{"id":1881,"date":"2013-07-02T11:29:02","date_gmt":"2013-07-02T14:29:02","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1881"},"modified":"2013-07-02T11:29:02","modified_gmt":"2013-07-02T14:29:02","slug":"livros-bons-e-livros-ruins-como-e-mesmo-isso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1881","title":{"rendered":"LIVROS BONS E LIVROS RUINS \u2013 COMO \u00c9 MESMO ISSO?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Capturar.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"855\" height=\"478\" class=\"alignnone size-full wp-image-1882\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Capturar.jpg 855w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Capturar-300x167.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 855px) 100vw, 855px\" \/><br \/>\nA distin\u00e7\u00e3o entre livros bons e livros ruins \u00e9 algo que assombra o sentido comum. Afinal, cada um de n\u00f3s qualifica o que l\u00ea (ou o que quer ou n\u00e3o ler) dessa maneira. \u00c9 um bom livro (e por isso gostei dele), ou \u00e9 um livro ruim (portanto, detestei). Fazemos isso todos os dias (e n\u00e3o s\u00f3 a respeito de livros, \u00e9 claro), e esse exerc\u00edcio de distin\u00e7\u00e3o passa pela cr\u00edtica, pelas resenhas de jornais e, certamente, pela avalia\u00e7\u00e3o das editoras que decidem publicar ou n\u00e3o determinado original.<\/p>\n<p>O assunto desborda das escolhas individuais (ou empresariais) at\u00e9 para o terreno das pol\u00edticas de aquisi\u00e7\u00e3o de acervos para bibliotecas p\u00fablicas. H\u00e1 quem defenda que s\u00f3 devem ser colocados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos leitores n\u00e3o apenas livros bons, mas os que \u201ctransformem\u201d o leitor em um ser humano melhor. E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Pierre Bourdieu, em seus estudos de sociologia, elaborou alguns conceitos que nos podem ser \u00fateis. O soci\u00f3logo franc\u00eas assinala que as avalia\u00e7\u00f5es de qualidade \u2013 ou aquilo que sua disc\u00edpula Pascale Casanova viria a chamar de \u201ccapital liter\u00e1rio\u201d &#8211; depende de rela\u00e7\u00f5es internas no campo da cr\u00edtica, e da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, no caso da que se considera culta. As disputas de poder no campo liter\u00e1rio adquirem uma din\u00e2mica pr\u00f3pria, que leva a sucessivas transforma\u00e7\u00f5es na escala de valores do que \u00e9 considerado \u201cbom\u201d, \u201cinovador\u201d, \u201cmed\u00edocre\u201d ou de \u201cmau-gosto\u201d e assim sucessivamente. <\/p>\n<p>Essas disputas dentro de campos podem muito bem ser \u2013 e de fato s\u00e3o \u2013 interpoladas com o que acontece em outros campos. Por exemplo, os livros que os pedagogos podem levar em alta considera\u00e7\u00e3o (no campo da pedagogia, ou como \u00fateis para o ensino de literatura, por exemplo), podem n\u00e3o ser id\u00eanticos aos que os cr\u00edticos liter\u00e1rios talvez valorizem. Livros que esses consideram inovadores, ou que apontam para caminhos promissoramente transgressores (com um sinal positivo nessa transgress\u00e3o), podem ser considerados nocivos pelos pedagogos.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nO mundo dos livros, j\u00e1 disse algu\u00e9m, \u00e9 um reflexo do mundo real. Quase tudo, as contradi\u00e7\u00f5es, as valoriza\u00e7\u00f5es e avalia\u00e7\u00f5es que se manifestam no jogo social, se refletem de alguma maneira no mundo dos livros. Por conseguinte, isso faz com que as avalia\u00e7\u00f5es, os sinais de positivo ou negativo no mundos dos livros, tamb\u00e9m reflitam isso de certa maneira. E os exemplos podem ser v\u00e1rios e ilustrativos: a avalia\u00e7\u00e3o de um livro da \u00e1rea STM (t\u00e9cnico-cient\u00edfico e de medicina) obviamente n\u00e3o tem nada a ver com a avalia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Os livros religiosos, por sua vez, podem ocupar uma gama extensa de situa\u00e7\u00f5es e avalia\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que podem ser simplesmente apolog\u00e9ticos ou pe\u00e7as de \u201calta literatura\u201d po\u00e9tica. Nesse caso, a avalia\u00e7\u00e3o que um cat\u00f3lico carism\u00e1tico faz dos livros do Pe. Marcelo Rossi n\u00e3o vai bater com a que eventualmente for feita por um cr\u00edtico liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Com essas observa\u00e7\u00f5es n\u00e3o quero enveredar por um relativismo absoluto, o que faria lembrar um bord\u00e3o dos anos sessenta (o \u201ctudo \u00e9 relativo\u201d). Pois a quest\u00e3o \u00e9: relativo a qu\u00ea? E entender que essas escalas de valores se formam n\u00e3o por imperativos est\u00e9ticos (liter\u00e1rios) absolutos, mas s\u00e3o o fruto de disputas entre os que participam do campo liter\u00e1rio (ou do religioso, do pedag\u00f3gico, do cient\u00edfico, e assim por diante).<\/p>\n<p>O perigo de se esquecer disso \u00e9 quando a quest\u00e3o se transfere para o \u00e2mbito das pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o da leitura e, em particular, da constitui\u00e7\u00e3o de acervos para as bibliotecas p\u00fablicas. <\/p>\n<p>Os que eu chamo de \u201cleitur\u00f3logos\u201d, no sentido de pessoas que acham que nas bibliotecas s\u00f3 devem estar os livros transformadores da vis\u00e3o de mundo dos leitores, se imbuem dessa miss\u00e3o e querem excluir os livros que n\u00e3o se enquadrem no que eles acham que corresponde a essa \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Ora, quando se examina a hist\u00f3ria das bibliotecas p\u00fablicas modernas (que nascem na Inglaterra e nos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX), o que vemos \u00e9 que a os fundadores dos sistemas de bibliotecas as fizeram com dois objetivos. O primeiro, de certa forma, corresponde a essa vis\u00e3o moralizadora e de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o moral\u201d dos leitores. Particularmente dos leitores oper\u00e1rios, aos quais se destinavam as primeiras bibliotecas p\u00fablicas. As bibliotecas particulares e universit\u00e1rias, obviamente, estavam fora desse escopo limitador. Mas aquelas destinadas ao pov\u00e3o tinham esse lado moralista, certamente.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m foram constru\u00eddas com outros objetivos. Um deles era subsidiariamente pol\u00edtico: a cren\u00e7a de que o aperfei\u00e7oamento profissional faria as pessoas progredirem material e socialmente. Mas, para isso, as bibliotecas deveriam ser as \u201cuniversidades livres\u201d, o locus onde as pessoas, particularmente os oper\u00e1rios, podiam adquirir livremente conhecimentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma ideia nova. A obra de Diderot e d\u2019Alembert, lembremos, tinha como t\u00edtulo <strong>Encyclop\u00e9die, ou dictionnaire raisonn\u00e9 des sciences, des arts et des m\u00e9tiers<\/strong>. Ou seja, dicion\u00e1rio arrazoado das ci\u00eancias, das artes e dos of\u00edcios. E \u00e9 fascinante ver as reprodu\u00e7\u00f5es fac\u00edmiles que se encontram espalhadas pela web, como esta do processo de fabrica\u00e7\u00e3o de livros, na qual se mostra n\u00e3o apenas o que \u201c\u00e9\u201d fabricar esses objetos, mas tamb\u00e9m como faz\u00ea-lo, e as ferramentas usadas:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/didferot-198x300.jpg\" alt=\"didferot\" width=\"198\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1884\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/didferot-198x300.jpg 198w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/didferot.jpg 539w\" sizes=\"(max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/> <\/p>\n<p>Os sistemas de classifica\u00e7\u00e3o, como o de Dewey, nasceram com o objetivo pr\u00e1tico de ajudar os consulentes das bibliotecas a achar o que lhes interessava aprender. Por isso mesmo, n\u00e3o se restringem \u00e0 literatura, e muito menos ao que qualquer um possa qualificar como \u201cbom livro\u201d: a classifica\u00e7\u00e3o abrange todas as \u00e1reas de conhecimento.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar tamb\u00e9m que as bibliotecas p\u00fablicas s\u00e3o financiadas pelos impostos, e o cidad\u00e3o que os paga <strong>t\u00eam o direito<\/strong> de ter acesso ao que quiser, e n\u00e3o apenas \u00e0quilo que seja selecionado por quem se arroga o direito de decidir o que ele pode ou n\u00e3o ler.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de acervos para bibliotecas p\u00fablicas e os programas de incentivo \u00e0 leitura devem, portanto, se equilibrar entre as limita\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o para os acervos (um condicionante \u00f3bvio: a biblioteca universal \u00e9 um sistema de bibliotecas, e n\u00e3o uma biblioteca em particular), o desejo do usu\u00e1rio e a ajuda para que este amplie seu universo de leituras, sem jamais depreciar arrogantemente o que ele deseja ler.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A distin\u00e7\u00e3o entre livros bons e livros ruins \u00e9 algo que assombra o sentido comum. 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