{"id":1758,"date":"2013-05-14T10:42:01","date_gmt":"2013-05-14T13:42:01","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1758"},"modified":"2013-05-14T10:42:01","modified_gmt":"2013-05-14T13:42:01","slug":"um-mercado-opaco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1758","title":{"rendered":"Um mercado opaco"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Capturar.jpg\" alt=\"Capturar\" width=\"852\" height=\"509\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1759\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Capturar.jpg 852w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Capturar-300x179.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 852px) 100vw, 852px\" \/><br \/>\nTomei a iniciativa de escrever a coluna no PublishNews e o blog Oxisdoproblema pensando no p\u00fablico bem focado, e restrito, dos interessados no mercado editorial. Fico muito satisfeito, como sempre dizem os colunistas, com minha meia d\u00fazia de leitores (ou um pouco mais, na m\u00e9dia, t\u00e1 bem&#8230;).<\/p>\n<p>\tQual minha surpresa, portanto, quando a coluna que publiquei na \u00faltima quinta-feira, <a href=\"(http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1744)\" onclick=\"return TrackClick('%28http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D1744%29','Literatura+brasileira+no+exterior%3A+problema+dos+editores%3F')\" target=\"_blank\">Literatura brasileira no exterior: problema dos editores?<\/a> teve cinquenta vezes mais acessos que a m\u00e9dia do blog, e foi replicada em muitos sites, no Facebook e no Tweeter. O Google Analytics \u2013 ferramenta de an\u00e1lise dos acessos \u2013 registrou uma dispers\u00e3o muito grande em suas origens, com pa\u00edses em que eu jamais pensaria encontrar algum leitor. Entre os que comentaram ou replicaram nas redes sociais, pelo que pude perceber, havia uma substancial parcela de escritores.<\/p>\n<p>\tParece que o post mexeu com preocupa\u00e7\u00f5es e sensibilidades das pessoas sobre a posi\u00e7\u00e3o da literatura brasileira no exterior, sobre as dificuldades e os causantes da situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>\tComo disse naquele post, meu interesse pelas pol\u00edticas para o livro e leitura nasceu quando me fiz a pergunta, quando era s\u00f3cio da Marco Zero, sobre a raz\u00e3o pela qual nossos \u00f3timos livros n\u00e3o vendiam o que esper\u00e1vamos. Como sabem os cientistas sociais, o funcionamento das sociedades \u00e9 sempre opaco.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nDesvendar o que h\u00e1 por detr\u00e1s da opacidade do mercado editorial, \u00e9 o que procuro fazer. Tentar analisar as diferentes formas de desenvolvimento, e a conex\u00e3o que possa existir entre os diferentes fen\u00f4menos do mundo editorial.<\/p>\n<p>\tAt\u00e9 porque, mesmo em um plano aned\u00f3tico, os \u00eaxitos encobrem os fracassos, obscurecem as dificuldades e mitificam a si mesmos. E, consequentemente, n\u00e3o permitem compreender a din\u00e2mica real que ocorre entre os diferentes atores desse segmento da sociedade que \u00e9 o mercado editorial, a escrita e o acesso ao livro e \u00e0 leitura.<\/p>\n<p>\tA nossa ind\u00fastria editorial \u00e9 realmente pujante?<\/p>\n<p>Sim, mas, ao analisa-la de perto, observa-se que quase a metade das vendas \u00e9 feita para programas governamentais, particularmente os do livro did\u00e1tico. E fazer isso significa procurar entender os mecanismos de escolha, o processo de sele\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos e de negocia\u00e7\u00e3o das vendas. Assim, alguns detalhes se tornam mais evidentes e organizados para o pesquisador. O FNDE, que comanda os processos de sele\u00e7\u00e3o e compras do MEC, \u00e9 um negociador dur\u00edssimo, e os pre\u00e7os por unidade compensam pelo volume, pois n\u00e3o incluem os custos editoriais. Os autores de livros did\u00e1ticos passam o ano todo viajando, dando cursos gratuitos, isto \u00e9, patrocinados pelas editoras, para professores, etc., para que seus livros sejam conhecidos e, por isso, escolhidos nos processos seletivos. A express\u00e3o \u201co MEC compra\u201d, portanto, oculta um complexo processo at\u00e9 que os livros cheguem \u00e0s m\u00e3os dos alunos.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea dos livros gerais (literatura e ensaios), os problemas s\u00e3o variados. V\u00e3o desde a depend\u00eancia extrema das editoras em rela\u00e7\u00e3o aos livros de grande sucesso, os problemas de descontos para as grandes cadeias de livrarias, e como isso prejudica as livrarias menores (e as editoras menores tamb\u00e9m), as dificuldades que as editoras brasileiras t\u00eam para desenvolver mercados e ocupar todos os nichos poss\u00edveis, as defici\u00eancias nos metadados, que dificultam a descoberta dos livros pela Internet, e os problemas de log\u00edstica. <\/p>\n<p>Para dar um pequeno e sugestivo exemplo desse \u00faltimo tipo de problema, conto uma historinha. Meu pai nasceu em uma cidade do interior do Amazonas, Manicor\u00e9, que est\u00e1 na bacia do rio Madeira. Sabem quanto custa e quanto tempo leva para que os correios entreguem uma encomenda de 300 gramas l\u00e1? R$ 16,20 (um quilo custa R$ 21,90) e leva 24 dias \u00fateis depois do dia da postagem. Ou seja, o morador de Manicor\u00e9 \u2013 e de centenas de munic\u00edpios brasileiros \u2013 precisa querer muuuiiito comprar um livro, ter recursos e tamb\u00e9m muuuiiita paci\u00eancia para receb\u00ea-lo!<\/p>\n<p>Evidentemente, al\u00e9m dos livros escolares entregues pelo MEC, poucos livros chegam em Manicor\u00e9. <\/p>\n<p>E nem vou falar aqui dos segmentos dos livros religiosos e dos livros t\u00e9cnico-cient\u00edficos, com suas quest\u00f5es espec\u00edficas e solu\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m pr\u00f3prias. <\/p>\n<p>Nesse quadro, quando se v\u00ea o sucesso de grandes editoras, \u00e9 f\u00e1cil esquecer as que ficaram no caminho, e perceber tamb\u00e9m os condicionantes e as dificuldades do sucesso. Quando se entra, no Rio de Janeiro em S. Paulo ou em algumas outras cidades, em livrarias que despertam admira\u00e7\u00e3o at\u00e9 em visitantes estrangeiros, n\u00e3o fica evidente a car\u00eancia de livrarias, de qualquer tamanho, na maioria dos munic\u00edpios, ou de quantas livrarias pequenas e m\u00e9dias fecharam, nas grandes cidades, nos \u00faltimos anos. E muitas vezes n\u00e3o se percebe o fen\u00f4meno (relativamente recente), de centenas de feiras e festivais de livros que aumentam o contato entre autores e seus leitores. Onde levar\u00e1 essa intera\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es?<\/p>\n<p>Volta e meia se fazem campanhas publicit\u00e1rias de \u201cest\u00edmulo \u00e0 leitura\u201d. Mobilizam-se artistas para posar de gra\u00e7a nessas campanhas, veiculam-se spots na TV e se colocam cartazes nas ruas, nos metr\u00f4s, nos \u00f4nibus. H\u00e1 alguns anos, uma autoridade municipal se chateou quando comentei, ao ser perguntado por um jornal sobre o que achava da campanha, que, quando as bibliotecas tivessem acervos atualizados, as pessoas iriam at\u00e9 elas com mais prazer, e voltariam. Mas que, se n\u00e3o encontram novidades e livros novos, simplesmente n\u00e3o voltam mais. Sentem-se rejeitados \u2013 e com toda raz\u00e3o \u2013 pelo sistema de bibliotecas, e n\u00e3o adianta campanha se as bibliotecas n\u00e3o oferecem o que os poss\u00edveis leitores desejam.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es colocadas para o fomento do livro e da leitura certamente s\u00e3o complexas. E v\u00e3o desde os problemas gerais de educa\u00e7\u00e3o (e as grandes editoras internacionais se interessam pelo mercado brasileiro porque nossa popula\u00e7\u00e3o de estudantes crescer\u00e1 significativamente ainda por mais vinte ou trinta anos, pelo menos), at\u00e9 as de acesso (bibliotecas e fomento \u00e0s livrarias), as feiras nacionais (e o contato que proporcionam entre os escritores e leitores), os desafios de log\u00edstica, do livro eletr\u00f4nico. Enfim, a listagem \u00e9 muito maior do que a que me disponho fazer aqui.<\/p>\n<p>Mas o importante \u00e9 saber que s\u00e3o problemas interligados. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resolv\u00ea-los contrapondo-os uns aos outros, tipo mercado nacional versus mercado internacional, educa\u00e7\u00e3o versus log\u00edstica, ou seja l\u00e1 o que se queira.<\/p>\n<p>E \u00e9 importante que se compreenda que vivemos processos continuados de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. J\u00e1 se avan\u00e7ou muito desde os anos 1990, depois do brutal retrocesso que foi o governo Collor e seu desmonte das institui\u00e7\u00f5es culturais do pa\u00eds. Apesar de ziguezagueante, \u00e9 um processo acumulativo. E \u00e9 sempre necess\u00e1rio n\u00e3o se jogar fora o beb\u00ea com a \u00e1gua do banho. E continuar avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Com mais de trinta anos de viv\u00eancia no mercado editorial, eu busco mais aprender a fazer as perguntas certas do que qualquer outra coisa. Fazer as perguntas certas para as v\u00e1rias personas sociais, e procurar verificar se os paradigmas (no conceito de Thomas Kuhn) se sustentam ou n\u00e3o. At\u00e9 porque, ao contr\u00e1rio das ci\u00eancias f\u00edsicas, a sociedade muda ao mesmo tempo em que s\u00e3o feitas as perguntas e se elaboram os discursos. E, nessa situa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as e incertezas, sobra pouco espa\u00e7o para afirma\u00e7\u00f5es taxativas, e necessidade de muito empenho para come\u00e7ar a vislumbrar o que se deseja compreender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomei a iniciativa de escrever a coluna no PublishNews e o blog Oxisdoproblema pensando no p\u00fablico bem focado, e restrito, dos interessados no mercado editorial. Fico muito satisfeito, como sempre dizem os colunistas, com minha meia d\u00fazia de leitores (ou um pouco mais, na m\u00e9dia, t\u00e1 bem&#8230;). 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