{"id":2924,"date":"2016-07-20T19:48:02","date_gmt":"2016-07-20T22:48:02","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2924"},"modified":"2016-07-20T19:48:02","modified_gmt":"2016-07-20T22:48:02","slug":"sergio-machado-editor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2924","title":{"rendered":"S\u00c9RGIO MACHADO, EDITOR"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2925\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Capturar.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"904\" height=\"65\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Capturar.jpg 904w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Capturar-300x22.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Capturar-768x55.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 904px) 100vw, 904px\" \/><\/p>\n<p>A morte do S\u00e9rgio Machado, para al\u00e9m do sentimento de perda de um amigo \u2013 pois assim o considerava \u2013 suscita algumas reflex\u00f5es sobre a nossa ind\u00fastria editorial, a partir da sua vida.<\/p>\n<p>Estava no comando do grupo Record, o maior grupo editorial \u201ctrade\u201d do pa\u00eds, desde 1991, quando da morte de seu pai e fundador da editora, Alfredo Machado. S\u00e9rgio, economista de forma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estava h\u00e1 alguns anos trabalhando na empresa da fam\u00edlia. A Record, fundada por Alfredo e seu cunhado, D\u00e9cio Abreu, morreu naquele ano, deixando a editora nas m\u00e3os de tr\u00eas filhos: S\u00e9rgio, Alfredo Jr. e Sonia. A editora, fundada no \u00e2mbito e com as caracter\u00edsticas de empresa familiar, continuava sob controle da fam\u00edlia, sem capital aberto.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios das empresas familiares, de todos os ramos, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o da sucess\u00e3o do fundador. Todos os irm\u00e3os trabalhavam na editora, mas S\u00e9rgio e Alfredo tinham pontos de vista diferentes sob v\u00e1rios pontos. As diverg\u00eancias entre herdeiros provocam turbul\u00eancia e podem mesmo por a pique a empresa. S\u00e9rgio comprou a parte de Alfredo e, com a irm\u00e3, assumiu o controle total do grupo.<\/p>\n<p>Em 1997, um evento abalou a fam\u00edlia Machado e o mercado editorial brasileiro. Sonia Machado Jardim foi sequestrada, e permaneceu semanas em poder dos seus captores. S\u00e9rgio estava nos EUA, onde fazia um curso \u2013 coincidentemente sob negocia\u00e7\u00f5es \u2013 e voltou ao Brasil. Junto com o irm\u00e3o e o marido de Sonia, Antonio Carlos, conduziram as negocia\u00e7\u00f5es que resultaram na liberta\u00e7\u00e3o de Sonia, em troca do pagamento de um resgate de valor n\u00e3o especificado.<\/p>\n<p>Durante todos esses anos, o processo de concentra\u00e7\u00e3o do setor editorial avan\u00e7ou muito, principalmente com a chegada de grupos editorais estrangeiros, que investiram pesadamente, seja na aquisi\u00e7\u00e3o de empresas j\u00e1 existentes (Santillana comprou a Moderna; a Planeta se instalou por aqui, assim como outras espanholas, como a SM e a Oceano, e portuguesas, como a Leya). S\u00e9rgio sempre afirmava que, como comerciante, estava sempre aberto para negocia\u00e7\u00f5es, pois comprar e vender era o que sabia fazer.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, em vez de esperar que sua editora fosse comprada, S\u00e9rgio e Sonia partiram para o crescimento, adquirindo eles mesmo v\u00e1rias editoras nacionais. Desse modo, foram incorporadas ao grupo a Bertrand Brasil (que j\u00e1 era controladora da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e da Difel), a Jos\u00e9 Olympio (que faliu com os sucessores do patriarca e fundador e passou pelas m\u00e3os do BNDES e de Henrique Gregory um executivo da Xerox do Brasil), a BestSeller, comprada de Richard Civita, e mais recentemente a Paz &amp; Terra, comprada dos herdeiros de seu fundador, Fernando Gasparian, e a Rosa dos Tempos, fundada por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar. Paralelamente, fundou outras editoras\/selos, como a Galera e a Galerinha Record, a Nova Era, BestBolso, BestBusiness e a Verus. Com isso, a Record foi firmando seu p\u00e9 em v\u00e1rios segmentos do mercado, como o de livros infantis e juvenis, a literatura feminista, neg\u00f3cios, esot\u00e9rica e de fantasia.<\/p>\n<p>Ao robustecer sua empresa, usou a mesma t\u00e1tica das estrangeiras, ampliando sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O cat\u00e1logo da Record \u2013 e dos demais selos \u2013 sempre foi muito ecl\u00e9tico. Ele \u2013 assim como o pai \u2013 fazia quest\u00e3o de dizer que editava livros para vender muito. Esse era realmente seu norte. No entanto, a Record tamb\u00e9m sempre editou livros da maior import\u00e2ncia cultural, tanto de autores nacionais quanto estrangeiros. Quando da fal\u00eancia da Martins, Jorge Amado, que era o carro chefe daquela casa, passou para a Record. Tornou-se amigo do Alfredo Machado e do S\u00e9rgio, e seus livros s\u00f3 sa\u00edram da casa v\u00e1rios anos depois de sua morte. Graciliano Ramos ainda hoje tem sua obra ali editada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 bom lembrar que a Record foi, e ainda \u00e9, a editora brasileira de Gabriel Garcia Marquez, e hoje ostenta v\u00e1rios autores ganhadores do Nobel no cat\u00e1logo. <em>O Capital<\/em>, de Marx, teve sua primeira edi\u00e7\u00e3o publicada pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e ali permanece, assim como obras de Gramsci, Cort\u00e1zar, Joyce e Lucio Cardoso, entre muitos.<\/p>\n<p>Como sabemos, as editoras produzem livros e&#8230; produzem sobras. Seja por conta de fracassos editoriais, e mesmo com os t\u00edtulos de grande sucesso, ao t\u00e9rmino de v\u00e1rios anos, quando os contratos vencem, os dep\u00f3sitos est\u00e3o cheios de pontas de estoque. Quando essas sobras s\u00e3o resultado de fracassos editoriais, chamamos de encalhes. Altair Brasil, que foi presidente da CBL, brincava dizendo que na verdade eram o \u201cestoque regulador\u201d das editoras.<\/p>\n<p>Um grupo editorial do porte da Record gera, necessariamente, uma quantidade significativa de pontas e sobras de tiragem, que v\u00e3o se acumulando nos dep\u00f3sitos. A partir de certo ponto, viram fonte de despesas. S\u00e9rgio Machado prop\u00f4s uma emenda muito importante por ocasi\u00e3o da discuss\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o da Lei do Livro, que incluiu mecanismos de deprecia\u00e7\u00e3o desses estoques para efeito cont\u00e1beis, diminuindo a gera\u00e7\u00e3o de impostos sobre livros que, ano a ano, tornavam-se cada vez mais invend\u00e1veis, e que geram um lucro totalmente fict\u00edcio se contabilizados pelo seu valor de fabrica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das iniciativas mais interessantes de S\u00e9rgio Machado foi o programa de \u201csalas de leitura\u201d, que ele imaginou e colocou em pr\u00e1tica. Reunia dois exemplares de mil t\u00edtulos desses \u201cestoques reguladores\u201d, compondo um pacote de dois mil exemplares. Acompanhados de fichas e cartazes, cada um desses pacotes foi oferecido para compor \u201csalas de leitura\u201d em hospitais, creches, f\u00e1bricas, pres\u00eddios e onde mais que os adquirentes\/patrocinadores do programa desejassem. A \u00fanica exig\u00eancia era batizar cada uma dessas \u201csalas de leitura\u201d com o nome de um dos autores da Record.<\/p>\n<p>Esse programa refletia sua preocupa\u00e7\u00e3o muito grande com a quest\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o das tiragens. Para enfrentar o problema \u2013 antes da consolida\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o digital e impress\u00e3o por demanda \u2013 comprou uma m\u00e1quina do sistema Cameron. Essa impressora foi desenhada inicialmente para grandes tiragens, mas a equipe da Record desenvolveu um m\u00e9todo pelo qual \u201cemendava\u201d o miolo de v\u00e1rios livros na cinta de impress\u00e3o da m\u00e1quina, permitindo rodar quantidades menores de v\u00e1rios t\u00edtulos ao mesmo tempo. Como os livros eram colados (e n\u00e3o costurados), no acabamento, foi desenvolvida uma cola especial que resistisse \u00e0s nossas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, permitindo que os livros fossem abertos sem descolar nem se deformar. Mais recentemente, a Record adquiriu outra m\u00e1quina do mesmo tipo, e confesso que dessa vez n\u00e3o entendi a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Machado teve tamb\u00e9m participa\u00e7\u00e3o intensa nas organiza\u00e7\u00f5es do setor. A Record \u00e9 s\u00f3cia da CBL e do SNEL \u2013 do qual S\u00e9rgio foi presidente por v\u00e1rios mandatos \u2013 do Instituto Prolivro e da ABDL. Em 1994, quando da prepara\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, tive muitos encontros com ele, na condi\u00e7\u00e3o de um dos encarregados de planejar e executar essa participa\u00e7\u00e3o. Mais recentemente Sonia Jardim tamb\u00e9m foi presidente do SNEL.<\/p>\n<p>No meio dessa eterna disputa Rio-S\u00e3o Paulo, em um determinado momento pensei que, se ele se candidatasse \u00e0 presid\u00eancia da CBL, poderia ser um agente de unifica\u00e7\u00e3o das entidades e, consequentemente, de fortalecimento do setor. Infelizmente isso n\u00e3o passou de uma esperan\u00e7a. Definitivamente, ele n\u00e3o quis meter a m\u00e3o nessa cumbuca.<\/p>\n<p>Quando escrevi meu livro \u201cO Brasil Pode Ser um Pa\u00eds de Leitores\u201d, publicado em 2004, pedi um pref\u00e1cio a ele, que generosamente atendeu.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio tinha uma personalidade af\u00e1vel, embora ir\u00f4nica. Era duro nas negocia\u00e7\u00f5es, mas cumpria fielmente o acordado.<\/p>\n<p>Agora cabe \u00e0 irm\u00e3 e suas filhas repetir sua fa\u00e7anha e manter vivo um dos grandes grupos editoriais do pa\u00eds. Ofere\u00e7o meus p\u00easames a elas e desejo-lhes a melhor das sortes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do S\u00e9rgio Machado, para al\u00e9m do sentimento de perda de um amigo \u2013 pois assim o considerava \u2013 suscita algumas reflex\u00f5es sobre a nossa ind\u00fastria editorial, a partir da sua vida. 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