{"id":2436,"date":"2014-11-04T11:13:12","date_gmt":"2014-11-04T14:13:12","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2436"},"modified":"2014-11-04T11:13:12","modified_gmt":"2014-11-04T14:13:12","slug":"cultura-as-pautas-que-continuam-abertas-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2436","title":{"rendered":"CULTURA: AS PAUTAS QUE CONTINUAM ABERTAS \u2013 II"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2324\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Capturar1.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"999\" height=\"148\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Capturar1.jpg 999w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Capturar1-300x44.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 999px) 100vw, 999px\" \/><\/p>\n<p>Dando continuidade a essa mescla de avalia\u00e7\u00e3o e levantamento das quest\u00f5es da cultura que estiveram em pauta nos \u00faltimos quatro anos, quero complementar alguns aspectos n\u00e3o tratados no post da semana passada.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida um dos pontos altos dos \u00faltimos anos foi a aprova\u00e7\u00e3o e o in\u00edcio de implementa\u00e7\u00e3o do Vale Cultura. A Ministra Martha Suplicy conseguiu agilizar a aprova\u00e7\u00e3o da lei e da sua regulamenta\u00e7\u00e3o, e arregimentou os operadores de cart\u00f5es, principalmente dos vales-alimenta\u00e7\u00e3o, para que o programa come\u00e7asse a operar.<\/p>\n<p>Ainda que o benef\u00edcio fiscal \u2013 tal como os da Lei Rouanet \u2013 s\u00f3 beneficie as grandes empresas, a estrat\u00e9gia da ministra, de buscar sindicatos para que incluam o benef\u00edcio nas pautas de diss\u00eddio coletivo deve aumentar consideravelmente volume de recursos dispon\u00edveis para aquisi\u00e7\u00e3o de produtos culturais.<\/p>\n<p>Cabe a editoras e livrarias se mobilizarem para aproveitar cada vez mais esse dinheiro. Nos primeiros meses de implanta\u00e7\u00e3o do Vale Cultura, com aproximadamente doze milh\u00f5es de reais dispon\u00edveis, o consumo de livros e outros produtos editoriais foi bem significativo. Mas, na medida em que o volume aumente, outros segmentos devem disputar de modo mais agressivo a presen\u00e7a dos benefici\u00e1rios do Vale Cultura. E \u00e9 importante desenvolver estrat\u00e9gias de marketing para atrair e fidelizar essas novas capas de consumidores de produtos culturais.<\/p>\n<p>Um ponto positivo foi o programa Mais Cultura, em particular seu conceito de que este representa o reconhecimento da cultura como necessidade b\u00e1sica, direito de todos os brasileiros, tanto quanto a alimenta\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a moradia, a educa\u00e7\u00e3o e o voto. A amplia\u00e7\u00e3o dos editais para fomento de a\u00e7\u00f5es setoriais \u00e9 realmente um avan\u00e7o no uso dos recursos or\u00e7ament\u00e1rios, diminuindo o grau de discricionariedade (que ainda persiste) no uso dos recursos do Fundo Nacional de Cultural.<\/p>\n<p>O Mais Cultura se consolida com a aprova\u00e7\u00e3o da Lei 13.018, de junho deste ano, que reformula v\u00e1rios aspectos do programa e estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o da Ministra Marta Suplicy e sua equipe t\u00e9cnica, o principal problema na execu\u00e7\u00e3o anterior foi solucionado \u2013 para o futuro: a substitui\u00e7\u00e3o de conv\u00eanios por editais de premia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira formula\u00e7\u00e3o do projeto dos Pontos de Cultura teve dois aspectos. O primeiro, o da ideia em si, era espetacular: repasse de recursos (por volta de R$ 10.000,00) para as mais diversas iniciativas culturais, principalmente em \u00e1reas de periferia. Mas o caminho das boas inten\u00e7\u00f5es estava bichado.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A forma encontrada no primeiro momento foi a da assinatura de conv\u00eanios para o repasse dos recursos.<\/p>\n<p>O resultado foi tr\u00e1gico, com centenas de presta\u00e7\u00f5es de contas bloqueadas por causa de documenta\u00e7\u00e3o insuficiente ou falha. O caso foi t\u00e3o s\u00e9rio que levou a meses de descontinuidade dessas a\u00e7\u00f5es, e ainda existe uma quantidade n\u00e3o divulgada de casos pendentes.<\/p>\n<p>Os mecanismos legais de presta\u00e7\u00e3o de contas de conv\u00eanios s\u00e3o perversos. O conv\u00eanio e sua presta\u00e7\u00e3o de contas s\u00e3o desenhados para a gest\u00e3o de recursos muito maiores, e \u00e9 totalmente inadequado para as pequenas iniciativas dos Pontos de Cultura. Mas \u00e9 a lei, e os gestores do MinC, na ocasi\u00e3o, simplesmente se meteram em uma enrascada. Em audi\u00eancia na C\u00e2mara dos Deputados, a Ministra Marta Suplicy admitiu que h\u00e1 problemas com a presta\u00e7\u00e3o de contas. Para ela, \u201cn\u00e3o se pode cobrar presta\u00e7\u00e3o de contas para quem faz arte igual \u00e0 de quem faz ponte\u201d. E como o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o faz diferencia\u00e7\u00e3o, o minist\u00e9rio fica impedido de repassar recursos \u00e0queles que n\u00e3o conseguem cumprir as exig\u00eancias legais.<\/p>\n<p>A nossa heran\u00e7a da burocracia lusa \u00e9 pesada. As leis s\u00e3o feitas pensando em controlar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, supostamente sem deixar margens para o arb\u00edtrio. E essa heran\u00e7a burocr\u00e1tica \u00e9 amplificada pelo esp\u00edrito do moralismo udenista, e os resultados n\u00e3o s\u00e3o bons: os malandros aprendem rapidamente a achar caminhos, e as dificuldades se acumulam para desenvolver bons projetos.<\/p>\n<p>Basta lembrar que a Lei das Licita\u00e7\u00f5es levou a que uma empreiteira desqualificada tecnicamente fosse contratada para a reforma dos pr\u00e9dios da UFRJ na Urca, e o tr\u00e1gico resultado foi o inc\u00eandio da Capela Imperial. O caso dos Pontos de Cultura mostra outra faceta do problema: a incapacidade de encontrar solu\u00e7\u00f5es simples. S\u00f3 depois que o problema das presta\u00e7\u00f5es de contas surgiu \u00e9 que foi lembrada a possibilidade do mecanismo da premia\u00e7\u00e3o. A in\u00e9pcia administrativa da formula\u00e7\u00e3o inicial prejudicou a continuidade de muitos dos Pontos de Cultura.<\/p>\n<p>Finalmente, vale comentar o Plano Nacional do Livro e Leitura.<\/p>\n<p>Participei desde o in\u00edcio dessa iniciativa, que come\u00e7ou em 2005, com o VivaLeitura. Foi a resposta brasileira ao chamamento dos chefes de Estado reunidos em um Encontro dos Pa\u00edses Iberoamericanos, que estabeleceu aquele ano como um marco para iniciativas em torno da leitura e do acesso ao livro. Foram centenas de iniciativas em todo o Brasil, reunidas sob esse marco do Vivaleitura, e que culminou com a elabora\u00e7\u00e3o do Plano Nacional do Livro e Leitura, seus eixos de a\u00e7\u00e3o como norteadores das a\u00e7\u00f5es do governo, da sociedade, da cadeia criativa e da cadeia econ\u00f4mica do livro.<\/p>\n<p>Um dos componentes do PNLL \u00e9 a necess\u00e1ria articula\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os governamentais que, de alguma maneira, lidam com a quest\u00e3o. Evidentemente, o MinC e o MEC s\u00e3o os dois mais importantes. Mas em algum momento cheguei a listar mais de dez \u00f3rg\u00e3os governamentais que tamb\u00e9m lidam com a quest\u00e3o do livro, da produ\u00e7\u00e3o, e da difus\u00e3o do conhecimento. O Itamaraty, no \u00e2mbito internacional, e mais: Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia, Minist\u00e9rio da Agricultura, com a EMBRAPA, Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, com as a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito de assentamentos e projetos de reforma agr\u00e1ria, Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, por sua posi\u00e7\u00e3o na cadeia produtiva, que vai do papel e celulose at\u00e9 as livrarias, passando pela ind\u00fastria gr\u00e1fica, e outros.<\/p>\n<p>Do lado da sociedade, al\u00e9m dos escritores, ilustradores e mediadores de leitura, temos tamb\u00e9m as editoras \u2013 representadas por v\u00e1rias entidades \u2013 livrarias e bibliotecas.<\/p>\n<p>O PNLL apresentava uma vis\u00e3o abrangente do problema, apontando para a necessidade do esfor\u00e7o conjunto.<\/p>\n<p>No entanto, desde sua formula\u00e7\u00e3o, para mim era evidente a falta de meios institucionais e operacionais para que essa articula\u00e7\u00e3o seja realidade. O PNLL foi inicialmente formalizado com uma portaria conjunta do MinC e do MEC, e mais tarde foi editado um decreto presidencial. O PNLL disp\u00f5e de uma Secretaria Executiva, ocupada pelo prof. Jos\u00e9 Castilho, cedido para a tarefa pela UNESP, onde \u00e9 professor e presidente da Funda\u00e7\u00e3o Editora UNESP. No \u00e2mbito do MinC, opera atrav\u00e9s da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do PNLL temos ainda dois eventos de car\u00e1ter institucional. O primeiro foi a promulga\u00e7\u00e3o da Lei do Livro, em 2003. At\u00e9 hoje, onze anos depois, n\u00e3o foi regulamentada, exceto no dispositivo que dizia respeito a detalhes fiscais, cujos mecanismos foram definidos por Instru\u00e7\u00e3o Normativa da Receita menos de um m\u00eas depois da promulga\u00e7\u00e3o. Onze anos se passaram sem que a regulamenta\u00e7\u00e3o tenha sido feita pelo MinC, fato que por si s\u00f3 mostra as limita\u00e7\u00f5es da capacidade operacional do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O outro foi a desonera\u00e7\u00e3o do que restava de tributos para o livro, que \u00e9 imune gra\u00e7as a dispositivo constitucional. Restavam, entretanto, o PIS\/PASEP e o COFINS, que foram eliminados \u2013 para editoras e livrarias que estejam nos regimes do lucro real e do lucro presumido \u2013 em julho de 2004. Essa medida aliviou o balan\u00e7o das editoras em uma m\u00e9dia de 5% sobre o valor total do faturamento. Na ocasi\u00e3o foi assumido o compromisso, por parte das entidades do livro, de aceitarem a institui\u00e7\u00e3o de um Fundo, que teria administra\u00e7\u00e3o conjunta do governo e do setor produtivo, no valor de 1% do faturamento, para o financiamento de programas de bibliotecas. A procrastina\u00e7\u00e3o dos editores e livreiros e a incapacidade do MinC de formalizar essa proposta fez com que, at\u00e9 hoje, isso tamb\u00e9m n\u00e3o tenha sa\u00eddo do papel.<\/p>\n<p>Recentemente foi anunciado que, ainda este ano, ser\u00e1 enviado ao Congresso Nacional um projeto de lei transformando o PNLL em lei. Ou seja, na palavra do prof. Castilho, em \u201cpol\u00edtica de Estado\u201d. Aparentemente \u2013 pois o conte\u00fado ainda n\u00e3o foi divulgado \u2013 o projeto prev\u00ea t\u00e3o somente a formaliza\u00e7\u00e3o do atual plano, sem que estejam inclu\u00eddos instrumentos de a\u00e7\u00e3o, inclusive os mecanismos de contrapartidas de estados e munic\u00edpios, como j\u00e1 se esbo\u00e7ou na Lei \u00a0Cultura Viva. Ou seja, parece que se trata, mais uma vez, de declara\u00e7\u00e3o de boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O estabelecimento de instrumentos de a\u00e7\u00e3o deve ficar para outro momento, com a futura cria\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o que, retomando a ideia do Instituto Nacional do Livro, seja capaz de ser o instrumento da a\u00e7\u00e3o do Estado na \u00e1rea n\u00e3o apenas do livro, como da leitura, da media\u00e7\u00e3o, do incentivo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e est\u00edmulo e moderniza\u00e7\u00e3o das bibliotecas.<\/p>\n<p>Resta-nos a esperan\u00e7a de que isso aconte\u00e7a, e a miss\u00e3o de continuar batalhando por isso.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Coment\u00e1rios, cr\u00edticas e sugest\u00f5es s\u00e3o bem vindos no blog www.oxisdoproblema.com.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando continuidade a essa mescla de avalia\u00e7\u00e3o e levantamento das quest\u00f5es da cultura que estiveram em pauta nos \u00faltimos quatro anos, quero complementar alguns aspectos n\u00e3o tratados no post da semana passada. 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