{"id":2961,"date":"2016-10-26T07:21:49","date_gmt":"2016-10-26T10:21:49","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2961"},"modified":"2016-10-26T07:21:49","modified_gmt":"2016-10-26T10:21:49","slug":"comissoes-corrupcao-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2961","title":{"rendered":"COMISS\u00d5ES, CORRUP\u00c7\u00c3O E PODER"},"content":{"rendered":"<p>No post que publiquei no dia 19 de outubro, sobre as investiga\u00e7\u00f5es no PNLD, mencionei que anteriormente ao sistema de escolha dos livros pelos pr\u00f3prios professores, os que eram adquiridos pelo programa eram escolhidos por Comiss\u00f5es de representantes de secretarias e do MEC. Mencionei tamb\u00e9m fatos deprimentes que soube que aconteceram na \u00e9poca, sem citar nomes nem empresas.<\/p>\n<p>Quero deixar expl\u00edcito que essas cenas deprimentes n\u00e3o afetavam todos os membros das comiss\u00f5es. Os \u201cespertos\u201d das editoras que forneciam os livros j\u00e1 sabiam quais eram os mais fr\u00e1geis e que poderiam ser convencidos pelos m\u00e9todos pouco ortodoxos.<\/p>\n<p>\u00c9 bom deixar claro tamb\u00e9m que, nos casos que conhe\u00e7o de perto, esse tipo de pr\u00e1tica nunca passou pelo meu conhecimento (o que n\u00e3o pode dizer que n\u00e3o tenham existido, mas nunca soube de nada).<\/p>\n<p>Em outras ocasi\u00f5es, al\u00e9m desse post, j\u00e1 declarei v\u00e1rias vezes que tenho verdadeira alergia a essa hist\u00f3ria de selecionar livros para aquisi\u00e7\u00e3o de acervos, sejam de livros escolares, sejam para acervos de bibliotecas p\u00fablicas. \u00c9 sobre isso que desejo refletir um pouco.<\/p>\n<p>O primeiro ponto \u00e9 afirmar que estou longe, muito longe, de aceitar que a corrup\u00e7\u00e3o seja o \u201cm\u00e9todo preferencial\u201d de a\u00e7\u00e3o junto aos agentes p\u00fablicos. A maioria absoluta dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos que conheci \u00e9 constitu\u00edda por pessoas \u00edntegras, dedicadas ao trabalho e que n\u00e3o cedem \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mania nacional, que n\u00e3o vem de hoje, de achar que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 a raiz de todos os males do pa\u00eds \u00e9, na minha opini\u00e3o, um enorme equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>A corru\u00e7\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca a todas as estruturas de poder. N\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um componente da economia capitalista, e sim um fen\u00f4meno constituinte de sistemas de poder.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero fazer digress\u00f5es aqui sobre corrup\u00e7\u00e3o em geral. No caso das comiss\u00f5es para escolha de livros, o problema pode ter caracter\u00edsticas bem pr\u00f3prias, e longe dos casos deprimentes em que dinheiro e favores trocam de m\u00e3os.<\/p>\n<p>Vejamos alguns exemplos que provocam minha alergia \u00e0s comiss\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; A \u201cS\u00cdNDROME DO LIVRO BOM\u201d. Um segmento especial dos estudiosos do livro e da leitura \u2013 que costumo chamar de leitur\u00f3logos &#8211; sustenta, invariavelmente, uma coisa meio nebulosa que chamam de \u201cbons leitores\u201d e que s\u00e3o bons leitores porque leem os \u201clivros bons\u201d. \u00c9 uma tautologia curiosa. Os \u201cbons leitores\u201d se formam lendo o livro que os leitur\u00f3logos j\u00e1 definiram previamente como \u201cbons\u201d. A categoria dos \u201clivros bons\u201d se distingue, desde logo, por ser excludente: bestsellers, por princ\u00edpio, n\u00e3o podem fazer parte dessa categoria; livros que sejam informativos tamb\u00e9m s\u00e3o largamente exclu\u00eddos da categoria. \u201cLivros bons\u201d, por sua vez, s\u00e3o sempre de literatura e ensaios bem fundamentados sobre assuntos profundos. Ao terminar a leitura de um \u201clivro bom\u201d, o \u201cbom leitor\u201d tem seu intelecto e sua alma al\u00e7ados a um n\u00edvel superior. Mas, sobretudo, o \u201clivro bom\u201d \u00e9 aquele que o leitur\u00f3logo qualifica como tal. E, portanto, seleciona para ser adquirido para acervos, etc. \u00c9 o subjetivismo de uma categoria espec\u00edfica de leitores que define o \u201clivro bom\u201d.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea dos livros did\u00e1ticos e escolares, \u201clivro bom\u201d \u00e9 sempre aquele que expressa a corrente pedag\u00f3gica mais \u201cmoderna ou \u201cavan\u00e7ada\u201d, da qual que o professor-comiss\u00e1rio-avaliador faz parte.<\/p>\n<p>Valem exemplos de como se processa a exclus\u00e3o feita pelos leitur\u00f3logos.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois de iniciada a avalia\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos livros did\u00e1ticos, com a malfadada classifica\u00e7\u00e3o por estrelas, as pesquisas de uso dos livros enviados pelo MEC revelou enormes dificuldades. Os livros bons que alcan\u00e7assem tr\u00eas estrelas eram o quente do construtivismo. Livros que tivessem uma ou duas estrelinhas eram razo\u00e1veis. Sem estrelas, eram os livros mais tradicionais. Pouco importa que a imensa maioria dos professores n\u00e3o estivesse capacitada para usar os avan\u00e7ad\u00edssimos m\u00e9todos construtivistas. A indu\u00e7\u00e3o dos livros estrelados aumentava a solicita\u00e7\u00e3o deles pelos professores (imaginem a press\u00e3o, subjetiva e objetiva, para que adotassem os livros considerados como melhores pelos professores-doutores avaliadores). Resultado: muitos acabavam sendo deixados de lado por quem n\u00e3o sabia como us\u00e1-los.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&#8211; \u201cBIBLIOTECA \u00c9 PARA LITERATURA\u201d<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica perversa das ditas comiss\u00f5es \u00e9 o foco exclusivo na sua \u00e1rea. No caso, a dita literatura, seja fic\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Quando a Biblioteca Nacional, ou o MinC, compram livros para distribui\u00e7\u00e3o de acervos para bibliotecas, invariavelmente s\u00e3o livros de literatura, de fic\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Ora, nada mais estranho e distante do papel das bibliotecas p\u00fablicas que isso.<\/p>\n<p>O documento da UNESCO-IFLAA que at\u00e9 hoje \u00e9 um instrumento b\u00e1sico para constitui\u00e7\u00e3o, gerenciamento e desenvolvimento de bibliotecas p\u00fablicas \u00e9 expl\u00edcito a esse respeito:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c1.3 A finalidade da biblioteca p\u00fablica<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Os principais objetivos da biblioteca p\u00fablica s\u00e3o facilitar recursos informativos e prestar servi\u00e7os mediante diversos meios com o objetivo de cobrir as necessidades de pessoas e grupos em mat\u00e9ria de instru\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento pessoal, compreendidas tamb\u00e9m atividades intelectuais de lazer e \u00f3cio. Desempenham um importante papel no progresso e manuten\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica ao oferecer a cada pessoa acesso a toda una s\u00e9rie de conhecimentos, ideias e opini\u00f5es\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Ilustrativa dessa vis\u00e3o restrita das compras do MinC de acervos para bibliotecas \u00e9 o que vi ao indicar um document\u00e1rio para uma professora-doutora que participava da sele\u00e7\u00e3o de livros para aquisi\u00e7\u00e3o pela BN. A Edi\u00e7\u00f5es SM patrocina um pr\u00eamio bem interessante, o \u201cBarco a Vapor\u201d, e em uma das entregas do pr\u00eamio foi distribu\u00eddo entre os presentes o DVD \u00a0com document\u00e1rio intitulado \u201cUm abrigo entre livros\u201d cujo link est\u00e1 aqui. <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/youtu.be\/HROjsxYI1gc');\"  href=\"https:\/\/youtu.be\/HROjsxYI1gc\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fyoutu.be%2FHROjsxYI1gc','https%3A%2F%2Fyoutu.be%2FHROjsxYI1gc')\">https:\/\/youtu.be\/HROjsxYI1gc<\/a> O filme mostra o esfor\u00e7o de um grupo de ocupantes do pr\u00e9dio da Av. Prestes Maia, 911, no centro de S. Paulo para montar uma biblioteca no espa\u00e7o que seria a garagem. A ocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 2002 e as 468 fam\u00edlias (mais de 2.000 pessoas) limparam o edif\u00edcio deteriorado, recuperaram instala\u00e7\u00f5es hidr\u00e1ulicas e el\u00e9tricas, drenaram o esgoto que inundava o por\u00e3o e, em 2005, tomaram a iniciativa de montar a biblioteca, com livros doados e recolhidos no lixo. L\u00e1 pelas tantas, aos 3:20 minutos do document\u00e1rio, o morador Severino Manoel de Souza diz que vai mostrar o primeiro livro da biblioteca e o que mais circulou nos primeiros meses. O t\u00edtulo: \u201cEletricidade B\u00e1sica\u201d. \u00c9 \u00f3bvio: os ocupantes precisavam levar energia a cada unidade, ningu\u00e9m gosta de levar choque, e o livro ajudava.<\/p>\n<p>A resposta da professora-doutora membro da comiss\u00e3o: \u201cIsso \u00e9 problema do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia, n\u00e3o da Biblioteca Nacional\u201d! Confesso que o que pensei na hora \u00e9 impublic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nos meus anos de milit\u00e2ncia pol\u00edtica, estive em in\u00fameros conjuntos habitacionais (os velhos COHABs). Eram rar\u00edssimas as casas que n\u00e3o haviam sido ampliadas. Um puxadinho, um mezanino ou mesmo um segundo andar. O curioso \u00e9 que, mesmo quando feitos por trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, as colunas e lajes constru\u00eddas eram evidentemente superdimensionadas. O pessoal trabalhava na constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios, e n\u00e3o sabia calcular colunas e lajes para um simples puxado ou um andar a mais. Isso acontece nos conjuntos, nas favelas e por a\u00ed afora. Se existe livros de t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o simples (\u00e9 poss\u00edvel que existam), certamente n\u00e3o est\u00e3o em nenhuma biblioteca. N\u00e3o s\u00e3o selecionadas por s\u00e1bios, e os trabalhadores se intimidam em entrar em bibliotecas que s\u00f3 tem os \u201clivros bons\u201d e nada que lhes interesse.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00c1BIOS ESCOLHEM LIVROS DE S\u00c1BIOS. &#8211; S\u00e1bios n\u00e3o seriam se n\u00e3o escolhessem os livros dos outros s\u00e1bios. E, como uma m\u00e3o lava a outra&#8230; A hist\u00f3ria \u00e9 ilustrativa. Quando Paulo Renato tomou a iniciativa da primeira Biblioteca do Professor, para que os mestres de cinquenta mil escolas p\u00fablicas (era um projetinho piloto) tivessem consigo uma cole\u00e7\u00e3o de livros que os ajudassem a entender o pa\u00eds, etc, etc, etc., convocou uma comiss\u00e3o de s\u00e1bios, bem s\u00e1bios e insuspeitos, para fazer a sele\u00e7\u00e3o. Quem quiser ver a lista completa, que busque no Google. Vale a pena dizer, que al\u00e9m de livros dos pr\u00f3prios s\u00e1bios, foram inclu\u00eddos os inevit\u00e1veis (Machado de Assis, por exemplo), e cl\u00e1ssicos outros, entre os quais destaco: cole\u00e7\u00e3o completa dos \u201cSerm\u00f5es\u201d do Padre Vieira e uma edi\u00e7\u00e3o do \u201cUraguai\u201d, o poema arcadista do \u00ednclito Bas\u00edlio da Gama, que hoje s\u00f3 \u00e9 lido por alunos de doutorado&#8230; Ainda bem que inclu\u00edram uma cole\u00e7\u00e3o dos livros infantis do Monteiro Lobato. Mas l\u00e1 se foram cinquenta mil cole\u00e7\u00f5es do Padre Vieira e do \u201cUraguai\u201d para professores de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m considera que essa sele\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente uma contribui\u00e7\u00e3o para melhorar a compreens\u00e3o que os professores das escolas p\u00fablicas t\u00eam da Pindorama, que se apresente (desde que n\u00e3o seja um dos s\u00e1bios, \u00e9 claro).<\/p>\n<p>S\u00e3o modestos exemplos que justificam minha alergia a essa hist\u00f3ria de comiss\u00f5es para escolha de acervos. O que todos t\u00eam em comum \u00e9 a usurpa\u00e7\u00e3o do poder de escolha do leitor. Com um ou outro pretexto, retiram do leitor o direito de escolher o que ler, o direito de decidir que rumos podem tomar suas buscas de informa\u00e7\u00e3o, de lazer. Esse \u00e9 o defeito principal dessas comiss\u00f5es, a \u00faltima inst\u00e2ncia do que podemos chamar de autoritarismo: a usurpa\u00e7\u00e3o do direito do cidad\u00e3o decidir o que quer ler.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso fazer mais algumas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que haja avalia\u00e7\u00f5es de qualidade dos livros oferecidos, desde que restrita a aspectos espec\u00edficos: erros factuais, n\u00e3o fazer apologia ao racismo e \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e outras veda\u00e7\u00f5es da Constitui\u00e7\u00e3o. E s\u00f3.<\/p>\n<p>Certamente \u00e9 \u00f3timo que as bibliotecas ofere\u00e7am aos usu\u00e1rios livros do c\u00e2none, e que os atendentes, bibliotec\u00e1rios e agentes de leitura tenham capacidade para orient\u00e1-los sobre as diferentes alternativas. Mas \u00e9 imperativo que as op\u00e7\u00f5es de escolha dos leitores sejam respeitadas, e n\u00e3o destratadas como inferiores. O cidad\u00e3o que chega na biblioteca e quer ler a K\u00e9fera ou Paulo Coelho TEM O DIREITO de encontrar esses livros l\u00e1. Tem o direito porque a biblioteca \u00e9 mantida com os impostos que ele tamb\u00e9m paga. Se M. Chirac pespega uma L\u00e9gion d\u2019Honneur no Mago e o cita como exemplo da literatura brasileira, com que diabos vem um s\u00e1bio local dizer que o leitor brasileiro n\u00e3o tem o direito de ler seus livros?<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 exatamente essa: permitir que os usu\u00e1rios e administradores das bibliotecas tenham voz ativa na defini\u00e7\u00e3o dos acervos adquiridos, e mesmo nos enviados pelo governo.<\/p>\n<p>Evidentemente a defini\u00e7\u00e3o de acervos n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico problema das bibliotecas p\u00fablicas brasileiras, mas certamente \u00e9 um deles. Acervos distanciados dos desejos e expectativas dos usu\u00e1rios simplesmente os afastam das bibliotecas. Para que voltar se os livros que querem ler n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, e ainda os olham com cara de burro?<\/p>\n<p>O que caracteriza essas comiss\u00f5es, para mim, portanto, n\u00e3o \u00e9 a qualidade da escolha, mas uma quest\u00e3o de usurpa\u00e7\u00e3o do poder do leitor ou do professor de escolher o que querem ler. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de um micropoder que n\u00e3o \u00e9 menos delet\u00e9rio por ser micro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No post que publiquei no dia 19 de outubro, sobre as investiga\u00e7\u00f5es no PNLD, mencionei que anteriormente ao sistema de escolha dos livros pelos pr\u00f3prios professores, os que eram adquiridos pelo programa eram escolhidos por Comiss\u00f5es de representantes de secretarias e do MEC. 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