{"id":2428,"date":"2014-10-14T12:23:04","date_gmt":"2014-10-14T15:23:04","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2428"},"modified":"2014-10-14T12:23:04","modified_gmt":"2014-10-14T15:23:04","slug":"paulo-coelho-modiano-e-pirataria-ecos-de-frankfurt","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2428","title":{"rendered":"PAULO COELHO, MODIANO E PIRATARIA \u2013 ECOS DE FRANKFURT"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2429\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capturar.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"870\" height=\"621\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capturar.jpg 870w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capturar-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 870px) 100vw, 870px\" \/><br \/>\nTr\u00eas assuntos chamaram minha aten\u00e7\u00e3o no notici\u00e1rio da semana passada sobre a Feira de Frankfurt. Por \u201cordem de chegada\u201d: Paulo Coelho e sua conversa com Jurgen Boos, o Nobel de Patrick Modiano, e os coment\u00e1rios de editores brasileiros sobre a pirataria digital.<br \/>\nMatutando, acho que estabeleci algumas liga\u00e7\u00f5es significativas entre os tr\u00eas eventos. Reflex\u00f5es que compartilho com voc\u00eas.<br \/>\nNa sua conversa com Boos, que \u00e9 o diretor da Feira, e que chamou Mr. Rabbit para, de certa forma, compensar seu pol\u00eamico forfait ano passado, o Mago espica\u00e7ou a fundo o mercado editorial.<\/p>\n<p>Segundo a mat\u00e9ria assinada por Ubiratan Brasil no Caderno 2 do Estad\u00e3o do dia 9, Paulo Coelho declarou que \u201cS\u00e3o duas as grandes raz\u00f5es que fazem algu\u00e9m ler: a busca de entretenimento e a de conhecimento. Mas, no mundo tecnol\u00f3gico em que vivemos, esse leitor n\u00e3o necessita mais da cadeia intermedi\u00e1ria entre ele e o conte\u00fado. Assim, editores, distribuidores e livreiros tornam-se, muitas vezes, dispens\u00e1veis para esse leitor, pois encarecem o produto.\u201d<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia pessoal de Paulo Coelho em rela\u00e7\u00e3o ao assunto \u00e9 simples: vende as vers\u00f5es digitais de seus livros a US $ 9,90 (na maioria dos casos), e n\u00e3o se importa com a pirataria. Na entrevista mencionou que viu uma edi\u00e7\u00e3o em \u00e1rabe que \u201ccertamente ser\u00e1 pirateado em papel em todo mundo \u00e1rabe\u201d. A raz\u00e3o: a edi\u00e7\u00e3o libanesa \u00e9 muito cara para os compradores da regi\u00e3o. Em outra ocasi\u00e3o, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, ele mencionou que n\u00e3o se importava com tradu\u00e7\u00f5es piratas de seus livros (acho que mencionava uma tradu\u00e7\u00e3o para o farsi).<\/p>\n<p>Resumindo, o que Paulo Coelho coloca \u00e9: livros baratos; acessibilidade m\u00e1xima.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_2430\" aria-describedby=\"caption-attachment-2430\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2430\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/modianao-300x76.jpg\" alt=\"Modiano. S\u00f3 para quem mora na Fran\u00e7a.\" width=\"300\" height=\"76\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/modianao-300x76.jpg 300w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/modianao-1024x262.jpg 1024w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/modianao.jpg 1656w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2430\" class=\"wp-caption-text\">Modiano. S\u00f3 para quem mora na Fran\u00e7a.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na quinta-feira foi anunciado o vencedor do Pr\u00eamio Nobel, Patrick Modiano. Editado em franc\u00eas pela Gallimard. No Brasil, apenas uma edi\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, <em>Filomena Firmeza<\/em>, pela Cosac Naify, custa R$ 29,00 e n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel em vers\u00e3o digital. Outros seis t\u00edtulos do autor foram traduzidos e publicados, mas est\u00e3o esgotados e s\u00f3 se encontram em sites de usados (de onde desapareceram rapidamente) e j\u00e1 come\u00e7am a aparecer em sites de downloads, principalmente em pdf.<\/p>\n<p>Sou de uma gera\u00e7\u00e3o para a qual o franc\u00eas ainda era uma l\u00edngua relevante, de modo que leio correntemente nesse idioma. Fui buscar edi\u00e7\u00f5es digitais dos romances do nobelizado. Nas lojas brasileiras, nada. Na www.amazon.fr aparecem v\u00e1rios t\u00edtulos da Gallimard \u2013 inacess\u00edveis para compradores de fora da Fran\u00e7a. Na loja da Amazon nos EUA, algumas poucas tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas e v\u00e1rias para o alem\u00e3o. Na Kobo, tamb\u00e9m s\u00f3 algumas tradu\u00e7\u00f5es para o alem\u00e3o. E no Google Play, apenas livros sobre o autor. No site da Saraiva, nada digital, s\u00f3 impressos importados.<\/p>\n<p>Mas existe um monte de sites oferecendo download gr\u00e1tis, em ePub, de todos os romances do autor. Em franc\u00eas, ingl\u00eas, espanhol, alem\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estad\u00e3o publicou tamb\u00e9m, no s\u00e1bado 11, mat\u00e9ria do Ubiratan sobre as quest\u00f5es e queixas dos editores sobre a pirataria no Brasil.<br \/>\nAs queixas habituais d\u00e3o o tom principal. Roberto Feith afirma que, mesmo com os lan\u00e7amentos de livros em vers\u00f5es digitais e o aumento das livrarias que os vendem, o n\u00famero de downloads ilegais \u201ctem se mantido alto\u201d, no que \u00e9 corroborado por outros editores. A afirmativa gen\u00e9rica do n\u00famero alto de sites de download n\u00e3o \u00e9 acompanhada de informa\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Outros coment\u00e1rios da mesma mat\u00e9ria, no entanto, despertaram mais minha aten\u00e7\u00e3o. Um editor n\u00e3o identificado associa a pirataria como \u201cum selo de garantia\u201d. \u201cAfinal ningu\u00e9m vai perder tempo pirateando porcaria\u201d, diz ele. Na minha avalia\u00e7\u00e3o. O que define a quantidade de ataques piratas \u00e9 a popularidade do autor ou do t\u00edtulo, algo nem sempre associado \u00e0 qualidade liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Eduardo Spohr, autor de best-sellers de fantasia, tem outra vis\u00e3o. Ele n\u00e3o acredita que somente os jovens fazem donwloads ilegais, mas percebe nos que fazem \u201cuma adora\u00e7\u00e3o pelo livro como objeto de colecionador. [&#8230;] [quando] baixam algum arquivo ilegal, \u00e9 normalmente para ter uma ideia de como \u00e9 a trama \u2013 algo como, em uma livraria, ler a orelha e os primeiros cap\u00edtulos do volume para ter a certeza da escolha\u201d.<\/p>\n<p>Paulo Rocco, que sofreu ataques no computador da tradutora Lia Wyler quando esta trabalhava na s\u00e9rie Harry Porter, corrobora essa vis\u00e3o. \u201cOs f\u00e3s baixam, sim, arquivos ilegais, mas \u00e9 porque querem ter o sabor de serem os primeiros a descobrir a nova edi\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo Rocco, o mais comum era algum f\u00e3 afoito adquirir um exemplar do original em ingl\u00eas e, depois de passar madrugadas traduzindo de forma atabalhoada, colocar sua vers\u00e3o na Internet. E conclui: \u201cNormalmente, era rejeitada porque era mal escrita\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Jardim relata outro problema, o desvio dos originais entre a editora e a gr\u00e1fica (hoje praticamente tudo \u00e9 feito online) e subsequente aparecimento disso na Internet.<\/p>\n<p>Bom, o que passou pela minha cabe\u00e7a desse guisado?<\/p>\n<p>A primeira e mais \u00f3bvia conclus\u00e3o \u00e9 que a pirataria \u00e9 imbat\u00edvel. Existe e existir\u00e1, e a simples repress\u00e3o n\u00e3o vai resolver o problema. O mesmo aconteceu com a m\u00fasica, setor no qual a persegui\u00e7\u00e3o aos sites de troca s\u00f3 provocou revolta e desgaste. At\u00e9 que Steve Jobs, com o iTunes, convenceu a maioria que disponibilizar faixa por faixa, baratinho, na web, aumentaria os ingressos das gravadoras e dos autores.<\/p>\n<p>Funcionou. N\u00e3o acabou com a pirataria, mas abriu espa\u00e7o para as gravadoras voltarem a faturar.<\/p>\n<p>No que diz respeito aos livros, me parece, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, recordando o Paulo Coelho, quem procura entretenimento n\u00e3o necessariamente busca qualidade liter\u00e1ria. Monsieur Lapin n\u00e3o se importa nem com tradu\u00e7\u00f5es feitas por f\u00e3s (embora alguns maledicentes tenham dito que a tradu\u00e7\u00e3o para o franc\u00eas melhorou muito a qualidade do texto. N\u00e3o posso avaliar, j\u00e1 que n\u00e3o li em nenhuma das duas l\u00ednguas). Ele joga claramente na acessibilidade imediata, e a mais ampla poss\u00edvel, de todos os t\u00edtulos, e sua experi\u00eancia mostra que isso resulta em vendas posteriores.<\/p>\n<p>Diria que isso, que vale para o Paulo Coelho, vale tamb\u00e9m para essa literatura para adolescentes que tanto faz sucesso atualmente. Esses leitores querem&#8230; a trama, ainda que eventualmente sob a capa da sabedoria dilu\u00edda nas f\u00f3rmulas da autoajuda. E n\u00e3o tenho nada contra isso. Longe de mim qualificar as necessidades dos leitores. Mas esses n\u00e3o est\u00e3o preocupados com detalhes de linguagem e formula\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>No caso do Harry Porter \u2013 que efetivamente apresentou consider\u00e1veis dificuldades de tradu\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 bom notar que a autora \u00e9 uma das pioneiras na elimina\u00e7\u00e3o do DRM na venda de seus livros digitais. Portanto, em ingl\u00eas, os empr\u00e9stimos e c\u00f3pias entre amigos se tornam comuns e s\u00e3o legais. J\u00e1 as tradu\u00e7\u00f5es, mais dif\u00edceis, fracassam na pirataria enquanto o texto mais cuidado n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel. Uma vez publicado, esse \u00e9 inevitavelmente pirateado. A\u00ed, para diminuir isso, s\u00f3 uma solu\u00e7\u00e3o: vender mais barato o e-book e contar que os lucros se realizem nas vendas dos livros f\u00edsicos.<\/p>\n<p>O caso do Patrick Modiano, para mim, \u00e9 o mais representativo de uma determinada cegueira dos editores. As edi\u00e7\u00f5es digitais francesas s\u00e3o, quase invariavelmente, de venda restrita aos que moram na Fran\u00e7a. Os editores desprezam o mercado potencial no exterior. N\u00e3o sei se a limita\u00e7\u00e3o vale tamb\u00e9m para o Qu\u00e9bec e para os outros pa\u00edses da francofonia. Tendo a acreditar que sim, mas n\u00e3o posso assegurar isso.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia percebido o fen\u00f4meno quando tentei comprar o livro do Picketty no original franc\u00eas. N\u00e3o consegui, e tive que me contentar com a tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, amplamente dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Certamente as tradu\u00e7\u00f5es dos livros de um romancista como Modiano n\u00e3o podem ser feitas a trouxe-mouxe, o que demandar\u00e1 tempo para se tornarem dispon\u00edveis em portugu\u00eas (os novos livros) e certamente n\u00e3o poder\u00e3o ser vendidas t\u00e3o baratas assim, pelos custos envolvidos. As edi\u00e7\u00f5es antigas logo estar\u00e3o dispon\u00edveis nos sites piratas.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo imaginar qual a raz\u00e3o que leva editoras como a Gallimard a n\u00e3o vender as vers\u00f5es digitais em franc\u00eas para o resto do mundo. Afinal, eles exportam os livros impressos para quem queira. Como no meu caso, quantas vendas virtuais eles perderam?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de verificar se as editoras brasileiras restringem a venda dos livros eletr\u00f4nicos aos moradores no Brasil. Se o fazem, perdem o acesso virtual de um mercado de mais de quatro milh\u00f5es de brasileiros que moram no exterior, e que teriam nos livros eletr\u00f4nicos um modo muito mais eficaz de conhecer os livros editados por aqui.<\/p>\n<p>Em resumo, posso concluir:<\/p>\n<p>&#8211; o pre\u00e7o e a facilidade de acesso contam. O pre\u00e7o \u00e9 essencial para os livros paulocoelhamente definidos como \u201cde entretenimento\u201d. Mas a rapidez tamb\u00e9m conta, sob pena de estimular ainda mais a pirataria;<\/p>\n<p>&#8211; para os livros t\u00e9cnico-cient\u00edficos, e de literatura mais elaborada, o fator essencial \u00e9 o acesso. \u00c9 prov\u00e1vel que o leitor do Patrick Modiano aceite pagar por exemplar mais que o leitor da Meg Cabott, mas ficar\u00e1 irritado ao perceber que o livro n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel. E, olhem, nesses casos, \u00e9 dif\u00edcil resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas assuntos chamaram minha aten\u00e7\u00e3o no notici\u00e1rio da semana passada sobre a Feira de Frankfurt. Por \u201cordem de chegada\u201d: Paulo Coelho e sua conversa com Jurgen Boos, o Nobel de Patrick Modiano, e os coment\u00e1rios de editores brasileiros sobre a pirataria digital. Matutando, acho que estabeleci algumas liga\u00e7\u00f5es significativas entre os tr\u00eas eventos. Reflex\u00f5es que &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2428\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D2428','Continue+lendo+PAULO+COELHO%2C+MODIANO+E+PIRATARIA+%E2%80%93+ECOS+DE+FRANKFURT+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">PAULO COELHO, MODIANO E PIRATARIA \u2013 ECOS DE FRANKFURT<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[163,620,619,251,191],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2428"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2428"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2428\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}