{"id":2937,"date":"2016-09-30T10:23:34","date_gmt":"2016-09-30T13:23:34","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2937"},"modified":"2016-09-30T10:23:34","modified_gmt":"2016-09-30T13:23:34","slug":"abralic-resistencia-e-bons-debates","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2937","title":{"rendered":"ABRALIC \u2013 RESIST\u00caNCIA E BONS DEBATES"},"content":{"rendered":"<p>Semana passada (entre 19 e 24) aconteceu no Rio de Janeiro o XV Encontro da ABRALIC \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Literatura Comparada, no campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro \u2013 UERJ.<\/p>\n<p>O evento foi organizado sob a dire\u00e7\u00e3o do prof. Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, professor daquela Universidade e atual presidente da ABRALIC. Jo\u00e3o Cezar enfatizou sempre que faz\u00ea-lo no campus da UERJ era, tamb\u00e9m parte da luta pela defesa da universidade p\u00fablica, gratuita e democr\u00e1tica. Entre outras raz\u00f5es, porque a UERJ sofreu duramente a falta de verbas, atraso no pagamento de sal\u00e1rios e benef\u00edcios de professores e funcion\u00e1rios. Cortes e contingenciamento de verbas decorrentes, principalmente, do fato do governo do Rio de Janeiro n\u00e3o dar a devida prioridade \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A UERJ, salientou Jo\u00e3o Cezar em conversa, sempre foi uma universidade voltada para o sub\u00farbio, longe da pomposidade e da tradi\u00e7\u00e3o da UFRJ \u2013 descendente da primeira universidade p\u00fablica brasileira, iniciativa de An\u00edsio Teixeira. O campus ao lado do Maracan\u00e3, bem servido de transporte p\u00fablico (que hoje inclui o metr\u00f4), era a universidade de mais f\u00e1cil acesso para a juventude que crescia no sub\u00farbio carioca. O pr\u00f3prio Jo\u00e3o Cezar, de magn\u00edfica carreira acad\u00eamica \u2013 inclusive como professor visitante de importantes universidades europeias e norteamericanas \u2013 orgulha-se de suas origens no M\u00e9ier.<\/p>\n<p>O Ita\u00fa Cultural contribuiu para a realiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias mesas e pela presen\u00e7a de visitantes nacionais e internacionais. Ali\u00e1s, a galeria de ilustres participantes no evento \u00e9 muito significativa, tanto da \u00e1rea acad\u00eamica como de escritores, como se pode ver na fanpage do evento no <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.facebook.com\/groups\/1034294019973502\/?fref=ts');\"  href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/1034294019973502\/?fref=ts\" onclick=\"return TrackClick('https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fgroups%2F1034294019973502%2F%3Ffref%3Dts','Facebook')\" target=\"_blank\">Facebook<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2938\" aria-describedby=\"caption-attachment-2938\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2938\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/abralic-2-300x225.jpg\" alt=\"Mesa na ABRALIC - Rita Palmeira, Laura Erber, Eu, Luiz Ruffato\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/abralic-2-300x225.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/abralic-2-768x576.jpg 768w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/abralic-2.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2938\" class=\"wp-caption-text\">Mesa na ABRALIC &#8211; Rita Palmeira, Laura Erber, Eu, Luiz Ruffato<\/figcaption><\/figure>\n<p>A mesa da qual participei, na tarde do dia 22, centrou-se precisamente no programa Conex\u00f5es Ita\u00fa Cultural: Literatura Brasileira no Exterior, do qual sou um dos curadores, juntamente com o prof. Jo\u00e3o Cezar, e contou com a presen\u00e7a do escritor Luiz Rufatto, da prof. Laura Erber (UNIRIO) e foi mediada pela prof. Rita Palmeira (Conex\u00f5es Ita\u00fa Cultural).<\/p>\n<p>Preparei minha interven\u00e7\u00e3o a partir do trabalho de Pascale Casanova, pesquisadora francesa (disc\u00edpula de Pierre Bourdieu), autora de um livro muito importante, A Rep\u00fablica Mundial das Letras (Esta\u00e7\u00e3o Liberdade).<\/p>\n<p>Pascale Casanova faz, ainda na introdu\u00e7\u00e3o desse livro, uma observa\u00e7\u00e3o interessante sobre O Motivo do Tapete, de Henry James, e que sintetiza bem o esp\u00edrito da obra. Diz ela: \u201cA ideia, esp\u00e9cie de preliminar cr\u00edtica incontestada, de que a obra liter\u00e1ria deve ser descrita como exce\u00e7\u00e3o absoluta, surgimento imprevis\u00edvel e isolado. Nesse sentido, a cr\u00edtica liter\u00e1ria pratica um monadismo radical: uma obra singular e irredut\u00edvel seria uma unidade perfeita e s\u00f3 poderia ser medida e referir-se a si mesma, o que obriga o int\u00e9rprete a apreender o conjunto de textos que formam o que se chama de \u2018hist\u00f3ria da literatura\u2019 apenas em sua sucess\u00e3o aleat\u00f3ria\u201d. Esse seria, para ela, justamente o preconceito que cega a cr\u00edtica. E \u201co sentido da solu\u00e7\u00e3o que James prop\u00f5e ao cr\u00edtico, \u2018o motivo no tapete\u2019, essa figura (ou essa composi\u00e7\u00e3o) que s\u00f3 aparece quando sua forma e coer\u00eancia de repente jorram do emaranhado e da desordem aparente de uma configura\u00e7\u00e3o complexa, deve ser buscada n\u00e3o em outra parte e fora do texto, mas a partir de um outro ponto de vista do tapete e da obra\u201d. [&#8230;] e sua complexidade \u201cpoderia encontrar seu princ\u00edpio na totalidade, invis\u00edvel e contudo oferecida, de todos os textos liter\u00e1rios atrav\u00e9s e contra os quais ela p\u00f4de se construir e existir e da qual cada livro publicado no mundo seria um dos elementos\u201d (16-17).<br \/>\n\u00c9 a partir da\u00ed que podemos entender n\u00e3o apenas a literatura comparada \u2013 todos esses motivos do tapete liter\u00e1rio que se tece pelo mundo afora e no decorrer da hist\u00f3ria da literatura \u2013 como a import\u00e2ncia da inser\u00e7\u00e3o das nossas vozes liter\u00e1rias nessa trama. N\u00e3o porque seja particularmente importante ou not\u00e1vel (apesar da observa\u00e7\u00e3o do Antonio C\u00e2ndido, de que a literatura brasileira \u00e9 apenas um \u201cgalho secund\u00e1rio\u201d da portuguesa), mas porque sem ela ficam faltando motivos na composi\u00e7\u00e3o do tapete.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2846\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner-e-books1.jpg\" alt=\"banner-e-books1\" width=\"631\" height=\"229\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner-e-books1.jpg 631w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner-e-books1-300x109.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 631px) 100vw, 631px\" \/><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/conexoesitaucultural.org.br\/');\"  href=\"http:\/\/conexoesitaucultural.org.br\/\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fconexoesitaucultural.org.br%2F','Conex%C3%B5es+Ita%C3%BA+Cultural+%E2%80%93+Mapeamento+Internacional+da+Literatura+Brasileira')\" target=\"_blank\">Conex\u00f5es Ita\u00fa Cultural \u2013 Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira<\/a> \u00a0\u00e9 parte do esfor\u00e7o de conhecer onde andam os peda\u00e7os das nossas contribui\u00e7\u00f5es para essa composi\u00e7\u00e3o. E a Machado de Assis Magazine \u2013 Literatura Brasileira em tradu\u00e7\u00e3o, da qual sou o editor, um esfor\u00e7o para que mais pe\u00e7as das nossas contribui\u00e7\u00f5es a essa tape\u00e7aria sejam inclu\u00eddas.<\/p>\n<p>Essa incorpora\u00e7\u00e3o de motivos na tape\u00e7aria \u00e0s vezes implica em sorte e em um trabalho quase detetivesco. Lembro do caso de Poggio Bracciolini, secret\u00e1rio do antipapa Jo\u00e3o XXIII, poliglota, erudito e colecionador de manuscritos \u2013 tarefa a que se dedicavam eruditos ricos no Renascimento \u2013 e recuperou para a hist\u00f3ria, n\u00e3o apenas da literatura, como tamb\u00e9m da filosofia e da ci\u00eancia, os trechos do poema de Lucrecio, <em>De Rerum Natura<\/em>, atualizando ideias que foram fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o do mundo moderno. A hist\u00f3ria \u00e9 deliciosamente contada no livro <em>A Virada \u2013 o nascimento do mundo moderno<\/em>, de Stephen Greenblatt, professor de Harvard.<\/p>\n<p>Entretanto, a grande virada da literatura come\u00e7a mesmo com Gutemberg e a inven\u00e7\u00e3o dos tipos m\u00f3veis. O que leva, mais adiante, ao surgimento de dois personagens para os quais gostaria de brevemente chamar aten\u00e7\u00e3o aqui: o editor e o tradutor.<\/p>\n<p>Sem esses dois personagens n\u00e3o se pode, de fato, falar de uma Rep\u00fablica Mundial das Letras. Sem os tradutores o livro n\u00e3o viaja; sem editores n\u00e3o se atualiza e permanece.<\/p>\n<p>Veja-se brevemente a trajet\u00f3ria de dois autores da literatura escrita em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Cam\u00f5es publica <em>Os Lus\u00edadas <\/em>em 1572, que \u00e9 um paneg\u00edrico das navega\u00e7\u00f5es lusitanas. Em 1580 Portugal passa a ser governado por Filipe II da Espanha, e a obra camoniana assume cada vez mais o papel de sustent\u00e1culo ideol\u00f3gico do nacionalismo portugu\u00eas. Como tal permanece, \u00e9 traduzido e repetidamente editado, e considerado como um dos momentos fundadores do portugu\u00eas como l\u00edngua liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outro livro, de um contempor\u00e2neo quase perfeito de Cam\u00f5es, &#8211; e por muitos considerado tamb\u00e9m como um dos livros formadores da prosa liter\u00e1ria em portugu\u00eas \u2013 teve um destino muito distinto. Trata-se das <em>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/em> de Fern\u00e3o Mendes Pinto.<\/p>\n<p><em>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 o relato das aventuras que esse portugu\u00eas passou pela \u00c1sia e Oceania durante d\u00e9cadas, e onde apresenta uma vis\u00e3o \u201cpor dentro\u201d do ciclo das navega\u00e7\u00f5es: pilhagens, portugueses escravizando portugueses e roubando uns aos outros, extrema viol\u00eancia e cobi\u00e7a e outras p\u00e9rolas do g\u00eanero.<\/p>\n<p>O livro foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1614, depois do autor j\u00e1 ter morrido havia 31 anos.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Mendes Pinto escreveu a Peregrina\u00e7\u00e3o entre 1569 e 1578, e recebeu uma ten\u00e7a (pens\u00e3o) do soberano espanhol que governava Portugal. Al\u00e9m do mais, vinculou-se, no fim da vida, aos jesu\u00edtas, o que o colocava sob suspeita para uma boa parte do resto do clero e da nobreza portuguesas. A Ordem de Jesus sempre foi pol\u00eamica e controversa.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das edi\u00e7\u00f5es da Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 significativa disso. Teve um sucesso inicial fulgurante (dezenove edi\u00e7\u00f5es em seis l\u00ednguas), logo depois entrou em um limbo editorial. Edi\u00e7\u00f5es esparsas, geralmente reprodu\u00e7\u00f5es da edi\u00e7\u00e3o de 1614. Somente em 1908-1909 aparece uma \u201cedi\u00e7\u00e3o popular\u201d em Lisboa e, at\u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em Portugal, h\u00e1 not\u00edcias, no s\u00e9culo XX, de apenas cinco edi\u00e7\u00f5es (al\u00e9m da popular mencionada), tr\u00eas das quais reproduzindo o original, sem tratamento cr\u00edtico. Ou seja, s\u00f3 para eruditos. Apenas a quinta edi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, de 1961, preparada por Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva, traduz um esfor\u00e7o para tornar Fern\u00e3o Mendes Pinto acess\u00edvel ao leitor moderno (cf. \u201cPref\u00e1cio\u201d de A. J. Saraiva, op. cit. pg. XLVI e sgs.). A edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas atual, preparada pela escritora Maria Alberta Men\u00e9res, foi lan\u00e7ada em 1971, nos estertores do salazarismo.<\/p>\n<p>Tudo ao contr\u00e1rio dos\u00a0<strong>Lus\u00edadas<\/strong>.<\/p>\n<p>Para muita gente mais capacitada que eu, a\u00a0<strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 um marco important\u00edssimo na consolida\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas como forma liter\u00e1ria em prosa. No entanto, at\u00e9 hoje \u00e9 um personagem semiclandestino na literatura portuguesa, e s\u00f3 foi editado pela primeira vez no Brasil em 2005, editada por mim e publicada pena Nova Fronteira com apoio do Instituto Portugu\u00eas do Livro e das Bibliotecas.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as essenciais entre os dois livros v\u00e3o al\u00e9m da import\u00e2ncia liter\u00e1ria que tenham. Devem-se a circunst\u00e2ncias de ordem pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social, decorrentes das diferen\u00e7as dos projetos liter\u00e1rios dos dois autores.<\/p>\n<p>O que destaco aqui \u00e9 que a composi\u00e7\u00e3o dessa imensa tape\u00e7aria que \u00e9 a Rep\u00fablica Mundial das letras n\u00e3o depende exclusivamente da qualidade da contribui\u00e7\u00e3o de cada autor, de cada pa\u00eds, a cada momento.<\/p>\n<p>Esses \u201cfatores externos\u201d ao fato liter\u00e1rio, como explicita Pierre Bourdieu em sua obra, recolocam em outra dimens\u00e3o a literatura comparada e a predomin\u00e2ncia deste ou daquele universo lingu\u00edstico na hist\u00f3ria da literatura. Se n\u00e3o considerarmos isso, n\u00e3o h\u00e1 como explicar o sucessivo predom\u00ednio do franc\u00eas primeiro, e hoje do ingl\u00eas, como as \u201cl\u00ednguas liter\u00e1rias\u201d que geram a maior difus\u00e3o internacional, e d\u00e3o a apar\u00eancia de \u201csuperioridade\u201d de algumas literaturas (nacionais ou lingu\u00edsticas) sobre outras.<\/p>\n<p>Da\u00ed que a exig\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que facilitem, estimulem e contribuam para a inser\u00e7\u00e3o da literatura brasileira nessa Rep\u00fablica Mundial das Letras t\u00eam a maior import\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada (entre 19 e 24) aconteceu no Rio de Janeiro o XV Encontro da ABRALIC \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Literatura Comparada, no campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro \u2013 UERJ. O evento foi organizado sob a dire\u00e7\u00e3o do prof. 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