{"id":1960,"date":"2013-09-03T12:19:19","date_gmt":"2013-09-03T15:19:19","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1960"},"modified":"2013-09-03T12:19:19","modified_gmt":"2013-09-03T15:19:19","slug":"sebos-e-saldos-biscoito-fino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1960","title":{"rendered":"SEBOS E SALDOS \u2013 BISCOITO FINO"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Capturar.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"859\" height=\"420\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1961\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Capturar.jpg 859w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Capturar-300x146.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 859px) 100vw, 859px\" \/><br \/>\nUm dos segmentos menos conhecidos do mercado editorial e livreiro \u00e9 o de sebos, e o de venda de saldos e pontas de estoque. O segmento que desfruta de um certo prest\u00edgio \u00e9 o dos sebos de livros raros ou antiqu\u00e1rios. Neles se vendem exemplares que podem chegar a centenas de milhares de d\u00f3lares. O Dr. Jos\u00e9 Mindlin era um grande conhecedor dos melhores sebos de raros do mundo \u2013 ele mesmo chegou a possuir um \u2013 pois ali estava uma das fontes de sua fant\u00e1stica biblioteca.<\/p>\n<p>O menos prestigiado \u00e9 o de livros de saldos, ou ponta de estoques.<\/p>\n<p>E h\u00e1 um grande equ\u00edvoco quanto a isso. <\/p>\n<p>As pessoas geralmente equivalem saldos a \u201cencalhes\u201d. O livro encalhou, n\u00e3o vendeu \u2013 portanto n\u00e3o teve sucesso e foi acabar nas pontas de estoque. Ledo engano.<br \/>\nA forma\u00e7\u00e3o dos saldos \u00e9 um processo normal no mercado editorial. Se uma edi\u00e7\u00e3o de 3.000 exemplares vendeu, por exemplo, 2.500 exemplares, isso n\u00e3o justifica uma reedi\u00e7\u00e3o, tampouco \u00e9 sinal de fracasso. Mas sobram 500 c\u00f3pias no dep\u00f3sito das editoras. Da mesma maneira, um livro que mais tarde pode vir at\u00e9 ser considerado \u201ccult\u201d, ou um livro de leitura dif\u00edcil, pode ter uma edi\u00e7\u00e3o de apenas mil exemplares e deixar quinhentos no dep\u00f3sito. E tamb\u00e9m acontece o caso do editor errar a m\u00e3o: um livro est\u00e1 vendendo bem e ele manda rodar uma nova tiragem alta, e o t\u00edtulo para de vender. A\u00ed podem sobrar no dep\u00f3sito milhares de exemplares. E \u00e9 o que acontece.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o das vendas com direito \u00e0 devolu\u00e7\u00e3o nos EUA e as consigna\u00e7\u00f5es, no Brasil, intensificou a produ\u00e7\u00e3o desses estoques n\u00e3o vendidos. Nos EUA o panorama \u00e9 claro. As devolu\u00e7\u00f5es geram um retorno de aproximadamente 30% do vendido, na m\u00e9dia. Quando a editora investe em uma grande tiragem e as vendas fracassam, isso vira um problema\u00e7o. Aqui tamb\u00e9m, a difus\u00e3o das consigna\u00e7\u00f5es leva a uma situa\u00e7\u00e3o de penumbra: os livros saem do estoque das editoras, mas saber com certeza o quanto foi vendido \u00e9 bem complicado.<\/p>\n<p>Na raiz disso est\u00e1 o aumento geom\u00e9trico do n\u00famero de t\u00edtulos publicados. Esses livros n\u00e3o encontram espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00e3o nas livrarias, ou ent\u00e3o permanecem expostos (no jarg\u00e3o do mercado, n\u00e3o apenas arrumados em espinha nas estantes, mas com a capa vis\u00edvel em vitrines ou locais de exposi\u00e7\u00e3o privilegiados) por muito pouco tempo. O que gerou, inclusive, guerra de descontos, quando as livrarias \u2013 particularmente as com maior poder de fogo \u2013 exigiam condi\u00e7\u00f5es melhores para expor os lan\u00e7amentos em lugar de destaque. \u00c9 praticamente uma venda de espa\u00e7o, e o livreiro perde o papel de curador de seu estoque, virando um \u201cagente imobili\u00e1rio\u201d dos lugares privilegiados da loja.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nO fato \u00e9 que se gera, continuadamente, uma quantidade de livros n\u00e3o vendidos que passa a existir em um limbo: est\u00e3o no cat\u00e1logo das editoras, mas n\u00e3o s\u00e3o encontrados nas livrarias.<br \/>\nAs vendas online permitiram uma extens\u00e3o da \u201cvida \u00fatil\u201d dos livros. Essa, entretanto, \u00e9 prejudicada pelo desprezo com que editores e livreiros brasileiros tratam os metadados. O resultado \u00e9 que s\u00f3 se acha o que j\u00e1 se conhece. A \u201cdiscoverability\u201d (ainda n\u00e3o achei uma boa palavra para essa) \u00e9 algo totalmente desconhecido por aqui.<\/p>\n<p>Esses estoques s\u00e3o progressivamente desvalorizados. A Lei do Livro j\u00e1 prev\u00ea inclusive mecanismos cont\u00e1beis para isso. Os livros t\u00eam um pre\u00e7o de custo e esperava-se que fossem vendidos a um pre\u00e7o \u201cx\u201d, o que se frustrou, e isso gera a possibilidade de venda a pre\u00e7os menores.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia final disso tudo \u00e9 a exist\u00eancia de uma grande quantidade de livros, de todos os tipos, adormecidos nos dep\u00f3sitos das editoras. Menosprezar esse conjunto, taxando-o simplesmente como \u201cencalhe\u201d revela simplesmente um desconhecimento de como funciona o mercado livreiro e editorial, aqui e alhures.<\/p>\n<p>O Programa do Livro Popular da FBN foi uma tentativa de recolocar esses livros de volta \u00e0 circula\u00e7\u00e3o. Frustrada e interrompida sem avalia\u00e7\u00e3o completa (pelo menos publicada). Mas n\u00e3o vou falar disso aqui. Ficar\u00e1 para outro momento.<\/p>\n<p>Agora, a percep\u00e7\u00e3o de que existe esse tesouro escondido (que, como toda mina de min\u00e9rios preciosos, certamente tem sua ganga) aparece por outra via em uma iniciativa que se prepara. Trata-se da \u201cLivraria Coletiva\u201d, uma iniciativa de Lorran Feital.<\/p>\n<p>Nas palavras do pr\u00f3prio idealizador:<\/p>\n<p><em>\u201cA ideia surgiu enquanto eu passeava por uma das feirinhas de livros usados que t\u00eam aqui no Rio. Sou frequentador ass\u00edduo dessas feiras, e \u00e9 frequente encontrar livros novos (embalados, muitas vezes) por pre\u00e7os bem baixos (R$5,00 \u00e9 bem comum).<br \/>\nComo estudei muito essa quest\u00e3o do encalhe de livros, e tamb\u00e9m sou admirador e defensor da Teoria da Cauda Longa, tive certeza de que era esse o ponto em que eu deveria focar. Afinal, o &#8220;mundo&#8221; de encalhes \u00e9 praticamente um nicho a parte no mercado editorial.<br \/>\nSendo assim, resolvi encontrar uma forma de trazer a tona esses encalhes, com pre\u00e7os no n\u00edvel desses praticados nas feirinhas. N\u00e3o s\u00f3 para tentar desafogar as editoras, mas para, quem sabe, criar mercado para esses livros tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E essa ideia convergiu com outra que j\u00e1 rondava meus pensamentos tamb\u00e9m: a de criar uma livraria no formato de vendas coletivas.<\/p>\n<p>Quanto ao uso de TI, vale citar novamente a Teoria da Cauda Longa.<\/p>\n<p>Temos v\u00e1rias livrarias online no Brasil, mas ouso afirmar que nenhuma delas utiliza com maestria as possibilidades que a Cauda Longa oferece. S\u00e3o, na verdade, uma reprodu\u00e7\u00e3o online das livrarias f\u00edsicas, com os espa\u00e7os nobres loteados a quem vende mais. Mas a\u00ed vem a grande pergunta: vende mais porque \u00e9 fresquinho ou \u00e9 fresquinho porque vende mais?<br \/>\nMinha ideia com a Livraria Coletiva \u00e9 explorar a Cauda Longa \u00e0 exaust\u00e3o. A venda coletiva \u00e9 apenas o pontap\u00e9 inicial, e chamariz da plataforma (seja para editoras, seja para leitores). Quero ir, aos poucos, me tornando uma livraria virtual, abra\u00e7ando toda a gama de livros poss\u00edvel e trabalhar as prefer\u00eancias e gostos do usu\u00e1rio. Da mesma forma, quero criar uma base de intelig\u00eancia onde se possa localizar um livro por caracter\u00edsticas aleat\u00f3rias, como por exemplo um livro de capa azul que falava de amizades, ou que tinha uma personagem chamada Alice, que voc\u00ea leu faz tempo. <\/p>\n<p>Quanto \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o com as editoras, esse \u00e9 sempre um passo complicado&#8230; Cheguei a negociar com editoras que no final me disseram &#8220;infelizmente n\u00e3o podemos arcar com problemas de envio e log\u00edstica reversa&#8221;. Pera\u00ed!!! Se \u00e9 custo, tem que estar no pre\u00e7o. E n\u00e3o adianta conversar. Algumas s\u00e3o cabe\u00e7as dur\u00edssimas. Outras nem respondem. Mas sou persistente. Acho que tenho uma ferramenta muito boa na m\u00e3o e que, com um pouquinho de for\u00e7a de vontade e alguns ajustes, pode ser bom para as editoras tamb\u00e9m. Estou no jogo pelos leitores\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Questionei o Lorran especificamente sobre dois aspectos: a tal da \u201cdescobribilidade\u201d e a quest\u00e3o do frete. A primeira decorrente da minha preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o dos metadados e o desleixo com que isso \u00e9 tratado pelas editoras. A segunda, por haver feito pesquisa sobre a quest\u00e3o dos fretes cobrados pelo correio, por ocasi\u00e3o do Programa do Livro Popular. Levar livros para os cafund\u00f3s do Brasil n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>A resposta:<\/p>\n<p><em> \u201cTenho mecanismo de c\u00e1lculo de frete pelo CEP, mas pode encarecer bastante. Preciso fazer alguns testes. O sistema da Amazon (clientes Prime tem isen\u00e7\u00e3o de frete \u2013 FL) \u00e9 interessante. Poderia cair bem, preciso conhecer melhor. Acho que seria necess\u00e1rio ter uma base grande de compradores para obter alguma m\u00e9dia. Acho que a solu\u00e7\u00e3o, por enquanto, seria cobrar o frete.<\/p>\n<p>Quanto aos metadados, entendo a dificuldade de se realizar um trabalho deste porte. O que pretendo fazer \u00e9 criar um mecanismo tipo wiki. Coletivo. Por exemplo um usu\u00e1rio compra um livro e \u00e9 instigado a responder: Qual o nome do personagem principal? ou Qual o assunto principal?. De acordo com essa intelig\u00eancia coletiva, creio que conseguir\u00edamos catalogar de forma mais eficiente e mais r\u00e1pida\u201d.<\/em><\/p>\n<p>As dimens\u00f5es continentais do pa\u00eds, as dificuldades de infraestrutura e da pr\u00f3pria incompreens\u00e3o do que gera os tais \u201cencalhes\u201d s\u00e3o enormes. Um exemplo bem sucedido de uso de ferramentas de TI para ofertar livros \u2013 no caso, em sebos \u2013 foi o desenvolvido pela <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.estantevirtual.com.br');\"  href=\"http:\/\/www.estantevirtual.com.br\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fwww.estantevirtual.com.br','Estante+Virtual')\" target=\"_blank\">Estante Virtual<\/a>. Os mecanismos de busca ali n\u00e3o s\u00e3o sofisticados, mas funcionam bem e rapidamente.<\/p>\n<p>Essas duas iniciativas \u2013 a Estante Virtual, j\u00e1 consolidada \u2013 e a da Livraria Coletiva do Lorran Feital s\u00e3o exemplos de iniciativas que pretendem romper com a barreira da in\u00e9rcia e abrir caminhos para que os nossos \u201cbiscoitos finos\u201d n\u00e3o mofem nos dep\u00f3sitos e possam completar o \u201cencontro feliz\u201d \u2013 como diz Gabriel Zaid \u2013 entre o livro e seu leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos segmentos menos conhecidos do mercado editorial e livreiro \u00e9 o de sebos, e o de venda de saldos e pontas de estoque. O segmento que desfruta de um certo prest\u00edgio \u00e9 o dos sebos de livros raros ou antiqu\u00e1rios. Neles se vendem exemplares que podem chegar a centenas de milhares de d\u00f3lares. 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