas_-_joao_ribeiro_-para_internet.pdf');\"  href=\"http:\/\/www.academia.org.br\/sites\/default\/files\/publicacoes\/arquivos\/frases_feitas_-_joao_ribeiro_-para_internet.pdf\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fwww.academia.org.br%2Fsites%2Fdefault%2Ffiles%2Fpublicacoes%2Farquivos%2Ffrases_feitas_-_joao_ribeiro_-para_internet.pdf','gloss%C3%A1rio+de+frases')\" target=\"_blank\">gloss\u00e1rio de frases<\/a> organizado por Jo\u00e3o Ribeiro no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Assim, pode-se dizer que o texto \u201ccontinua o mesmo\u201d. Mas, na verdade, tanto sua apresenta\u00e7\u00e3o como sua percep\u00e7\u00e3o \u2013 vocabular, l\u00e9xica e <strong>social<\/strong> \u2013 tamb\u00e9m v\u00e3o se transformando no decorrer dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>E nem vou entrar na j\u00e1 multissecular discuss\u00e3o das tradu\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es dos cl\u00e1ssicos gregos e latinos.<\/p>\n<p>As \u201cretradu\u00e7\u00f5es\u201d, ent\u00e3o, s\u00e3o, de certa forma, duplamente perigosas: t\u00eam que enfrentar e dar conta n\u00e3o apenas das novas camadas de percep\u00e7\u00f5es dos textos originais, como das \u201cleituras tradut\u00f3rias\u201d antecedentes.<\/p>\n<p>Para terminar essas digress\u00f5es sobre a mesa \u2013 que ser\u00e1 interessante e divertida \u2013 lembro dois artigos recentemente publicados no The Guardian, de Londres.<\/p>\n<p>Rachel Cooke, em <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.theguardian.com\/books\/2016\/jul\/24\/subtle-art-of-translating-foreign-fiction-ferrante-knausgaard');\"  href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2016\/jul\/24\/subtle-art-of-translating-foreign-fiction-ferrante-knausgaard\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.theguardian.com%2Fbooks%2F2016%2Fjul%2F24%2Fsubtle-art-of-translating-foreign-fiction-ferrante-knausgaard','mat%C3%A9ria+recente')\" target=\"_blank\">mat\u00e9ria recente<\/a> (24 de julho) \u00a0comenta sua tentativa de ler uma nova tradu\u00e7\u00e3o do \u201cBonjour Tristesse\u201d, de Fran\u00e7oise Sagan, para o ingl\u00eas. Diz ela que simplesmente n\u00e3o conseguiu ler a nova tradu\u00e7\u00e3o, feita por Heather Lloyd para a edi\u00e7\u00e3o da Penguin Modern Classics, de t\u00e3o acostumada \u2013 e fascinada \u2013 com a abertura da mesma obra em ingl\u00eas na tradu\u00e7\u00e3o de Irene Ash, que ela leu na adolesc\u00eancia. \u201cO choque foi tremendo, desorientador\u201d, disse ela. Traduzir \u00e9 perigoso&#8230;<\/p>\n<p>Outro artigo \u00e9 de <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.theguardian.com\/books\/2016\/oct\/14\/camus-letranger-stranger-than-fiction-alice-kaplan');\"  href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2016\/oct\/14\/camus-letranger-stranger-than-fiction-alice-kaplan\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.theguardian.com%2Fbooks%2F2016%2Foct%2F14%2Fcamus-letranger-stranger-than-fiction-alice-kaplan','Alice+Kaplan')\" target=\"_blank\">Alice Kaplan<\/a>, (14 de outubro) \u00a0comentando a diferen\u00e7a <em>no t\u00edtulo<\/em> da tradu\u00e7\u00e3o de \u201cL\u2019\u00c9tranger\u201d do Camus, traduzido por Cyril Connolly. O mesmo romance tem dois t\u00edtulos: \u201cThe Outsider\u201d, na edi\u00e7\u00e3o inglesa de Hamish Hamilton, e \u201cThe Stranger\u201d, na edi\u00e7\u00e3o da Knopf nos EUA. Diz ela que muita tinta j\u00e1 rolou para explicar isso. \u201cPodemos imaginar, por exemplo, que no <em>melting pot<\/em> de Nova York, a editora do emigrante Knopf tinha uma sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento que o levou a preferir <em>The Stranger<\/em>, enquanto o editor ingl\u00eas, Hamish Hamilton, era mais consciente da exclus\u00e3o social \u2013 e da\u00ed <em>The Outsider<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Plaus\u00edvel, n\u00e3o? S\u00f3 que errado. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que se trata mais do resultado de um quiproc\u00f3 editorial do que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>Finalmente, o artigo da Rachel Cooke me faz lembrar que, seja no original ou nas tradu\u00e7\u00f5es, \u00e9 o leitor que dar\u00e1 a palavra final na aprecia\u00e7\u00e3o do livro. Cada romance s\u00f3 se realiza plenamente na multiplicidade de leituras que pode provocar. Se n\u00e3o consegue isso, tanto o original como as tradu\u00e7\u00f5es correm o risco de se transformar em objetos de arqueologia liter\u00e1ria, apenas para satisfa\u00e7\u00e3o de eruditos. O livro n\u00e3o lido ou rejeitado pelos leitores \u00e9 um livro morto.<\/p>\n<p>Traduzir \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Traduzir \u00e9 perigoso\u201d, diria, parodiando Guimar\u00e3es Rosa, \u00a0sobre o tema que ser\u00e1 objeto da primeira mesa do Conex\u00f5es Ita\u00fa Cultural \u2013 Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira \u2013 que come\u00e7a hoje, dia 9 e segue at\u00e9 a pr\u00f3xima sexta-feira. 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