{"id":181,"date":"2011-07-26T18:49:18","date_gmt":"2011-07-26T21:49:18","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?p=181"},"modified":"2011-07-26T18:49:18","modified_gmt":"2011-07-26T21:49:18","slug":"d%e2%80%99o-capital-ao-livro-digital-passando-pelo-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=181","title":{"rendered":"D\u2019O CAPITAL AO LIVRO DIGITAL (PASSANDO PELO CINEMA)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/?attachment_id=182\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2Fblog%2F%3Fattachment_id%3D182','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-182\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-182\" title=\"Capturar\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Capturar3.jpg\" alt=\"\" width=\"862\" height=\"382\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Capturar3.jpg 862w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Capturar3-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 862px) 100vw, 862px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s enfrentei uma maratona de 492 minutos para assistir as tr\u00eas partes do filme \u201cNot\u00edcias da Antiguidade Ideol\u00f3gica: Marx, Eisenstein, <em>O Capital<\/em>\u201d, do cineasta alem\u00e3o Alexander Kluge. Sem querer entrar na seara do colega colunista aqui do Publish News, Pedro Almeida, e sua coluna \u201cVeja antes de ler\u201d, quero aproveitar o filme para fazer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre livro e cinema. N\u00e3o entro na seara dele porque n\u00e3o se trata de \u201cver antes de ler\u201d. Muito pelo contr\u00e1rio. O que eu quero falar \u00e9 sobre a especificidade do ler e, portanto, da irredutibilidade do livro.<br \/>\nAs not\u00edcias sobre o filme vendiam uma coisa e, na verdade, o esfor\u00e7o do cineasta era outro. As mat\u00e9rias falavam de \u201cum filme sobre <em>O Capital<\/em>\u201d e at\u00e9 insinuavam que se tratava de uma tentativa de filmar a obra fundamental de Marx.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>De fato, o filme discutia um projeto do Eisenstein, o cineasta russo, diretor de <em>O Encoura\u00e7ado Potenkim<\/em>, <em>Alexandre Nevsky<\/em> e <em>Outubro<\/em>, que queria, ele sim, filmar <em>O Capital<\/em>. Note-se, n\u00e3o se tratava de fazer um filme sobre <em>O Capital<\/em>, mas sim de efetivamente filmar o pr\u00f3prio. E mais, fazer esse filme como se fosse uma filmagem de um dia na vida de algu\u00e9m como o Leopold Bloom, do <em>Ulisses<\/em> do James Joyce, e que esse dia fossa a hist\u00f3ria d\u2019<em>O Capital<\/em> como o <em>Ulisses<\/em> era um resumo da hist\u00f3ria da humanidade. N\u00e3o era pouca coisa esse projeto do Eisenstein.<br \/>\nPara os n\u00e3o cin\u00e9filos \u00e9 bom lembrar que o cineasta russo foi um dos fundadores da linguagem cinematogr\u00e1fica. Foi um momento na hist\u00f3ria do cinema em que se considerava que aquela nova forma de arte podia expressar qualquer coisa. Inclusive o pensamento te\u00f3rico e abstrato. Para Eisenstein \u2013 e outros cineastas da \u00e9poca, como o americano D. W. Griffith, por exemplo \u2013 as possibilidades abertas pelo cinema eram infinitas.<br \/>\nSergei Eisenstein n\u00e3o conseguiu passar da etapa de anota\u00e7\u00f5es e esbo\u00e7os sobre esse projeto ambicios\u00edssimo. E o filme de Kluge \u00e9 um document\u00e1rio sobre o projeto do Eisenstein e, de quebra, um semin\u00e1rio sobre <em>O Capital<\/em>. Como todo semin\u00e1rio, com alguns palestrantes excelentes e outros nem tanto. Para quem se interessa pela obra do Marx e sua perman\u00eancia, trata-se de um filme importante. Como vai ser lan\u00e7ado em DVD, d\u00e1 para espa\u00e7ar e organizar o tempo para ver tudo.<br \/>\nMas a quest\u00e3o de fundo, do projeto do Eisenstein e da pr\u00f3pria tentativa do Kluge, \u00e9 a quest\u00e3o de se \u00e9 poss\u00edvel transformar (ou seja, <strong>mudar a forma<\/strong>) de uma obra te\u00f3rica, escrita, em um desfile de imagens, ou seja, em uma express\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<br \/>\nUm dos entrevistados no semin\u00e1rio p\u00f5e exatamente o dedo na ferida. Pergunta o que acrescentaria se fosse feito um filme mostrando crian\u00e7as trabalhando quinze horas por dia em f\u00e1bricas de tecidos, subnutridas e obrigadas a fazer isso at\u00e9 praticamente morrerem? (E olhem que essas coisas continuam acontecendo hoje em dia, inclusive aqui em S. Paulo, onde imigrantes sul-americanos e coreanos vivem praticamente escravizados em <em>sweatshops<\/em> l\u00e1 pelo Pari, Br\u00e1s e Bom Retiro). Nada, responde o entrevistado. Porque o livro de Marx n\u00e3o \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. O que Marx quer demonstrar \u00e9 a estrutura conceitual do que faz esse trabalho se transformar em mais-valia e como isso explica o regime capitalista. N\u00e3o h\u00e1 imagem que consiga mostrar esse racioc\u00ednio.<br \/>\nIsso porque a palavra escrita permite descri\u00e7\u00f5es, digress\u00f5es e explicita\u00e7\u00e3o de racioc\u00ednios te\u00f3ricos que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com imagens. S\u00e3o constru\u00e7\u00f5es cerebrais que n\u00e3o param na descri\u00e7\u00e3o, nem nas met\u00e1foras. V\u00e3o muito al\u00e9m, constroem uma explica\u00e7\u00e3o (ou, pelo menos, uma tentativa de explica\u00e7\u00e3o) para o que, eventualmente, aquelas imagens evocam, ou exemplificam.<br \/>\nO mesmo vale para a literatura. Muita gente conhece o trecho do primeiro volume de <em>A Busca do Tempo Perdido<\/em> em que o personagem (Proust) \u201csente o cheiro da madeleine\u201d e isso o leva a evocar os acontecimentos da toda sua vida (e a imaginar o que n\u00e3o viveu). J\u00e1 se fez tentativa de mostrar isso cinematograficamente: o rosto do menino, o corte para o biscoitinho, o olhar evocador, etc. etc. Substitui o texto? Nem de longe.<br \/>\nOu, melhor dizendo, produz outra coisa. Talvez o n\u00facleo de uma hist\u00f3ria parecida, que deve ser mostrada de modo bem sint\u00e9tico. Mas que n\u00e3o substitui a experi\u00eancia da leitura. Uma panor\u00e2mica por um caminho florido n\u00e3o substitui a evoca\u00e7\u00e3o na mem\u00f3ria do personagem sobre o que significava andar por esse caminho na dire\u00e7\u00e3o da casa do senhor Swann.<br \/>\nA palavra escrita tem especificidades, qualidades (e defeitos, claro) que n\u00e3o se transportam para outras formas de express\u00e3o. E nem vice-versa. Um romance sobre um compositor, como \u00e9 o caso do <em>Jean Christophe<\/em> do Romain Roland, narra as aventuras, desventuras e os problemas enfrentados por um compositor, mas n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. \u00c9 literatura. A partir dele n\u00e3o se pode \u201couvir\u201d nenhuma m\u00fasica imaginariamente composta pelo personagem, como tamb\u00e9m n\u00e3o se pode construir a hist\u00f3ria de Beethoven ouvindo uma de suas sinfonias.<br \/>\nPara onde isso tudo pode nos levar?<br \/>\nTodas as discuss\u00f5es recentes sobre livro eletr\u00f4nico versus livro impresso no papel t\u00eam esquecido essa quest\u00e3o da singularidade do ato de ler. Ler para acompanhar a constru\u00e7\u00e3o de uma teoria. Ler para desfrutar do modo como escritores moldam essa realidade infinita em formas liter\u00e1rias. Ler para aprender. Ler para desfrutar esteticamente do conte\u00fado do livro. Ou as duas coisas juntas.<br \/>\nIsso \u00e9 que faz a perman\u00eancia do livro. Pouco importa se est\u00e1 em formato eletr\u00f4nico ou impresso em papel. O que o livro transmite \u00e9 irredut\u00edvel a outras formas de express\u00e3o. N\u00e3o importa que esteja no papel ou dentro de um Kindle. Importa que seja um livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias atr\u00e1s enfrentei uma maratona de 492 minutos para assistir as tr\u00eas partes do filme \u201cNot\u00edcias da Antiguidade Ideol\u00f3gica: Marx, Eisenstein, O Capital\u201d, do cineasta alem\u00e3o Alexander Kluge. 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