{"id":2140,"date":"2013-12-24T12:06:11","date_gmt":"2013-12-24T15:06:11","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2140"},"modified":"2013-12-27T10:20:21","modified_gmt":"2013-12-27T13:20:21","slug":"livros-contra-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=2140","title":{"rendered":"Livros contra a ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/livros-contra023-212x300.jpg\" alt=\"livros contra023\" width=\"212\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2142\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/livros-contra023-212x300.jpg 212w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/livros-contra023-725x1024.jpg 725w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/livros-contra023.jpg 1897w\" sizes=\"(max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><br \/>\nO ano de 2013 foi especialmente  movimentado quanto \u00e0 discuss\u00e3o da repress\u00e3o pol\u00edtica no per\u00edodo da ditadura civil-militar instaurada em 1964. O golpe que derrubou Jango, em 1964, ano que vem completar\u00e1 cinquenta anos, e passou por uma nova etapa de estudos e cr\u00edtica. Foram instauradas Comiss\u00f5es da Verdade &#8211; n\u00e3o apenas a de \u00e2mbito nacional, como tamb\u00e9m em v\u00e1rios estados e mesmo em munic\u00edpios, como \u00e9 o caso de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A tortura, os assassinatos e desaparecimentos, a Opera\u00e7\u00e3o Condor, que uniu as ditaduras do Cone Sul nas atividades de repress\u00e3o, voltaram ao notici\u00e1rio, \u00e0s an\u00e1lises e \u00e0 descoberta de novos documentos e articula\u00e7\u00f5es. Mesmo quando a a\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a tarde (e falhe), vimos jovens &#8220;esculachando&#8221; torturadores e outros agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m a publica\u00e7\u00e3o de estudos e an\u00e1lises de aspectos espec\u00edficos da resist\u00eancia \u00e0 ditadura. No final do ano foi lan\u00e7ado o &#8220;Livros Contra a Ditadura. Editoras e Oposi\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; 1974-1984&#8221;, escritor por Flamarion Mau\u00e9s e publicado pela Publisher.<\/p>\n<p>Pelo tema, merece esta coluna de final de ano. Flamarion Mau\u00e9s \u00e9 doutor e mestre em Hist\u00f3ria pela USP e foi coordenador da Editora da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo por onze anos. Une, portanto, a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica com a m\u00e3o na massa da condu\u00e7\u00e3o de uma editora eminentemente pol\u00edtica (a Perseu Abramo \u00e9 a Funda\u00e7\u00e3o de estudos do PT).<\/p>\n<p>Cada vez mais se conhece hoje os m\u00faltiplos aspectos da luta contra a ditadura. As organiza\u00e7\u00f5es que se empenharam na resist\u00eancia armada, os movimentos de massa que foram surgindo e se estruturando em bairros e favelas, o movimento sindical e a resist\u00eancia civil encarnada na frente pol\u00edtica que foi o MDB\/PMDB.<\/p>\n<p>Mau\u00e9s estuda outra faceta dessa resist\u00eancia, expressada por algumas dezenas de editoras, em sua maioria micro ou pequenas empresas, que ele caracteriza como &#8220;editoras de oposi\u00e7\u00e3o&#8221;. Al\u00e9m de editoras j\u00e1 conhecidas e de maior porte que estiveram desde o in\u00edcio contra a ditadura, como \u00e9 particularmente o caso da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira sob a dire\u00e7\u00e3o do \u00canio Silveira, al\u00e9m da Brasiliense, da Vozes e da Paz e Terra (essa fundada nos primeiros anos depois do golpe), a partir do in\u00edcio da &#8220;distens\u00e3o&#8221; do governo Geisel surgiram algumas dezenas de editoras de car\u00e1ter eminentemente pol\u00edtico, que representavam iniciativas de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O que caracterizava o conjunto das editoras de oposi\u00e7\u00e3o era seu perfil e sua linha editorial claramente oposicionistas, sem que isso implicasse que essas empresas tivessem necessariamente vinculados a pol\u00edticas expl\u00edcitas. O fundamental \u00e9 que elas deram express\u00e3o a iniciativas de oposi\u00e7\u00e3o. E houve e casos, inclusive, de editoras de oposi\u00e7\u00e3o surgidas nos anos 1970 e 1980 que foram criadas por partidos e grupos pol\u00edticos, alguns deles na clandestinidade e na semiclandestinidade&#8221;. A essas Mau\u00e9s caracteriza como um subcampo de editoras &#8220;engajadas&#8221; dentro do conjunto maior das editoras de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Flamarion Mau\u00e9s divide o livro em duas partes bem distintas. A primeira \u00e9 de car\u00e1ter mais geral e procura mostrar a situa\u00e7\u00e3o em seu conjunto. A segunda parte estuda tr\u00eas casos espec\u00edficos, o das editoras Ci\u00eancias Humanas, Kair\u00f3s Livraria e Editora, e a Editora Brasil Debates. Todas do grupo das engajadas e fundadas por militantes respectivamente do PCB, dos trotskistas da Libelu (Organiza\u00e7\u00e3o Socialista Internacionalista &#8211; OSI, bra\u00e7o de uma das fra\u00e7\u00f5es da Quarta Internacional) e do PCdoB. Esses tr\u00eas &#8220;estudos de caso&#8221; s\u00e3o reveladores tamb\u00e9m de t\u00e1ticas diferenciadas e de formas de vincula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m distintas dos tr\u00eas grupos pol\u00edticos com seus &#8220;bra\u00e7os editoriais&#8221;.<\/p>\n<p>Mau\u00e9s levanta a exist\u00eancia de cerca de quarenta editoras de oposi\u00e7\u00e3o que surgiram ou aturam no per\u00edodo estudado. Destaca que, como usou o &#8220;par\u00e2metro temporal [d]a d\u00e9cada de 1970 e parte da de 1980, ou seja, o per\u00edodo j\u00e1 posterior ao AI-5, algumas editoras que tiveram importante atua\u00e7\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o de obras pol\u00edticas nos anos 1960 n\u00e3o aparecem no meu levantamento, tais como as editoras Saga, Fulgor, Felman-Rego, Jos\u00e9 \u00c1lvaro Editor, Laemmert, GRD, entre outras&#8221;. Noto eu que algumas dessas e outras n\u00e3o citadas, como a Vit\u00f3ria, eram tamb\u00e9m vinculadas organicamente a partidos de esquerda, especialmente o PCB.<\/p>\n<p>O livro tamb\u00e9m foca exclusivamente em quatro estados, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Se existiram ou n\u00e3o editoras com esse perfil em outros estados (desconfio que pelo menos em Pernambuco e Bahia isso pode ter acontecido) o seu estudo se torna dif\u00edcil tamb\u00e9m pelo fato das bibliotecas brasileiras, e em especial a Biblioteca Nacional, n\u00e3o terem um trabalho de cataloga\u00e7\u00e3o de editoras e estudo da bibliografia presente em seus acervos por temas. Ali\u00e1s, quando existe essa separa\u00e7\u00e3o, geralmente esta se d\u00e1 na constitui\u00e7\u00e3o dos famosos &#8220;Infernos&#8221;, as se\u00e7\u00f5es de livros de acesso restrito, principalmente por serem classificados como pornogr\u00e1ficos, embora haja tamb\u00e9m a inclus\u00e3o de livros pol\u00edticos.<\/p>\n<p>As desventuras dessas editoras com a censura \u00e9 abordada no livro. Analisando a lista dos 434 livros proibidos durante a ditadura, levantada por Deonisio da Silva j\u00e1 em 1984, o autor constata que a maior parte das obras censuradas se enquadra no crit\u00e9rio de &#8220;afronta \u00e0 moral e aos bons costumes&#8221;, embora 16% dos livros proibidos o fossem por raz\u00f5es pol\u00edticas. O autor cita tamb\u00e9m um dado do levantamento feito por funcion\u00e1rios do Arquivo Nacional de Bras\u00edlia, apresentados no livro de Sandra Reim\u00e3o (Repress\u00e3o e Resist\u00eancia, Edusp\/Fapesp, 2011) no qual se mencionam 492 livros submetidos \u00e0 an\u00e1lise do DCDP, o \u00f3rg\u00e3o oficial da censura do Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a, dos quais 313 foram vetados, na sua maioria obras &#8220;er\u00f3ticas\/pornogr\u00e1ficas&#8221;. Mais uma vez se nota o problema da desorganiza\u00e7\u00e3o dos arquivos prim\u00e1rios brasileiros.<\/p>\n<p>Mau\u00e9s considera que &#8220;a censura aos livros pol\u00edticos parece ter sido mais seletiva do que a feita aos livros considerados &#8220;imorais&#8221; ou &#8220;indecentes&#8221;&#8221;. A impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que a censura aos livros era decorrente principalmente a partir de den\u00fancias, e as &#8220;senhoras de Santana&#8221; estavam mais preocupadas com a indec\u00eancia. A censura a m\u00fasicas e ao teatro, ao contr\u00e1rio, foi muito mais atenta \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O livro de Mau\u00e9s, aqui brevemente recenseado, tem a virtude de mostrar um lado importante da resist\u00eancia \u00e0 ditadura no campo da cultura. Feita principalmente a partir de micro e pequenas empresas, com editores que entendiam sua tarefa como miss\u00e3o pol\u00edtica e cultural. Embora tivessem consci\u00eancia da import\u00e2ncia de manter a lucratividade das empresas, esses editores entendiam sua miss\u00e3o de um modo muito mais amplo e especificamente pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Um bom livro para encerrar o ano. Que o pr\u00f3ximo nos traga mais e melhores not\u00edcias sobre a pol\u00edtica cultural, s\u00e3o meus votos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2013 foi especialmente movimentado quanto \u00e0 discuss\u00e3o da repress\u00e3o pol\u00edtica no per\u00edodo da ditadura civil-militar instaurada em 1964. 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