{"id":211,"date":"2011-08-04T14:24:45","date_gmt":"2011-08-04T17:24:45","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?p=211"},"modified":"2011-08-04T14:24:46","modified_gmt":"2011-08-04T17:24:46","slug":"see-you-in-frankfurt","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=211","title":{"rendered":"&#8220;See you in Frankfurt!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?attachment_id=212\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2Fblog%2F%3Fattachment_id%3D212','capa+weidhaas_0001_NEW')\" rel=\"attachment wp-att-212\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/capa-weidhaas_0001_NEW-193x300.jpg\" alt=\"\" title=\"capa weidhaas_0001_NEW\" width=\"193\" height=\"300\" class=\"alignleft size-small wp-image-212\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/capa-weidhaas_0001_NEW-193x300.jpg 193w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/capa-weidhaas_0001_NEW-660x1024.jpg 660w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/capa-weidhaas_0001_NEW.jpg 1720w\" sizes=\"(max-width: 193px) 100vw, 193px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Era assim que amigos, conhecidos ou quem estivesse envolvido com a presen\u00e7a de sua editora (ou do pa\u00eds) na maior feira de livros de mundo se despediam de Peter Weidhaas que, por 25 anos, foi o diretor da <em>Austellungs und Messe<\/em>, a empresa de propriedade dos editores e livreiros alem\u00e3es. \u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo do livro em que ele relembra essa experi\u00eancia.<br \/>\nQuando conheci Weidhaas, no processo de prepara\u00e7\u00e3o para a participa\u00e7\u00e3o do Brasil como tema da Feira de Frankfurt de 1994 (em 1992), ele era, para mim, uma esp\u00e9cie de \u201ctodo-poderoso\u201d do evento. O que Peter decidisse, estava decidido. J\u00e1 fora \u00e0 Feira antes, mas n\u00e3o o conhecia pessoalmente.<br \/>\nO livro lan\u00e7a luz sobre a trajet\u00f3ria que o levou a essa posi\u00e7\u00e3o e o que estava subjacente \u00e0 sua concep\u00e7\u00e3o das feiras de livro e de sua import\u00e2ncia para a difus\u00e3o do livro e da leitura. <\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nAt\u00e9 1968, a Feira do Livro de Frankfurt era exclusivamente de neg\u00f3cios: expositores de v\u00e1rios pa\u00edses chegavam l\u00e1 para vender e comprar direitos autorais. Em 1968 \u2013 um ano que n\u00e3o terminou em muitos lugares \u2013 os estudantes alem\u00e3es organizaram v\u00e1rios protestos durante a feira. Essas manifesta\u00e7\u00f5es tiveram como resultado, a m\u00e9dio prazo, uma reformula\u00e7\u00e3o do escopo da feira, tarefa que foi feita a partir de quando Weidhaas assumiu sua dire\u00e7\u00e3o, em 1975. Um dos pontos centrais dessa reformula\u00e7\u00e3o empreendida por Weidhaas foi a de transformar a Feira <strong>tamb\u00e9m<\/strong> em um evento cultural da maior import\u00e2ncia.<br \/>\nO <strong>tamb\u00e9m<\/strong> \u00e9 importante. Uma feira de livros \u00e9 uma feira de neg\u00f3cios, \u00e9 para vender. \u00c9 completamente diferente, nesse sentido, de um festival liter\u00e1rio.<br \/>\nO livro, entretanto, \u00e9 mais que um objeto. Tem um car\u00e1ter simb\u00f3lico e cultural extremamente forte. O que os estudantes alem\u00e3es reclamavam era do predom\u00ednio do <strong>neg\u00f3cio de best-sellers<\/strong> na Feira. E essa reclama\u00e7\u00e3o tem que ter eco na dire\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de uma feira de livros, pois o mundo dos livros n\u00e3o vive apenas dos best-sellers. A diversidade das ofertas do mundo dos livros corresponde \u00e0 diversidade do mundo real. Como papel aguenta tudo, existem livros para todos os gostos.<br \/>\nWeidhaas come\u00e7ou a trabalhar na Feira na \u00e1rea da promo\u00e7\u00e3o internacional, a da difus\u00e3o dos livros alem\u00e3es em outros pa\u00edses. Nessa condi\u00e7\u00e3o, ele percebeu um componente importante do mercado internacional de livros e de direitos autorais: o predom\u00ednio dos anglo-sax\u00f5es e, em particular, da ind\u00fastria editorial americana. \u00c9 tragic\u00f4mico o cap\u00edtulo em que descreve as dificuldades que teve para montar exposi\u00e7\u00f5es de livros alem\u00e3es nos EUA. E quando assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Feira de Frankfurt, uma das primeiras cr\u00edticas veio de <em>herr<\/em> Unseld, da Suhrkamp Verlag, a prop\u00f3sito da exposi\u00e7\u00e3o de livros alem\u00e3es que ele organizou (antes de assumir a dire\u00e7\u00e3o da Feira) na Fran\u00e7a.  A exposi\u00e7\u00e3o, que Weidhaas organizou com o lema de \u201cUma sociedade viva\u201d (a alem\u00e3), obviamente mostrava a diversidade de opini\u00f5es, tend\u00eancias e rumos a partir dos livros expostos. Unseld atacou: \u201cA exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz sentido. [&#8230;] N\u00e3o representa bem o idioma alem\u00e3o nem os interesses alem\u00e3es\u201d. Isto \u00e9, n\u00e3o representava, para ele, os interesses dos editores alem\u00e3es.<br \/>\nWeidhaas resolveu contra atacar em profundidade (o ataque de Unseld n\u00e3o foi o \u00fanico). A rea\u00e7\u00e3o contra sua presen\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o da Feira refletia a velha posi\u00e7\u00e3o de manter o evento exclusivamente como um f\u00f3rum de neg\u00f3cios. Mas, diz ele: \u201cOs livros precisam de discurso; necessitam do conhecimento pessoal dos estrangeiros ligados ao livro e de seu pano de fundo cultural e social para poder emigrar de um editor para o outro. [&#8230;] Os direitos de publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser negociados com base em simples dados em uma m\u00e1quina de fax e e-mail. Precisam das pessoas que est\u00e3o por tr\u00e1s dessas coisas, pessoas que se encontram, conhecem bem uns aos outros, ganham confian\u00e7a uns nos outros, e falam muito entre si. Isso \u00e9 o que faz sentido na exist\u00eancia das feiras, para serem um meio para o com\u00e9rcio e distribui\u00e7\u00e3o do livro\u201d.<br \/>\nA forma que Weidhass encontrou para responder a essas necessidades foi a da constru\u00e7\u00e3o de \u201cTemas\u201d que permitissem o di\u00e1logo de culturas e proporcionassem o pano de fundo para o desenvolvimento dos neg\u00f3cios.<br \/>\nOs \u201cTemas\u201d respondiam tamb\u00e9m a uma demanda da sociedade p\u00f3s 1968: a Feira de Livros de Frankfurt se tornaria, com eles, um foco de discuss\u00f5es culturais, sociais e pol\u00edticas que iria mais al\u00e9m dos best-sellers, tornando-a assim <strong>relevante<\/strong> n\u00e3o apenas para os neg\u00f3cios como tamb\u00e9m para o debate intelectual.<br \/>\nLogo no primeiro ano de sua administra\u00e7\u00e3o ele instituiu, ainda de forma t\u00edmida, esse conceito, com o tema do \u201cAno das Mulheres\u201d, que preparou o terreno para o lan\u00e7amento, em 1976, da Am\u00e9rica Latina como tema focal.<br \/>\nTalvez muitos n\u00e3o se lembrem, mas esse evento foi crucial para o chamado \u201cboom\u201d da literatura latino-americana no mundo inteiro. Gabriel Garcia M\u00e1rquez j\u00e1 tinha sido lan\u00e7ado com sucesso, mas a Feira de Frankfurt e as discuss\u00f5es, debates e apresenta\u00e7\u00f5es de autores latino-americanos provocaram uma verdadeira avalanche de autores do continente no mercado internacional de direitos autorais e da venda de livros.<br \/>\nA tese de Weidhaas de estabelecer um foco central para as atividades culturais da feira tinha se comprovado na pr\u00e1tica. Os neg\u00f3cios aumentaram na Feira de Frankfurt, o n\u00famero de expositores e de visitantes, a cobertura da imprensa. E, obviamente, n\u00e3o foram apenas os autores de literatura latino-americana que se beneficiaram desse novo ambiente. O crescimento da Feira de Livros de Frankfurt continua ininterrupto at\u00e9 hoje. Os \u201ctemas\u201d evolu\u00edram para o convite dos pa\u00edses como ponto central dos debates culturais da Feira, e tratarei disso mais tarde.<br \/>\nA trajet\u00f3ria n\u00e3o foi f\u00e1cil, os problemas in\u00fameros: Rushdie e a <em>fatwa<\/em> iraniana contra o escritor, a queda do Muro de Berlim e a dissolu\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do chamado \u201csocialismo real\u201d (com a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de editoras de propriedade dos respectivos Estados, que compravam muitos direitos e ocupavam bastante espa\u00e7o na Feira), o surgimento e crescimento dos meios eletr\u00f4nicos; o conflito quase permanente com os editores americanos e ingleses em torno da localiza\u00e7\u00e3o de seus estandes na Feira s\u00e3o alguns exemplos.<br \/>\nEsse \u00faltimo ponto vale mencionar, pois reflete duas quest\u00f5es que Weidhaas teve que enfrentar. A primeira delas diz respeito \u00e0 pol\u00edtica de misturar os diferentes componentes da feira (g\u00eaneros e \u00e1reas de publica\u00e7\u00e3o para os editores alem\u00e3es, e as representa\u00e7\u00f5es nacionais) de modo que os \u201cmais fortes\u201d atra\u00edssem tr\u00e1fego de visitantes para a \u00e1rea dos \u201cmais fracos\u201d. Os americanos n\u00e3o queriam nem saber disso. Sempre exigiam que a sua localiza\u00e7\u00e3o fosse a melhor poss\u00edvel, sem considerar que, como componentes mais fortes da \u00e1rea de neg\u00f3cios da Feira, todo mundo iria para sua \u00e1rea, independentemente de onde estivesse. O privil\u00e9gio aos americanos (que levavam de reboque os ingleses) em detrimento dos outros pa\u00edses (e n\u00e3o falo apenas dos pa\u00edses do chamado \u201cterceiro mundo\u201d, mas tamb\u00e9m daqueles europeus com l\u00ednguas diferentes: os noruegueses s\u00e3o t\u00e3o \u201cdesprez\u00edveis\u201d quanto qualquer outro pa\u00eds de menor import\u00e2ncia econ\u00f4mica, por exemplo) acabava sempre prejudicando os demais grupos de expositores. Weidhaas ganhou e perdeu batalhas nesse sentido.<br \/>\nO segundo aspecto \u00e9 o da diferen\u00e7a de interesses entre a administra\u00e7\u00e3o da Feira, com esse objetivo de equil\u00edbrio e est\u00edmulo \u00e0 diversidade, e o imediatismos que se manifestava com muita frequ\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Livreiros e Editores Alem\u00e3es \u2013 dona da Feira e da empresa que a organizava. Esses conflitos institucionais tamb\u00e9m provocaram situa\u00e7\u00f5es de estresse continuado, que Weidhaas teve de administrar usando inclusive algumas caracter\u00edsticas da legisla\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria alem\u00e3, que lhe davam uma margem de atua\u00e7\u00e3o independente (como administrador), em rela\u00e7\u00e3o aos donos da empresa. E como a feira continuava com sucesso crescente, a solu\u00e7\u00e3o de mand\u00e1-lo embora nunca foi executada \u2013 apesar de aventada v\u00e1rias vezes.<br \/>\nWeidhaas se aposentou em 2000, depois de dirigir vinte e cinco Feiras do Livro de Frankfurt. Atualmente participa de reuni\u00f5es de um cons\u00f3rcio informal de organizadores e respons\u00e1veis pelas feiras de livros de v\u00e1rios pa\u00edses. A CBL chegou a participar de uma ou duas dessas reuni\u00f5es e depois n\u00e3o mandou mais representantes para esses eventos. Pelo visto, n\u00e3o tem o que transmitir nem o que aprender.<br \/>\nO livro de Peter Weidhaas (que j\u00e1 foi traduzido para v\u00e1rios idiomas, inclusive o chin\u00eas), est\u00e1 dispon\u00edvel em ingl\u00eas na Amazon.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era assim que amigos, conhecidos ou quem estivesse envolvido com a presen\u00e7a de sua editora (ou do pa\u00eds) na maior feira de livros de mundo se despediam de Peter Weidhaas que, por 25 anos, foi o diretor da Austellungs und Messe, a empresa de propriedade dos editores e livreiros alem\u00e3es. \u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo do &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=211\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D211','Continue+lendo+%26%238220%3BSee+you+in+Frankfurt%21%26%238221%3B+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;See you in Frankfurt!&#8221;<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[28,77,19,78],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=211"}],"version-history":[{"count":14,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":226,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions\/226"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}