{"id":1531,"date":"2013-01-08T11:08:16","date_gmt":"2013-01-08T14:08:16","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1531"},"modified":"2013-01-08T11:08:16","modified_gmt":"2013-01-08T14:08:16","slug":"venda-de-espacos-ou-curadoria-serao-essas-as-alternativas-para-as-livrarias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1531","title":{"rendered":"VENDA DE ESPA\u00c7OS OU CURADORIA \u2013 SER\u00c3O ESSAS AS ALTERNATIVAS PARA AS LIVRARIAS?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Capturar.png\" alt=\"Capturar\" width=\"846\" height=\"498\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1532\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Capturar.png 846w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Capturar-300x176.png 300w\" sizes=\"(max-width: 846px) 100vw, 846px\" \/><br \/>\nNeste final de ano foram publicadas duas mat\u00e9rias sobre livrarias que me chamaram muita aten\u00e7\u00e3o. As duas tratavam de ambientes das lojas e sobre seu estoque, vistas de maneiras muito, mas muito distintas.<\/p>\n<p>A primeira, publicada na Folha de S. Paulo, no dia <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/cHFwd');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/cHFwd\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2FcHFwd','29+de+dezembro')\" target=\"_blank\">29 de dezembro<\/a>,  tinha a manchete \u201cConcorr\u00eancia inflaciona aluguel de espa\u00e7os nas livrarias e reduz variedades de estoques\u201d. Era assinada pela Raquel Cozer, que cobre a \u00e1rea para o jornal paulista e mant\u00e9m tamb\u00e9m um blog, o \u201c<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/cHFE5');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/cHFE5\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2FcHFE5','Biblioteca+de+Raquel')\" target=\"_blank\">Biblioteca de Raquel<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>A segunda mat\u00e9ria, publicada no \u00faltimo dia do ano n\u2019O Globo, era assinada por Priscila Guilayn, correspondente do jornal na Espanha, tinha como manchete \u201c<a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/cHFPe');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/cHFPe\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2FcHFPe','Em+Madri%2C+um+novo+pal%C3%A1cio+para+a+literatura')\" target=\"_blank\">Em Madri, um novo pal\u00e1cio para a literatura<\/a>\u201d   e tratava da inaugura\u00e7\u00e3o de uma grande livraria anexa ao Museu Reyna Sofia, com uma \u00e1rea de 1.200 m2, a 500 metros de dist\u00e2ncia da Puerta del Sol, um dos pontos de maior movimenta\u00e7\u00e3o da capital espanhola.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria da Raquel Cozer destacava como os espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o em cadeias de livrarias eram objeto de concorr\u00eancia cada vez mais acirrada entre as editoras, na busca de destaque para os livros que consideravam como seus candidatos a best-sellers para as vendas de Natal. Na verdade, \u201ccandidatos\u201d \u00e9 um termo enganador. Os investimentos das editoras nesses t\u00edtulos os levavam quase que inexoravelmente para as listas dos mais vendidos e isso, vice-versa, aumentava a sua demanda nas lojas.<br \/>\n<!--more--><br \/>\n<em>\u201cAs livrarias est\u00e3o se profissionalizando. Al\u00e9m do espa\u00e7o f\u00edsico para comercializar o livro, como antigamente, ela hoje precisa se rentabilizar. Sem isso, a conta n\u00e3o fecha&#8221;, diz Rodrigo Castro, diretor comercial da Cultura. A rede da fam\u00edlia Herz cobra at\u00e9 R$ 5.000 por 15 dias de exposi\u00e7\u00e3o na vitrine, com adesivagem, e R$ 2.000 pelos &#8220;cubos&#8221;, caixas de madeira afastadas das g\u00f4ndolas\u201d<\/em>, dizia a reportagem da FSP.<\/p>\n<p>Algumas redes afirmam \u2013 e eu, na minha modesta experi\u00eancia de mercado me permito duvidar \u2013 que possuem espa\u00e7os n\u00e3o sujeitos a negocia\u00e7\u00f5es. Mas, deixemos isso de lado. O fato \u00e9 que existem espa\u00e7os nos quais, em nome da rentabilidade, as livrarias desistem do seu papel definidor do que apresentam \u2013 e, por conseguinte, na constitui\u00e7\u00e3o da \u201ccara\u201d da livraria\u201d \u2013 em troca de uma remunera\u00e7\u00e3o imediata, seja em dinheiro, seja em produtos, dada pelas editoras. Essas, ent\u00e3o, passam a \u201cadministrar\u201d parcelas cada vez mais substanciais do espa\u00e7o das lojas de livros.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria sobre a \u201cLa Central\u201d, a nova livraria madrilena, enfatizava outros aspectos muito distintos. Destacava a fila que se criou na inaugura\u00e7\u00e3o da livraria, e a aud\u00e1cia da rede \u2013 j\u00e1 tem duas lojas em Barcelona e outra em Madri, desde 2005 \u2013 em ir contra a corrente da crise econ\u00f4mica, promovendo essa expans\u00e3o em um momento em que v\u00e1rias livrarias e pequenas cadeias fechavam na Espanha. <\/p>\n<p>A mat\u00e9ria sobre \u201cLa Central\u201d destacava outros aspectos: a ampla variedade do estoque, inclusive de literatura estrangeira. Carmen Villarino, professora de Literatura Portuguesa em Santiago de Compostela, me escreveu dizendo que a sele\u00e7\u00e3o de livros de literatura do Brasil na livraria era, sem d\u00favida, a melhor e mais extensa que ela conhecia. A mat\u00e9ria destacava, tamb\u00e9m, que \u201c<em>a livraria oferece trajet\u00f3rias tem\u00e1ticas atrav\u00e9s de livros que abordam, cada um \u00e0 sua maneira, o mesmo assunto: eles ficam pendurados em um aramado instalado em uma parede de tijolo aparente<\/em>\u201d. <\/p>\n<p>Uma busca pela Internet revela a admira\u00e7\u00e3o de centenas de frequentadores para com a \u201cLa Central\u201d, tanto pelo ambiente quanto pelo estoque e a facilidade de encontrar os livros desejados. A livraria, que funcionada anexa ao segundo maior museu de arte da capital espanhola, apresenta tamb\u00e9m uma vasta e bem escolhida se\u00e7\u00e3o de livros de arte. Livros geralmente muito mais caros que as brochuras de literatura.<\/p>\n<p>Obviamente os propriet\u00e1rios da \u201cLa Central\u201d est\u00e3o preocupados com a rentabilidade da loja. Ali est\u00e3o instalados um bistr\u00f4 e um bar, com rentabilidade certamente maior que os simples caf\u00e9s que encontramos em algumas livrarias por aqui.<\/p>\n<p>Permitam-me aqui fazer uma cita\u00e7\u00e3o de um dos livros que marcam minha percep\u00e7\u00e3o do mercado editorial, antes das minhas conclus\u00f5es sobre as duas mat\u00e9rias. S\u00e3o dois par\u00e1grafos tirados das p\u00e1ginas 82 e 83 de \u201c<strong>Livros Demais! Sobre ler, escrever e publicar<\/strong>\u201d, de Gabriel Zaid, que traduzi e foi publicado pela <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/cIvis');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/cIvis\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2FcIvis','Summus')\" target=\"_blank\">Summus<\/a>.<\/p>\n<p><em>\u201cUma boa livraria de interesse geral que tenha trinta mil t\u00edtulos n\u00e3o contem nem 1% de todos livros dispon\u00edveis. Supondo que a demanda fosse a mesma para cada t\u00edtulo, a possibilidade de a loja n\u00e3o ter um seria de 99%. Se, nessas circunst\u00e2ncias, um estranho chegasse com uma venda nos olhos para tomar conta da loja e respondesse: \u201cN\u00e3o temos esse livro\u201d a qualquer pedido, estaria certo 99% das vezes. Na pr\u00e1tica, o servi\u00e7o falha numa porcentagem menor de casos, porque a demanda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ampla (n\u00e3o \u00e9 a mesma para todos os t\u00edtulos, e concentra-se em determinados t\u00edtulos), e porque o livreiro a antecipa com um grau de sucesso e tamb\u00e9m a molda dando \u00e0 sua loja certa identidade (grifo meu, FJL) e, finalmente, porque os leitores ajustam sua expectativa ao tipo de loja na qual compram. O ajuste \u00e9 rec\u00edproco: o livreiro imagina a constela\u00e7\u00e3o de livros que se adequar\u00e3o perfeitamente a seus leitores e cria o tipo de loja que atrai clientes com expectativas similares. [&#8230;] Em uma boa livraria, a oferta e a demanda s\u00e3o fortuitas, mas n\u00e3o ca\u00f3ticas: t\u00eam uma fisionomia e uma identidade reconhec\u00edvel, como constela\u00e7\u00f5es. A probabilidade de encontrar um livro em particular aumenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 clareza do foco da loja, \u00e0 dilig\u00eancia e esperteza do livreiro e o tamanho do empreendimento. [&#8230;] O importante \u00e9 a maneira como o todo \u00e9 moldado com respeito a certos assuntos, crit\u00e9rios, locais e clientela.\u201d<\/em><\/p>\n<p>As livrarias brasileiras \u2013 e em particular as grandes redes, e at\u00e9 mesmo redes que antes eram conhecidas pela sele\u00e7\u00e3o de livros de qualidade, como a Cultura \u2013 est\u00e3o abdicando cada vez mais desse papel de curadoria e cria\u00e7\u00e3o de comunidades de leitores, aqueles clientes fieis que confiam naquele tipo de livraria para buscar o tipo de livro que gostam \u2013 ou precisam \u2013 ler.<\/p>\n<p>A raiz dessa hist\u00f3ria j\u00e1 mencionei em outros posts: as grande editoras oferecem descontos maiores e vantagens desproporcionais para essas cadeias, para empurrar o que j\u00e1 definiram como seus candidatos a best-sellers. Isso n\u00e3o \u00e9 feito impunemente: para dar maiores descontos e vantagens, o pre\u00e7o de capa \u201cnominal\u201d \u00e9 aumentado. As pequenas livrarias \u2013 que n\u00e3o recebem essas \u201cvantagens\u201d das editoras \u2013 n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de concorrer no pre\u00e7o de venda ao p\u00fablico desses best-sellers.<\/p>\n<p>Evidentemente cada um tem o direito de estabelecer as estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia, de \u201crentabilidade\u201d, que lhes pare\u00e7a melhor para seu neg\u00f3cio. Mas vender o espa\u00e7o \u2013 na verdade, a \u201calma\u201d da livraria, que \u00e9 sua fei\u00e7\u00e3o global \u2013 para que outros definam essa cara, pode ter consequ\u00eancias desastrosas para o futuro das pr\u00f3prias redes.<\/p>\n<p>Nenhuma rede pode competir em pre\u00e7o e variedade com o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico. N\u00e3o \u00e9 preciso o exemplo da Amazon para se demonstrar isso. A revitaliza\u00e7\u00e3o dos fundos de listas das editoras, e do cat\u00e1logo das editoras de ensaios, que aconteceu com o advento da Internet j\u00e1 \u00e9 prova suficiente. Hoje em dia v\u00e1rias editoras de menor porte j\u00e1 est\u00e3o com uma parcela muito significativa de suas vendas feitas atrav\u00e9s do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, apesar da precariedade que \u00e9 o uso de metadados no Brasil, tanto pelas editoras quanto pelas livrarias.<\/p>\n<p>A \u201c<em>empurroterapia<\/em>\u201d de best-sellers \u2013 para tomar emprestado o nome dessa \u201ct\u00e9cnica\u201d das farm\u00e1cias \u2013 pode ser muito mais eficiente se feita atrav\u00e9s da Internet. E poder\u00e1 ser feita diretamente pelas editoras, que poder\u00e3o vender seus t\u00edtulos, sem DRM (para leitura em qualquer aparelho) a pre\u00e7os muito mais competitivos que os de qualquer rede \u2013 ou livraria independente. Ou entregar o exemplar impresso na casa do cliente.<\/p>\n<p>As primeiras baixas nessa transforma\u00e7\u00e3o que se delineia para o mercado de livros ser\u00e3o, certamente, as livrarias independentes que n\u00e3o conseguirem se articular para fazer vendas online de modo eficiente. <\/p>\n<p>Mas as grandes redes, ainda enfatuadas com seu atual poder de barganha pelo volume de compras, podem se preparar. Sobreviver\u00e3o as que conseguirem aliar o bom servi\u00e7o com a forma\u00e7\u00e3o de comunidades de leitores que confiem nos livreiros tamb\u00e9m para as indica\u00e7\u00f5es, em livrarias que sejam tamb\u00e9m pequenos centros de cultura e conviv\u00eancia de leitores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste final de ano foram publicadas duas mat\u00e9rias sobre livrarias que me chamaram muita aten\u00e7\u00e3o. As duas tratavam de ambientes das lojas e sobre seu estoque, vistas de maneiras muito, mas muito distintas. A primeira, publicada na Folha de S. 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