{"id":1570,"date":"2013-02-05T10:26:16","date_gmt":"2013-02-05T13:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1570"},"modified":"2013-02-05T10:26:16","modified_gmt":"2013-02-05T13:26:16","slug":"o-vazio-da-cultura-ou-a-imbecilizacao-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1570","title":{"rendered":"&#8220;O Vazio da cultura (ou a imbeciliza\u00e7\u00e3o do Brasil)&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Esse t\u00edtulo foi a mat\u00e9ria de capa da revista CARTA CAPITAL desta semana. <\/p>\n<p>Mino Carta, come\u00e7a seu editorial afirmando que \u201ch\u00e1 muito tempo o Brasil n\u00e3o produz escritores como Guimar\u00e3es Rosa ou Gilberto Freyre, [&#8230;] pintores como C\u00e2ndido Portinari [&#8230;] historiadores como Raymundo Faoro [&#8230;] polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues [&#8230;] jornalistas como Claudio Abramo e mesmo rep\u00f3rteres como Rubem Braga e Joel Silveira. H\u00e1 muito tempo&#8230;\u201c <\/p>\n<p>Mais adiante, a mat\u00e9ria de capa, assinada por Rose Pavan (\u201cO Belo n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda \u2013 A submiss\u00e3o ao mercado impede que a arte relevante apare\u00e7a\u201c), segue pela mesma toada. O pacote sobre o assunto prossegue com uma cr\u00edtica ao filme O Som ao Redor, escrita desde Nova York por Francisco Quinteiro Pires, um ensaio do fil\u00f3sofo Vladimir Safatle (\u201cRelativa prosperidade, absoluta indig\u00eancia\u201c), outro ensaio de Daniela Castro sobre o mercado de artes pl\u00e1sticas e termina com uma entrevista do prof. Alfredo Bosi (\u201cA esperan\u00e7a em tempos de magra colheita\u201c).<\/p>\n<p>Um pacota\u00e7o. Escrito por pessoas que admiro e respeito (embora n\u00e3o conhe\u00e7a a cr\u00edtica de artes) em uma revista que sobressai diante da mediocridade ou da pura m\u00e1 f\u00e9 das outras semanais.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Mas quero aproveitar a oportunidade para discutir algumas coisas, especialmente, neste texto, a mat\u00e9ria de Rosane Pavan.<\/p>\n<p>E bom come\u00e7ar por uma observa\u00e7\u00e3o do prof. Bosi: \u201cN\u00e3o me parece que se sustente hoje a ideia de que haja uma cultura brasileira, nacional, \u00fanica e homog\u00eanea. Seria necess\u00e1rio reconhecer a exist\u00eancia de tempos e espa\u00e7os diferenciados: h\u00e1 uma cultura letrada ou erudita, uma cultura popular de cunho folcl\u00f3rico, uma cultura de massa ou ind\u00fastria cultural, que atinge v\u00e1rias classes e, por hip\u00f3tese, uma cultura criadora individualizada. Cada uma tem seu dinamismo pr\u00f3prio, embora as intera\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam poucas\u201c. Em outro momento, diz o professor que \u201cHoje, certamente, os meios de instru\u00e7\u00e3o superior s\u00e3o muito mais acess\u00edveis aos jovens de talento. Fiquemos \u00e0 espera de criadores do mesmo n\u00edvel. H\u00e1 boas promessas. Quem viver ver\u00e1\u201c.<\/p>\n<p>O professor Bosi toca em um ponto essencial de an\u00e1lise, que parece ter sido esquecido pelos demais. \u00c9 ilus\u00e3o pensar em um \u201cvazio da cultura\u201c em abstrato, e lamentar a suposta aus\u00eancia de grandes nomes nos diferentes campos da produ\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea. Ao criar uma contraposi\u00e7\u00e3o entre grandes nomes do passado, por exemplo na m\u00fasica popular, com \u201ca repetida glorifica\u00e7\u00e3o do amor besta hoje promovida por Ivete Sangalo, Claudia Leitte e outros sucessivos semideuses da malha\u00e7\u00e3o musical\u201c, compara\u00e7\u00e3o que vai se repetindo nas outras \u00e1reas das artes, Rosane Pavan faz exatamente o contr\u00e1rio do que pede o prof. Bosi e mistura alhos com bugalhos.<\/p>\n<p>Diz a jornalista, mais adiante: \u201cPor que dever\u00edamos ter por v\u00e1lida uma obra como a de Paulo Coelho, quando, para a vida da cultura, ela conta apenas como um dado da sociologia?\u201c<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o consigo entender essa dissocia\u00e7\u00e3o. Aparentemente a jornalista quer dizer que as obras da \u201cbaixa cultura\u201c n\u00e3o merecem a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica. De certa maneira, tem raz\u00e3o. A cr\u00edtica das artes, como diz Bourdieu, est\u00e1 dentro do campo espec\u00edfico do que analisa. Ou seja, \u00e9 coisa para os iniciados e interessados especificamente nela. Paulo Coelho n\u00e3o est\u00e1 dentro do radar dos cr\u00edticos da alta literatura (talvez s\u00f3 para ser negado como autor literariamente relevante). Mas, como assinala corretamente o professor Bosi, embora haja dinamismos pr\u00f3prios, as intera\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o poucas. Isso n\u00e3o diminui em nada sua import\u00e2ncia como produtor de bens culturais. Ou seja, sua import\u00e2ncia para a cultura e para a sociologia da cultura.<\/p>\n<p>Uma das coisas que mais me custou, quando comecei a refletir sobre quest\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura, foi aprender a deixar de ser arrogante e pensar que apenas os meus par\u00e2metros fossem capazes de valorar os livros. Nunca li Paulo Coelho, nem pretendo empreender essa aventura, e nem vou usar o argumento simpl\u00f3rio de que ele \u00e9 elogiado por intelectuais e pol\u00edticos de outras plagas (lembram quando o Chirac fez men\u00e7\u00e3o a ele em um discurso oficial aqui no Brasil, depois de t\u00ea-lo condecorado?). A quest\u00e3o \u00e9 mais simples. Para uma certa camada de pessoas, os livros de Paulo Coelho \u2013 e de tantos outros autores do g\u00eanero \u2013 respondem \u00e0s suas necessidades intelectuais e emocionais. N\u00e3o \u00e0s minhas, mas sim \u00e0s dessas pessoas. A quest\u00e3o do Paulo Coelho n\u00e3o se resolve desqualificando o autor, seus livros e quem os l\u00ea. N\u00e3o falta intelig\u00eancia aos leitores do Paulo Coelho e similares, que n\u00e3o s\u00e3o imbecis, como sugere a mat\u00e9ria. Elas simplesmente encontram ali o que buscam, muito embora possam fazer isso condicionados pelos mecanismos da ind\u00fastria cultural.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 bom para o \u201cn\u00edvel intelectual\u201c do pa\u00eds ou simplesmente sintoma de imbeciliza\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Nem uma coisa, nem outra. <\/p>\n<p>Trata-se, simplesmente, de um fen\u00f4meno da sociedade capitalista, que induz \u00e0 leitura desses livros. Sociologicamente falando, sim, pode-se dizer que, se mudarem as condi\u00e7\u00f5es sociais, outros tipos de livros servir\u00e3o de alimento para determinados tipos de leitores. Em sociedades fundamentalistas religiosas, o que ser\u00e1 &#8211; e \u00e9 &#8211; oferecido ser\u00e1 a vers\u00e3o mais cretinizante das doutrinas. No experimento do socialismo \u201creal\u201c o que era disponibilizado, por sua vez, era a propaganda mais chula do \u201crealismo socialista\u201c.<\/p>\n<p>Isso tudo n\u00e3o impediu e nem impede que crentes de todas as religi\u00f5es produzam obras liter\u00e1rias e filos\u00f3ficas do mais alto n\u00edvel, e que a literatura de qualidade tamb\u00e9m haja florescido sob o tac\u00e3o estalinista.<br \/>\nPaulo Coelho, como Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Michel Tel\u00f3 e outros mencionados na mat\u00e9ria, quase certamente n\u00e3o est\u00e3o preocupados com a (des)valoriza\u00e7\u00e3o que a cr\u00edtica lhes fa\u00e7a. Simplesmente, como aponta o prof. Bosi, est\u00e3o dentro de outra esfera, sujeitos a outra din\u00e2mica.<\/p>\n<p>O contexto hist\u00f3rico \u00e9 fundamental. Se hoje o mercado \u00e9 vilipendiado (ou incensado, dependendo da perspectiva), o que dizer dos mecenas do Renascimento. Algu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, acha que Michelangelo, Da Vinci e outros foram financiados pelos M\u00e9dici, pelo papado ou por outros mecenas, porque esses queriam deixar obras fundamentais para a humanidade? De jeito nenhum. Financiavam os artistas por conta de seu projeto de poder e domina\u00e7\u00e3o, e sorte dos grandes renascentistas terem achado quem os sustentasse.  Escandalizar-se pelo fato das grandes cole\u00e7\u00f5es de arte e muitas outras atividades da chamada \u201calta cultura\u201c serem financiadas hoje pelos bancos e pelas grandes empresas \u00e9 pat\u00e9tico, e s\u00f3 revela uma indiferen\u00e7a \u00e0 hist\u00f3ria da arte. Trata-se, simplesmente, do mesmo mecanismo presente em todas as sociedades de classe. O poder brilha com a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, e os dominados se viram como podem, geralmente com aquilo que as elites consideram de segunda categoria, \u201cn\u00e3o arte\u201c.<\/p>\n<p>No Estad\u00e3o de s\u00e1bado 2 de fevereiro, no Sab\u00e1tico, Silviano Santiago discorre sobre a imensa quantidade de ex-votos de cera, muitos de alt\u00edssima qualidade, inclusive tr\u00eas encomendadas a Orsino Benintendi pelos amigos de Louren\u00e7o de M\u00e9dici para comemorar sua sobreviv\u00eancia ao atentado dos Pazzi, que foram derretidos no decorrer dos tempos para a fabrica\u00e7\u00e3o de velas banais. Esses ex-votos, e muitos outros exemplos, foram estudados em uma colet\u00e2nea de ensaios publicado pelo Instituo de Pesquisas Getty, sob o t\u00edtulo de \u201cEphemereal Bodies\u201c. <\/p>\n<p>Fa\u00e7o essa men\u00e7\u00e3o para lembrar que o que sobreviveu da \u00e9poca foram as obras em m\u00e1rmore e outros materiais nobres encomendadas pelos senhores mecenas. E pergunto, qual a diferen\u00e7a entre esses corpos ef\u00eameros e muito do que se faz hoje e se fez pelos s\u00e9culos afora? <\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es para que determinadas obram sobrevivam, se tornem cl\u00e1ssicas ou simplesmente desapare\u00e7am, n\u00e3o dependem da vontade dos autores ou dos cr\u00edticos da \u00e9poca.  O ensaio A Virada, de Stephen Greenblatt, \u00e9 um belo exemplo de como o acaso se manifesta na descoberta de um livro essencial para a compreens\u00e3o da filosofia de Dem\u00f3crito, pelas m\u00e3os de um amanuense corrupto e secret\u00e1rio de um dos papas mais terr\u00edveis da hist\u00f3ria (o primeiro Jo\u00e3o XXIII), e que \u00e9 um dos textos fundamentais da modernidade.<\/p>\n<p>Em uma sociedade de classes, embora democr\u00e1tica, pensar que \u201ca arte\u201c possa refletir o todo de um pa\u00eds \u00e9, no m\u00ednimo, ingenuidade.<br \/>\nExiste, de fato, uma enorme aus\u00eancia, ou insufici\u00eancia, na a\u00e7\u00e3o do Estado na quest\u00e3o cultural. Mas n\u00e3o por falta de est\u00edmulo \u00e0 \u201cgrande cultura\u201c e sim pela falta de condi\u00e7\u00f5es de alcan\u00e7ar o conjunto dos bens e produtos culturais.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura deveriam financiar sobretudo o acesso da popula\u00e7\u00e3o aos bens culturais, do modo mais abrangente. O cidad\u00e3o, que paga impostos, tem o direito de poder retirar, nas bibliotecas p\u00fablicas, o livro que desejar ler, seja Paulo Coelho, Zilbia Gasparetto ou Padre Marcelo. Mas o Estado tem tamb\u00e9m o dever de manter pessoal capacitado para mostrar a esse cidad\u00e3o \u2013 respeitando sua vontade \u2013 que existem outras alternativas. E o acervo deve ter todas essas alternativas, de Graciliano Ramos e Guimar\u00e3es Rosa a Plat\u00e3o e Marx. Se h\u00e1 realmente algum risco de imbeciliza\u00e7\u00e3o nacional, este resulta precisamente da timidez de abrir esses espa\u00e7os de acesso aos livros, ao cinema, \u00e0s obras de arte, \u00e0 m\u00fasica erudita e a tantas manifesta\u00e7\u00f5es da cultura e das artes populares.<\/p>\n<p>Sinceramente, eu me pergunto o que esse conjunto de mat\u00e9rias elitista traz de bom como an\u00e1lise da cultura brasileira, seja da \u201calta\u201c como da \u201cbaixa cultura. A mat\u00e9ria simplesmente ignora o que acontece no dito \u201candar de baixo\u201c e sua autora parece que n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o ao que disse o professor Bosi.<\/p>\n<p>O que percebo em nosso pa\u00eds \u00e9, principalmente, uma enorme diversidade e dinamismo cultural. Como falar de cultura sem mencionar o rap e o hip-hop na m\u00fasica? Quem sabe se a linguagem fragmentada de muitos dos MCs que est\u00e3o por a\u00ed n\u00e3o \u00e9 a forma contempor\u00e2nea de um Guimar\u00e3es Rosa? Movimentos como os saraus de poesia que acontecem pela periferia de S. Paulo talvez n\u00e3o sejam do gosto do erudito poeta Claudio Willer, citado para desancar o Paulo Coelho na mat\u00e9ria, mas quem j\u00e1 foi ao sarau da Cooperifa sabe perfeitamente que n\u00e3o est\u00e1 diante de um p\u00fablico imbecilizado, ainda que eventualmente possa ser um p\u00fablico que assista, tamb\u00e9m, \u00e0 V\u00eanus Platinada.<\/p>\n<p>Talvez ainda existam pessoas t\u00e3o encerradas em torres de marfim que vivam exclusivamente no mundo da chamada alta cultura. O comum dos mortais n\u00e3o \u00e9 assim, e absorve  os mais variados bens culturais. <\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil mencionar a milit\u00e2ncia pr\u00f3 mediocridade de boa parte da imprensa. Mas a li\u00e7\u00e3o deveria come\u00e7ar por casa. Este n\u00famero da Carta Capital \u2013 que, repito, \u00e9 a melhor revista semanal do pa\u00eds e a que leio todas as semanas \u2013 n\u00e3o tem nenhuma resenha de livro. Menciona os autores can\u00f4nicos para contrap\u00f4-los ao lixo, tem colunas de culin\u00e1ria, estilo e, como dizia Ivan Lessa, cuida da \u201chorta da Luzia\u201c de filmes antigos. Mas n\u00e3o achou nenhum romance que valesse a pena ser comentado para os leitores.<\/p>\n<p>Bem, pelo menos h\u00e1 uma coer\u00eancia nisso. A reda\u00e7\u00e3o deve achar que tudo que se publica hoje no Brasil \u00e9 lixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse t\u00edtulo foi a mat\u00e9ria de capa da revista CARTA CAPITAL desta semana. 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