{"id":2809,"date":"2015-11-04T09:42:43","date_gmt":"2015-11-04T12:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2809"},"modified":"2015-11-04T09:42:43","modified_gmt":"2015-11-04T12:42:43","slug":"agoraequesaoelas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2809","title":{"rendered":"#Agora\u00c9QueS\u00e3oElas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2353\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a.jpg\" alt=\"publishnews cabe\u00e7a\" width=\"995\" height=\"105\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a.jpg 995w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a-300x31.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 995px) 100vw, 995px\" \/><br \/>\n<em>A coluna de hoje vai escrita pela Maria Jos\u00e9 Silveira, com quem vivo a quase cinquenta anos. Vidas ricas, militantes, com as alegrias e trope\u00e7os da vida de todo mundo. A nossa, ent\u00e3o, que atravessa milit\u00e2ncia, a minha pris\u00e3o pol\u00edtica e a clandestinidade dela, ex\u00edlio, a antropologia e o mercado editorial! Por iniciativa dela fomos recrutados, eu e o M\u00e1rcio Souza, para a maravilhosa aventura da Editora Marco Zero, frustrada depois de dezoito anos de vida.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>Maria Jos\u00e9 tem seu espa\u00e7o, como escritora, cronista e como pessoa que reflete sobre o of\u00edcio de escrever nesse nosso Brasil. Nem precisaria de ocupar esse peda\u00e7o em que trato das quest\u00f5es do mercado editorial. O convite foi feito para que os leitores conhe\u00e7am uma reflex\u00e3o que eu n\u00e3o posso fazer, embora a conhe\u00e7a muito bem. A voz de uma editora e escritora, simplesmente.<\/em><\/p>\n<p><strong>Mulheres no mercado editorial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Maria Jos\u00e9 Silveira<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-2810 size-medium\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/zeze-now288-273x300.jpg\" alt=\"zeze now288\" width=\"273\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/zeze-now288-273x300.jpg 273w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/zeze-now288-931x1024.jpg 931w\" sizes=\"(max-width: 273px) 100vw, 273px\" \/><\/p>\n<p>Estava eu aqui, sentada no meu canto de escritora, quando comecei a ver nas redes sociais um tsunami de posts das hashtags #meuprimeiroass\u00e9dio e #Agora\u00c9QueS\u00e3oelas, ao mesmo tempo em que via tamb\u00e9m as fotos e v\u00eddeos das marchas das mulheres com o #ForaCunha e #Abaixo o PL5069.<\/p>\n<p>Achei extremamente animador ver esse movimento pelos direitos e liberdade de escolha das mulheres avan\u00e7ar nas ruas e nas redes com tanta for\u00e7a e emo\u00e7\u00e3o. Quem tem a minha idade viveu, nos anos 60, movimentos muito fortes em torno dos direitos das mulheres, que deixaram conquistas important\u00edssimas \u2013 as principais, talvez, a chegada da p\u00edlula, e a conquista de espa\u00e7os de trabalho e da democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2013 mas o nauseabundo preconceito contra n\u00f3s e o direito de usarmos nossos corpos como queremos jamais foi de fato derrotado. E \u00e9 terr\u00edvel ver, de um momento para o outro, como a regress\u00e3o tomou conta de v\u00e1rios segmentos que antes pareciam pelo menos neutralizados; \u00e9 como se agora tivessem readquirido coragem para aparecer outra vez. N\u00f3s que pens\u00e1vamos que certas quest\u00f5es j\u00e1 deveriam estar h\u00e1 muito ultrapassadas, com espanto nos vemos regredindo aos est\u00e1gios iniciais da luta das mulheres.<\/p>\n<p>Por isso foi muito bom ver essa rea\u00e7\u00e3o quase instant\u00e2nea das mulheres, esse novo movimento acontecendo. E acatando a campanha #Agora\u00c9QueS\u00e3oElas que convida os colunistas homens a chamarem uma mulher para escrever em seu lugar, Felipe me convidou para escrever sua coluna esta semana: aceitei. \u00c9 uma campanha importante, e quero fazer parte dela falando do mercado editorial, onde esse preconceito \u00e9 camuflado e negado, mas existe.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando, em 1980, com Felipe Lindoso e M\u00e1rcio Souza fundamos a Editora Marco Zero (que depois nos foi estupidamente tirada), eu n\u00e3o estava preocupada com isso. Minha m\u00e3e foi uma mulher s\u00e1bia e nos educou \u2013 irm\u00e3os e irm\u00e3s \u2013 com os mesmos direitos e deveres, as mesmas obriga\u00e7\u00f5es e os mesmos pr\u00eamios. E se, na minha adolesc\u00eancia, meu pai quis mudar essas regras, era tarde: j\u00e1 era inabal\u00e1vel minha convicta certeza da igualdade b\u00e1sica dos homens e mulheres. Mesmo assim, claro que n\u00e3o pude deixar de perceber que no mercado editorial \u2013 onde sempre houve um grande contingente de trabalho feminino \u2013 o fato de ser mulher era um peso a mais que t\u00ednhamos que enfrentar. Nas idas \u00e0s gr\u00e1ficas, no contato com os distribuidores, aqui e ali, n\u00e3o era raro perceber o olhar de cima, ou de d\u00favidas, ou de insinua\u00e7\u00f5es. Felizmente, hoje, o n\u00famero de mulheres que fundaram com sucesso suas editoras mudou muito, e quero crer que os problemas que elas enfrentam j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam esse peso a mais.<\/p>\n<p>Mas, como escritora, \u00e9 ainda hoje que vejo um tipo de preconceito especial, nublado, e corrosivo ser exercido com bastante inconsci\u00eancia. Jamais voc\u00ea ver\u00e1, no meio editorial, entre editores e autores e os chamados curadores, algu\u00e9m que se confessar\u00e1 machista ou mis\u00f3gino. Pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o pessoas esclarecidas, que se consideram imparciais quanto ao g\u00eanero. E eu acredito \u2013 acredito mesmo \u2013 que elas realmente n\u00e3o percebem como s\u00e3o marcadas, tamb\u00e9m nisso, pela cultura em que foram criadas. Assim como os maridos em geral acreditam que seu trabalho \u00e9 mais importante que o da mulher \u2013 ainda que estejam na mesma faixa salarial, ou na mesma faixa de prest\u00edgio. E assim como o pai deixa para a m\u00e3e os cuidados mais intensos com o filho porque sinceramente acredita que essa \u00e9 a ordem natural das coisas, sem se dar conta de que isso \u00e9 assim porque nossa cultura diz que deve ser assim.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 literatura.<\/p>\n<p>Quem quiser fazer, aqui no Brasil, um levantamento dos convidados a eventos, festivais e bienais, e dos indicados a pr\u00eamios liter\u00e1rios, constatar\u00e1 a espantosa despropor\u00e7\u00e3o que existe entre homens e mulheres. Se fizer um levantamento da divulga\u00e7\u00e3o dada na imprensa e na m\u00eddia a livros escritos por mulheres (brasileiras), tamb\u00e9m constatar\u00e1 a despropor\u00e7\u00e3o. E isso \u00e9 feito sem que se note que est\u00e1 sendo feito, como se tamb\u00e9m fosse da ordem natural das coisas: voc\u00ea nunca ver\u00e1 entre essas pessoas esclarecidas do meio editorial algu\u00e9m dizer que as mulheres que escrevem hoje n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o boas quanto os homens.<\/p>\n<p>N\u00e3o dizem por que n\u00e3o seria verdade. N\u00e3o dizem por que, por ser pouco divulgada, a literatura escrita por mulheres brasileiras \u00e9 muito menos conhecida do que a literatura escrita por homens brasileiros.<\/p>\n<p>\u00c9 menos divulgada, \u00e9 menos lida, \u00e9 menos conhecida, \u00e9 menos convidada, \u00e9 menos premiada.<\/p>\n<p>Claro que temos nossas autoras prestigiadas, conhecidas e reconhecidas por todos, como Clarice, Lygia, N\u00e9lida, Ana Maria Machado, Cora Coralina (e n\u00e3o vou citar mais porque n\u00e3o \u00e9 o caso). Temos nossas escritoras contempor\u00e2neas que tamb\u00e9m est\u00e3o nos pr\u00eamios, convites, festivais. O que choca \u00e9 a despropor\u00e7\u00e3o. Inclusive porque se a opress\u00e3o da sociedade fez com que as mulheres (salvo as exce\u00e7\u00f5es) s\u00f3 come\u00e7assem a escrever e participar do jogo liter\u00e1rio muito depois dos homens (o que talvez at\u00e9 possa explicar um pouco a grande despropor\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a no c\u00e2none liter\u00e1rio), no momento contempor\u00e2neo h\u00e1 um grande n\u00famero de mulheres escrevendo. Mas \u00e9 tanto o desconhecimento sobre elas que fica dif\u00edcil saber se est\u00e3o escrevendo com qualidade ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>E a\u00ed \u00e9 que entra a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o lemos mais essas mulheres?<\/p>\n<p>Porque achamos que n\u00e3o vale a pena. Achamos que vai ser perda de tempo. Achamos que elas nada t\u00eam a nos dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o lemos por preconceito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coluna de hoje vai escrita pela Maria Jos\u00e9 Silveira, com quem vivo a quase cinquenta anos. 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