{"id":2728,"date":"2015-07-08T13:19:28","date_gmt":"2015-07-08T16:19:28","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2728"},"modified":"2015-07-08T13:19:28","modified_gmt":"2015-07-08T16:19:28","slug":"vivendo-e-aprendendo-licoes-na-flip","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2728","title":{"rendered":"VIVENDO E APRENDENDO \u2013LI\u00c7\u00d5ES NA FLIP"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2353\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a.jpg\" alt=\"publishnews cabe\u00e7a\" width=\"995\" height=\"105\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a.jpg 995w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/publishnews-cabe\u00e7a-300x31.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 995px) 100vw, 995px\" \/><\/p>\n<p>Participei de duas mesas na recente Flip (quer dizer, nada na Tenda dos Autores, \u00e9 claro). A primeira foi a apresenta\u00e7\u00e3o dos programas do Ita\u00fa Cultural, onde sou consultor do <i>Conex\u00f5es \u2013 Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira<\/i> \u00a0que \u00a0mapeia a presen\u00e7a internacional da literatura brasileira, com um banco de dados de professores, pesquisadores e tradutores da nossa literatura que trabalham no exterior.<\/p>\n<p>A segunda mesa foi sobre a sustentabilidade de programas de leitura, promovido pelo Instituto C&amp;A.<\/p>\n<p>Nessa mesa, composta por Christine Fonteles, do Instituto Ecofuturo, Pilar Lacerda, da Funda\u00e7\u00e3o SM, Patr\u00edcia Lacerda, do Instituto C&amp;A e por mim, mediados por Cl\u00e1udia Santa Rosa, do Instituto de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o de Natal, se mencionou algo sobre estarmos falando para conversos, j\u00e1 que todos os presentes evidentemente eram interessados no assunto.<\/p>\n<p>Quando chegou minha vez, fiz uma brincadeira, dizendo que, apesar de falarmos para conversos, essa nossa igreja admitia muitas discuss\u00f5es internas, e que sempre est\u00e1vamos aprendendo algo. Mencionei que, na mesa anterior, um assunto havia despertado minha aten\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que as v\u00e1rias pesquisas sobre h\u00e1bitos de leitura estavam dando conta da diversidade de leituras e manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, ou captavam apenas as \u201cleituras can\u00f4nicas\u201d, as que eram feitas nos livros convencionais?<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio provocou uma risada do Volnei Can\u00f4nica, diretor do Instituto C&amp;A, e que foi nomeado como novo diretor da DLLLB, do MinC.<\/p>\n<p>Na verdade, eu me referia ao que havia chamado minha aten\u00e7\u00e3o na mesa do Ita\u00fa Cultural, na qual havia participado na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Explico.<\/p>\n<p>A mesa tinha a presen\u00e7a, al\u00e9m de mim, do Marcelino Freire, em fun\u00e7\u00e3o do programa \u201c<i>Quebras\u201d<\/i> que ele desenvolve, com Jorge Filholini, como selecionado no Programa Rumos, do IC, e da Tania R\u00f6sing, das Jornadas de Passo Fundo. Minha presen\u00e7a na mesa se devia particularmente a uma pesquisa sobre feiras, festivais e outros eventos em torno da literatura que v\u00eam aumentando exponencialmente nos \u00faltimos anos. Quando preparava minha interven\u00e7\u00e3o, dei-me conta que um fen\u00f4meno mais recente crescia diante de nossos olhos sem ser muito bem entendido: os saraus liter\u00e1rios.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Uma pesquisa na Internet revelou que, em todas as cidades percorridas pelo Marcelino no Quebras, se registrava a exist\u00eancia de saraus liter\u00e1rios, alguns mencionados por ele no blog e nos posts do programa.<\/p>\n<p>S\u00f3 em S\u00e3o Paulo sabemos da exist\u00eancia de mais de cem saraus liter\u00e1rios. TODOS nas periferias da metr\u00f3pole. Na \u00faltima Virada Cultural, a Prefeitura de S\u00e3o Paulo registrou noventa e seis solicita\u00e7\u00f5es de Saraus Liter\u00e1rios para participar dos eventos.<\/p>\n<p>Um dos editais do MinC para apoiar programas de circula\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o liter\u00e1ria registrou uma substancial presen\u00e7a de solicita\u00e7\u00f5es de Saraus, em v\u00e1rios estados, chegando a 38% das solicita\u00e7\u00f5es, 34 saraus em um total de 86 projetos. Conversando com Suzete Nunes, ent\u00e3o ainda diretora interina da DLLLB, ela me disse que, na pr\u00f3xima leva de editais, haveria um especialmente destinado a abrir espa\u00e7o para essas manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>Na mesa do Ita\u00fa Cultural, n\u00e3o apenas o Marcelino confirmou a presen\u00e7a dos saraus, em suas mais variadas formas, nas cidades em que visitou. A Tania R\u00f6sing lembrou que jogos de computador, esses de RPG, implicam na constru\u00e7\u00e3o de narrativas.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os saraus significam novas formas de \u201cprodu\u00e7\u00e3o e consumo\u201d de literatura. Os participantes simplesmente dispensam os intermedi\u00e1rios \u2013 autores consagrados, livros publicados por editoras estabelecidas \u2013 e, eles mesmos, escrevem poemas, contos e pe\u00e7as que poder\u00edamos chamar de h\u00edbridas, que s\u00e3o lidas, aplaudidas ou n\u00e3o, comentadas, criticadas pelos demais participantes do sarau.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 alguns anos havia notado como o pessoal ligado ao hip hop, em estados do Norte e do Nordeste, estavam ligados tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e na difus\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Na mesa do Instituto C&amp;A tamb\u00e9m se chamou aten\u00e7\u00e3o para o cuidado que se deve ter com o fasc\u00ednio dos n\u00fameros. As informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas nem sempre dizem tudo que \u00e9 importante ser dito.<\/p>\n<p>Concordo. Mas \u00e9 bom lembrar que estou vinculado na produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas sobre o mercado editorial brasileiro desde muitos anos. Ainda no come\u00e7o dos anos 1990, com Alfredo Weiszflog, na CBL, participei da formata\u00e7\u00e3o e da coordena\u00e7\u00e3o da pesquisa de produ\u00e7\u00e3o e vendas da ind\u00fastria editorial brasileira, hoje nas m\u00e3os da FIPE (e n\u00e3o repetirei aqui cr\u00edticas que tenho feito \u00e0s \u00faltimas edi\u00e7\u00f5es da pesquisa). Mais tarde, em 2000, tamb\u00e9m participei, ainda na CBL, da formata\u00e7\u00e3o e na coordena\u00e7\u00e3o da primeira pesquisa \u201cRetratos da Leitura no Brasil\u201d, executada pela empresa dirigida pela Adelia Franceschini, de pesquisas de opini\u00e3o. Tamb\u00e9m escrevi artigos anal\u00edticos nas publica\u00e7\u00f5es das duas vers\u00f5es posteriores dos \u201cRetratos da Leitura no Brasil\u201d, j\u00e1 ent\u00e3o coordenados pelo Instituto Pr\u00f3-Livro e executadas pelo Ibope. Mais recentemente, comentei e analisei dados obtidos pelas duas empresas que registram as vendas online nos grandes varejistas e empresas de e-commerce (Amazon exclu\u00edda, \u00e9 claro), a GfK e a Nielsen BookScan.<\/p>\n<p>Enfim, acredito e acho fundamentais as pesquisas que busquem mostrar as diferentes facetas da ind\u00fastria editorial no Brasil, e os v\u00e1rios tipos de frui\u00e7\u00e3o e consumo de livros em nosso pa\u00eds. Tenho certeza de que mais e melhores informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o imprescind\u00edveis para que os leitores possam ter acesso a cada vez maior quantidade de t\u00edtulos colocados \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Minha insist\u00eancia em que os editores melhorem a qualidade dos metadados est\u00e1 diretamente vinculada a essa preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a reflex\u00e3o sobre o Quebras e as observa\u00e7\u00f5es feitas nessas duas mesas me levam a considerar que o conjunto dessas pesquisas est\u00e1 deixando passar muita coisa. Por isso mesmo, n\u00e3o permite uma compreens\u00e3o mais acurada do que efetivamente anda acontecendo no reino da produ\u00e7\u00e3o e do desfrute da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Todas as pessoas envolvidas em pesquisa t\u00eam compreens\u00e3o de que o valor de cada uma delas depende do entendimento do seu alcance, dos seus objetivos, de suas metodologias. Enfim, dos objetivos de cada pesquisa e dos m\u00e9todos de recolhimento e an\u00e1lise dos dados.<\/p>\n<p>Ora, as pesquisas sobre produ\u00e7\u00e3o da CBL\/SNEL se baseiam em informa\u00e7\u00f5es fornecidas por seus associados, compiladas com base no porte de cada editora. Evidentemente isso deixa de fora a crescente produ\u00e7\u00e3o de autopublica\u00e7\u00f5es e de editoras que n\u00e3o se interessam pela afilia\u00e7\u00e3o em algumas das entidades de editores. Essa produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi irrelevante. Cada vez mais deixa de s\u00ea-lo, com um n\u00famero crescente de autores que opta por publicar seus livros por conta pr\u00f3pria, e cada vez mais na Internet. De alguma maneira, portanto, temos que pensar em como captar essa produ\u00e7\u00e3o (sabendo que, para as entidades, o que \u00e9 produzido por seus s\u00f3cios \u00e9 mais importante). Isso sem falar nessa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que nem chega a ser impressa, e que aparece nos saraus, e muito menos a que se torna dispon\u00edvel na mir\u00edade de blogs, miniblogs e outras formas \u201cintern\u00e9ticas\u201d de express\u00e3o.<\/p>\n<p>O caso das \u201cRetratos de Leitura no Brasil\u201d mostra outros problemas. S\u00e3o feitas por institutos especializados em pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica, e a formula\u00e7\u00e3o dos question\u00e1rios reflete, evidentemente, a pr\u00e1tica e os bias dessas empresas. Nada contra, evidentemente. S\u00f3 que esses question\u00e1rios, para mim, se mostram cada vez mais insuficientes para captar as leituras \u201cn\u00e3o can\u00f4nicas\u201d, digamos assim.<\/p>\n<p>Em todas elas, uma das primeiras perguntas indaga se o respondente considera o livro e a leitura como importantes. O n\u00famero alto de respostas positivas, em todas elas, contrasta muito com as respostas sobre as leituras efetivamente praticadas pelos respondentes. A percep\u00e7\u00e3o social da import\u00e2ncia do livro e da leitura parece n\u00e3o se refletir na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 isso mesmo o que acontece?<\/p>\n<p>J\u00e1 nos acostumamos tamb\u00e9m a destacar o fato de que as pesquisas sobre alfabetiza\u00e7\u00e3o funcional mostram que apenas 25% dos brasileiros t\u00eam o dom\u00ednio integral da leitura e compreens\u00e3o de textos. Mas \u00e9 preciso ir al\u00e9m disso para a compreens\u00e3o do fen\u00f4meno liter\u00e1rio, de sua produ\u00e7\u00e3o e consumo. \u00c0s vezes eu mesmo esque\u00e7o que sou antrop\u00f3logo e que estou (ou deveria estar) profissionalmente preparado para compreender que as manifesta\u00e7\u00f5es culturais (inclusive as de cunho liter\u00e1rio) v\u00e3o al\u00e9m do mundo da escrita e da alfabetiza\u00e7\u00e3o formal. Os \u00e1grafos, ou semi-\u00e1grafos tamb\u00e9m produzem cultura, e literatura.<\/p>\n<p>Evidentemente isso n\u00e3o quer minimizar o tamanho da trag\u00e9dia da exclus\u00e3o evidente, em pleno S\u00e9culo XXI, dessa enorme massa de cidad\u00e3os que n\u00e3o possuem o dom\u00ednio integral da cultura escrita. Ao contr\u00e1rio. E diria, talvez como M\u00e1rio de Andrade, que a compreens\u00e3o e o estudo dessas formas \u00e1grafas, ou precariamente escritas, deve servir de motivo para, em primeiro lugar termos uma vis\u00e3o melhor da riqueza da nossa cultura e de suas manifesta\u00e7\u00f5es. E, em segundo lugar, temos que batalhar para que esses nossos compatriotas possam compartilhar melhor dessa riqueza conosco, com pleno dom\u00ednio da leitura e da escrita, como uma exig\u00eancia da sociedade do S\u00e9culo XXI. N\u00e3o podemos ficar mais dependentes de expedi\u00e7\u00f5es etno-antropol\u00f3gicas para incorporar isso tudo em nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas precisamos aprender a capturar, para valorizar e incluir com mais efic\u00e1cia, toda essa diversidade em nosso universo.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um desafio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Participei de duas mesas na recente Flip (quer dizer, nada na Tenda dos Autores, \u00e9 claro). 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