{"id":1575,"date":"2013-02-06T10:54:32","date_gmt":"2013-02-06T13:54:32","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1575"},"modified":"2013-02-06T10:54:32","modified_gmt":"2013-02-06T13:54:32","slug":"relativa-prosperidade-absoluta-indigencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1575","title":{"rendered":"&#8220;Relativa prosperidade, absoluta indig\u00eancia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O ensaio do prof. Vladimir Safatle na revista Carta Capital 734 se diferencia, sob v\u00e1rios aspectos, da mat\u00e9ria de Rosane Pavan sobre a qual comentei em post anterior. A primeira, e talvez mais importante, \u00e9 que se trata de um breve ensaio, enquanto a outra era uma reportagem.<br \/>\n\tEntretanto, tal como a outra, pretende abranger em um s\u00f3 escopo coisas que, a meu ver, s\u00e3o diferentes. Ou, melhor dito, t\u00eam a apar\u00eancia de estar albergadas em um \u00fanico conceito, o de &#8220;cultura brasileira&#8221;, e misturam temas que merecem abordagens diferenciadas.<br \/>\n\tReclama o prof. Safatle da aus\u00eancia de an\u00e1lises dos &#8220;rumos da cultura brasileira&#8221;, &#8220;como se julgamentos de valor no campo da cultura fossem exerc\u00edcios proibidos, pois seriam pretensas manifesta\u00e7\u00f5es de uma vontade de submeter a multiplicidade da produ\u00e7\u00e3o cultural a padr\u00f5es, no fundo particulares de avalia\u00e7\u00e3o&#8221;. Segundo ele, os momentos anteriores de crescimento econ\u00f4mico brasileiro foram traduzidos em &#8220;momentos de grande explos\u00e3o criativa&#8221;, mesmo na ditadura, e n\u00e3o s\u00e3o assim agora.<br \/>\n\t(Cabe sempre dizer: estou me dispondo a comentar esse n\u00famero da Carta Capital motivado principalmente pelo respeito que tenho pela publica\u00e7\u00e3o e pelos autores dos textos. N\u00e3o gastaria meu tempo com barbaridades de colunistas e pseudo jornalistas que babujam calhordices em outros seman\u00e1rios). Dito isso&#8230;<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Se explicitasse que fala apenas, e t\u00e3o somente, da chamada &#8220;alta cultura&#8221;, pouco teria a contradizer ao artigo do prof. Safatle, particularmente nesse aspecto. O campo das artes (o campo no sentido que lhe d\u00e1 Bourdieu) sofre, por aqui, de uma imensa anemia cr\u00edtica e o predom\u00ednio do compadrio e das afinidades \u00e9, infelizmente, avassalador.<br \/>\n\tMas tal cultura n\u00e3o \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o exclusiva da criatividade dos diferentes segmentos da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Posso concordar com a afirmativa de que &#8220;sem cr\u00edtica cultural n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel consolidar uma cena art\u00edstica com capacidade de induzir novos artistas a dar visibilidade a problemas comuns&#8221;. Mas, sem diferenciar e explicitar claramente do que fala, o prof. Safatle cai na mesma armadilha que acusa a grande imprensa: a de desconhecer o que acontece fora do campo constitu\u00eddo da &#8220;alta cultura&#8221;.<br \/>\n\tH\u00e1 alguns anos participei de um p\u00e9riplo de divulga\u00e7\u00e3o de uma das edi\u00e7\u00f5es do programa &#8220;Rumos&#8221;, do Ita\u00fa Cultural. Sim, do Ita\u00fa Cultural, institui\u00e7\u00e3o financiada pelo banco, em parte com recursos da ren\u00fancia fiscal, e em parte com recursos pr\u00f3prios. Essa edi\u00e7\u00e3o do &#8220;Rumos&#8221; tinha duas vertentes. A primeira cuidava do levantamento da produ\u00e7\u00e3o musical que se fazia por todos os estados do pa\u00eds. O objetivo do programa \u00e9 fazer uma esp\u00e9cie de mapeamento dessa produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA segunda vertente, na qual eu estava mais ligado, procurava motivar grupos de todas as regi\u00f5es a desenvolver um trabalho de &#8220;recria\u00e7\u00e3o&#8221; formal de textos liter\u00e1rios. Foram selecionados v\u00e1rios contos, de escritores reconhecidos, que deveriam ser transformados, primeiro em um roteiro para um programa de r\u00e1dio, e depois no pr\u00f3prio programa. Os participantes poderiam, entretanto, desenvolver suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e transform\u00e1-las nessas duas outras manifesta\u00e7\u00f5es, o roteiro e o programa. A ideia era ver como, espalhados pelo pa\u00eds, grupos se propunham a experimentar essas permuta\u00e7\u00f5es do texto liter\u00e1rio.<br \/>\nForam produzidos dois CDs, distribu\u00eddos gratuitamente pelo Ita\u00fa Cultural para centenas de institui\u00e7\u00f5es, e disponibilizados pela Internet.<br \/>\n\tPor\u00e9m, o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o na viagem de quinze dias pelo Par\u00e1, Maranh\u00e3o, Roraima, Amazonas, Amap\u00e1 e Rond\u00f4nia, foi a vitalidade dos grupos de m\u00fasica, e especialmente os grupos de hip-hop. Em sua maioria constitu\u00eddos por jovens das periferias que realmente antropofagizavam essa linguagem importada da cultura dos Estados Unidos, j\u00e1 transformada nas periferias das capitais do sudeste, e a transformavam em um eficaz instrumento de express\u00e3o art\u00edstica. Quase sempre vinculados a movimentos de bairros e de periferia, muito ligados \u00e0 quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, e em busca de uma articula\u00e7\u00e3o com os demais grupos que faziam o mesmo trabalho nos outros estados.<br \/>\n\tCertamente n\u00e3o eram &#8220;alta cultura&#8221;, e evidentemente passavam muito por fora do radar da imprensa, dos cr\u00edticos e da ind\u00fastria cultural. Mas, certamente, faziam parte do que se pode chamar de &#8220;economia criativa&#8221;. E faziam parte tamb\u00e9m dos esfor\u00e7os daqueles grupos de encontrar uma voz pol\u00edtica e social para expressar seus anseios, tanto os art\u00edsticos quanto os de integra\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nEsses grupos n\u00e3o estavam, pelo que vi (e n\u00e3o vi tudo, evidentemente), preocupados com a afirma\u00e7\u00e3o da &#8220;cultura popular&#8221;. Queriam, simplesmente, encontrar meios de expressar de um modo que consideravam art\u00edstico, seus anseios, e preocupa\u00e7\u00f5es. Conseguir resultados materiais ou reconhecimento era, evidentemente, um subproduto. Queriam, sobretudo, se expressar. Tal como os poetas que se re\u00fanem do Sarau da Cooperifa e nos mais de cinquenta saraus semelhantes que se espalham por S. Paulo, por exemplo. N\u00e3o s\u00e3o &#8220;centros culturais&#8221; patrocinados por ONGs (embora ningu\u00e9m seja bobo de recusar ajuda). S\u00e3o a simples manifesta\u00e7\u00e3o de uma explos\u00e3o de criatividade, uma vers\u00e3o do &#8220;n\u00e3o queremos s\u00f3 comida, mas comida, divers\u00e3o e arte&#8221; da can\u00e7\u00e3o dos Tit\u00e3s.<br \/>\n\tPara esses grupos, e os tantos outros similares que fazem m\u00fasica, poesia, teatro, dan\u00e7a e sei mais l\u00e1 o que, a sua express\u00e3o art\u00edstica certamente n\u00e3o se apresenta &#8220;como um fim em si mesmo&#8221;, mas tampouco \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 &#8220;um meio para conseguir outras coisas&#8221;. Faz parte da vida deles, complexa e batalhadora, e nem por isso alheia \u00e0 sensibilidade art\u00edstica.<br \/>\n\tEssa vis\u00e3o da &#8220;autonomia da cultura&#8221;, a rigor, nunca existiu, salvo para os moradores de torres de marfim, sejam essas as dos castelos universit\u00e1rios ou dos rom\u00e2nticos \u00e0 moda do s\u00e9culo XIX, morrendo de consump\u00e7\u00e3o na busca da realiza\u00e7\u00e3o de seus altos ideais est\u00e9ticos.<br \/>\n\tLamentar uma suposta &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; da cultura \u00e9 tarefa v\u00e3. Em que momento, pergunto, a produ\u00e7\u00e3o cultural esteve afastada da quest\u00e3o de quem a financia? De minha parte, n\u00e3o \u00e9 de hoje que critico muitas das injun\u00e7\u00f5es da Lei Rouanet, inclusive e particularmente seu uso pelas empresas para patroc\u00ednio de eventos (ef\u00eameros) ou de transfer\u00eancia direta de recursos para a produ\u00e7\u00e3o (i.e., para os artistas que, no caso, ser\u00e3o necessariamente luminares bem conectados) em vez de direcionados para melhorar o acesso e a frui\u00e7\u00e3o, pela popula\u00e7\u00e3o, dos produtos culturais. Debater a economia da cultura e os mecanismos de financiamento n\u00e3o \u00e9 &#8220;financeirizar&#8221; a quest\u00e3o, e sim buscar formas mais transparentes e democr\u00e1ticas de permitir o afloramento das mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<br \/>\n\t\u00c9 certo que elementos de espontaneidade est\u00e3o presentes nessas manifesta\u00e7\u00f5es da arte dita popular, e que a cultura do improviso, do autodidatismo, deve ser combatida, tal como entre os cultores das &#8220;artes nobres&#8221; &#8211; ou os nobres da cultura. E a import\u00e2ncia de se estabelecer uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o, com a constitui\u00e7\u00e3o de escolas de artes, conservat\u00f3rios e escolas de cinema, como assinala o prof. Safatle, est\u00e1 mais que devida. Como tamb\u00e9m a\u00e7\u00f5es muito mais amplas de constitui\u00e7\u00e3o de museus, teatros, bibliotecas e outros equipamentos culturais que possibilitem troca &#8211; os artistas &#8220;constitu\u00eddos&#8221; se apresentando para novos p\u00fablicos e os &#8220;neo&#8221; artistas podendo encontrar seu p\u00fablico.<br \/>\n\t\u00c9 de se esperar que o pacote de mat\u00e9rias e ensaios desse n\u00famero da Carta Capital conduza a um aprofundamento do debate, e nisso reside a principal virtude da publica\u00e7\u00e3o da revista. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ensaio do prof. Vladimir Safatle na revista Carta Capital 734 se diferencia, sob v\u00e1rios aspectos, da mat\u00e9ria de Rosane Pavan sobre a qual comentei em post anterior. A primeira, e talvez mais importante, \u00e9 que se trata de um breve ensaio, enquanto a outra era uma reportagem. 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