{"id":246,"date":"2011-08-16T13:45:36","date_gmt":"2011-08-16T16:45:36","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?p=246"},"modified":"2011-08-16T13:45:36","modified_gmt":"2011-08-16T16:45:36","slug":"o-enem-e-o-ensino-de-literatura-%e2%80%93-autores-e-editores-tem-a-ver-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=246","title":{"rendered":"O ENEM E O ENSINO DE LITERATURA \u2013 AUTORES E EDITORES T\u00caM A VER COM ISSO?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?attachment_id=247\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2Fblog%2F%3Fattachment_id%3D247','PN')\" rel=\"attachment wp-att-247\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/PN.jpg\" alt=\"\" title=\"PN\" width=\"866\" height=\"401\" class=\"aligncenter size-full wp-image-247\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/PN.jpg 866w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/PN-300x138.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 866px) 100vw, 866px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 algo de muito errado no ENEM (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio)\u201d, diz Lu\u00eds Augusto Fischer em artigo publicado no Prosa e Verso do jornal O Globo do s\u00e1bado, dia 13 de agosto. O errado que o escritor e professor assinala diz respeito especificamente \u00e0s perguntas sobre literatura feitas no exame e como essas terminam por induzir determinadas pr\u00e1ticas em sala de aula, e o resultado disso.<br \/>\nFischer pergunta sobre a natureza e a qualidade das perguntas sobre literatura no ENEM que, na pr\u00e1tica, hoje \u00e9 o grande portal de acesso ao ensino superior nas universidades federais e nas que aderem ao PROUNI, o sistema de bolsas que facilita o ingresso de estudantes nas faculdades particulares.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nDiz Fischer que \u201co Enem tende a tratar o texto liter\u00e1rio como um texto qualquer. For\u00e7ando um pouco, d\u00e1 para dizer que o Enem tende a tratar um poema de Drummond ou um conto de Machado de Assis no mesmo n\u00edvel de uma reportagem de jornal, uma tira em quadrinhos ou um an\u00fancio publicit\u00e1rio\u201d.<br \/>\nFischer n\u00e3o pretende assumir a postura de \u201cleitur\u00f3logos\u201d que acham que a forma\u00e7\u00e3o dos ditos \u201cleitores cr\u00edticos\u201d \u00e9 o paradigma essencial do ensino de literatura, o que transformaria todos os leitores em cidad\u00e3os \u201cconscientes\u201d e atuantes. E muito menos defende o ensino tradicionalista da literatura, com a apologia do c\u00e2none dominante. Ele apenas levanta a quest\u00e3o de que o ensino da literatura nos cursos m\u00e9dios deve atender \u00e0 especificidade da mat\u00e9ria. De fato, diz ele, sobre a quest\u00e3o: \u201cExaminando a filosofia da prova da \u00e1rea que abrange a literatura, \u201cLinguagens, c\u00f3digos e suas tecnologias\u201d (nome aborrecidamente tecnocr\u00e1tico para um ajuntamento de Portugu\u00eas, Literatura, Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o e, sim, Linguagem Corporal!) se percebe que quem comanda \u00e9 o variacionismo, que pouca aten\u00e7\u00e3o d\u00e1 \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria culta, preferindo uma abordagem que avalia a destreza de leitura operacional, nada mais\u201d.<br \/>\nSabemos que a efici\u00eancia do letramento, essa \u201cleitura operacional\u201d \u00e9 uma das trag\u00e9dias do ensino brasileiro. A alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 como cham\u00e1vamos antigamente \u2013 \u00e9 extremamente prec\u00e1ria e leva ao surgimento dos \u201canalfabetos funcionais\u201d, que saem do ensino fundamental incapazes de compreender um texto escrito at\u00e9 bem simples. Por outro lado, essa capacidade de leitura \u00e9 requisito essencial para que se avance em qualquer outra \u00e1rea do conhecimento. Isso certamente conduz \u00e0 postura de centrar a avalia\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o do texto \u2013 qualquer texto \u2013 e admitir, na escrita, \u201cerros\u201d que v\u00e3o contra a norma culta mas que s\u00e3o express\u00e3o de formas populares (vide a recente pol\u00eamica sobre o livro para a EJA que foi injustamente acusado de ensinar errado).<br \/>\nMas essas quest\u00f5es dizem respeito especificamente ao ensino do portugu\u00eas como idioma e forma de express\u00e3o \u201cfuncional\u201d. O absurdo, me parece, consiste em \u201campliar\u201d as quest\u00f5es do ensino do portugu\u00eas para o ensino de literatura.<br \/>\nMas antes de avan\u00e7ar, permitam-me recordar outra fa\u00e7anha tecnocr\u00e1tica do MEC.<br \/>\nA cartilha \u201cCaminho Suave\u201d, da prof. Branca Alves de Lima, foi o instrumento de alfabetiza\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de brasileiros. Alguns dos que foram alfabetizados por esse livro, ocupando depois cargos de responsabilidade no MEC, aderiram de forma radical ao construtivismo pedag\u00f3gico. E, l\u00e1 pelos meados dos anos 90, alicer\u00e7ados nessa sabedoria, tiraram a \u201cCaminho Suave\u201d da lista dos livros adquiridos pelo MEC. Mais ainda, fizeram-no de forma muito agressiva, desqualificando a cartilha em termos praticamente desrespeitosos, esquecendo-se do que ela representou para todos os que foram por ela alfabetizados. A prof. Branca Alves de Lima morreu alguns anos depois disso, profundamente desgostosa e deprimida pelo tratamento que recebeu.<br \/>\nA insist\u00eancia do MEC em aprovar com louvor os livros did\u00e1ticos da corrente construtivista acabou prevalecendo. N\u00e3o sou pedagogo nem especialista na an\u00e1lise dos livros did\u00e1ticos, mas, pelo que me informo, praticamente n\u00e3o existem mais, hoje, livros que n\u00e3o estejam de alguma forma enquadrados nessa corrente.<br \/>\nO construtivismo pedag\u00f3gico, com sua insist\u00eancia em fazer que o aluno aprenda a partir da \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d do aprendizado de seu entorno, tem evidentemente muitos m\u00e9ritos, inclusive e particularmente o de fazer que a realidade social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica dos estudantes assuma um papel crucial no processo. Palmas e elogios para esse esfor\u00e7o, e jamais me ocorreria defender o m\u00e9todo do \u201cIvo viu a uva\u201d. Mas \u00e9 bom lembrar que, sociologicamente, o processo educacional tem como objetivo transmitir para a gera\u00e7\u00e3o seguinte o conhecimento acumulado na hist\u00f3ria da humanidade, e n\u00e3o fazer que cada gera\u00e7\u00e3o \u201credescubra\u201d tudo novamente.<br \/>\nEssa mix\u00f3rdia para a qual Fischer chama aten\u00e7\u00e3o, de misturar portugu\u00eas, literatura, tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, linguagem corporal nessa rubrica de \u201cLinguagens, c\u00f3digos e suas tecnologias\u201d, me aparece ter raiz em uma vis\u00e3o que quero crer seja distorcida da postura construtivista, e abdicar, por esse vi\u00e9s, de uma heran\u00e7a do humanismo: a do ideal que o homem deva ter uma compreens\u00e3o ampla de cada uma das \u00e1reas do conhecimento, e que isso seja o fundamento de sua pr\u00e1tica como ser humano e racional.<br \/>\nNa sociedade moderna nem um g\u00eanio como Michelangelo ou Leonardo conseguiriam ter excel\u00eancia em tantas \u00e1reas do conhecimento humano como os dois: pintores, escultores, arquitetos, urbanistas, estrategistas militares e inventores (especialmente Leonardo). E confesso ter certa nostalgia desse momento da hist\u00f3ria da humanidade em que era poss\u00edvel para uma pessoa abarcar \u201co conhecimento dispon\u00edvel\u201d em si mesmo.<br \/>\nHoje isso n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, certamente.<br \/>\nMas ser\u00e1 correto misturar literatura com \u201clinguagem corporal\u201d e \u201ctecnologia da informa\u00e7\u00e3o\u201d?<br \/>\nN\u00e3o acredito que todas as pessoas devem se tornar \u201cleitores cr\u00edticos\u201d e muito menos que gostar de literatura seja uma condi\u00e7\u00e3o sine qua non para o exerc\u00edcio da cidadania. Mas me \u00e9 dif\u00edcil aceitar que a escola abdique de ser o local onde se ensina que a dimens\u00e3o cultural, para al\u00e9m do ensino utilit\u00e1rio, \u00e9 importante. E ensinar implica em conduzir os alunos para a descoberta dessas dimens\u00f5es culturais, sem imposi\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, mas com a clara vis\u00e3o de que, sem esses componentes, o ensino \u201cpr\u00e1tico\u201d perde muito de sua efic\u00e1cia. Inclusive porque diminui a autonomia cr\u00edtica do estudante diante dos postulados vigentes nas diferentes \u00e1reas das ci\u00eancias. O esp\u00edrito cr\u00edtico n\u00e3o \u00e9 \u201cfuncional\u201d para a simples execu\u00e7\u00e3o de tarefas dentro do corpus cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico vigente, mas sem esse esp\u00edrito cr\u00edtico n\u00e3o se avan\u00e7a no conhecimento, em \u00e1rea nenhuma.<br \/>\nCertamente n\u00e3o seria apenas o ensino mais din\u00e2mico e rico da literatura o caminho a possibilitar isso. Filosofia, sociologia \u2013 tudo aquilo que, n\u00e3o gratuitamente, se coloca no terreno de \u201chumanidades\u201d \u2013 s\u00e3o componentes da cria\u00e7\u00e3o dessa vis\u00e3o cr\u00edtica do mundo.  E a literatura, certamente, oferece caminhos riqu\u00edssimos para que \u201ctransversalmente\u201d (como est\u00e1 na moda dizer) os alunos apreendam a complexidade e a diversidade do mundo.<br \/>\nLu\u00eds Augusto Fischer termina seu artigo chamando aten\u00e7\u00e3o para a for\u00e7a institucional no Enem. De fato, as diretrizes emanadas no MEC terminam por condicionar a atitude dos professores, a elabora\u00e7\u00e3o dos livros escolares e a pr\u00f3pria postura das escolas diante do desafio que os alunos enfrentam, de ingressar no ensino superior. Por isso mesmo, os componentes das provas do Enem devem necessariamente ser objeto de um escrut\u00ednio atento por parte da sociedade: se o objetivo da avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 tecnocr\u00e1tico, despido do humanismo e do conte\u00fado propriamente cultural, estaremos formando gera\u00e7\u00f5es de alunos aos quais faltar\u00e1 o componente cr\u00edtico humanista essencial para o desenvolvimento da sociedade.<br \/>\nAutores e editores acabam condicionados por essas diretrizes oficiais, consciente ou inconscientemente. E o resultado ir\u00e1 transparecer no material elaborado para que os alunos tenham um bom desempenho no Enem. Os autores, e as editoras, na elabora\u00e7\u00e3o do material did\u00e1tico, acabam seguindo e consolidando essas tend\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cH\u00e1 algo de muito errado no ENEM (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio)\u201d, diz Lu\u00eds Augusto Fischer em artigo publicado no Prosa e Verso do jornal O Globo do s\u00e1bado, dia 13 de agosto. 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