{"id":1240,"date":"2012-07-10T11:36:40","date_gmt":"2012-07-10T14:36:40","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1240"},"modified":"2012-07-10T11:36:40","modified_gmt":"2012-07-10T14:36:40","slug":"o-que-ha-em-um-nome-ou-guerra-de-versoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=1240","title":{"rendered":"\u201cO que h\u00e1 em um nome\u201d, ou Guerra de Vers\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=1241\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D1241','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-1241\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capturar.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar\" width=\"861\" height=\"477\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1241\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capturar.jpg 861w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capturar-300x166.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 861px) 100vw, 861px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Gosto de pensar no verso de Shakespeare como um tributo \u00e0 guerra de vers\u00f5es. Os nomes &#8211; Montecchio ou Capuleto \u2013 assumem significados conforme a posi\u00e7\u00e3o de quem os diz para quem, e a trag\u00e9dia se arma a partir da\u00ed. Ou seja, depende do ponto de vista. <\/p>\n<p>O Publishing Perspectives do dia <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/9H6OC');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/9H6OC\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2F9H6OC','27+de+junho')\" target=\"_blank\">27 de junho<\/a> trouxe uma entrevista feita com Alberto Vitale, ex-executivo da Randon House  entre 1989 e 2002, por uma bolsista Fulbright da New York University, Joana Costa Knufinke, espanhola que tamb\u00e9m faz seu doutorado em Literatura na Universidad de Barcelona.<\/p>\n<p>Vitale \u00e9 um dos nomes lend\u00e1rios da edi\u00e7\u00e3o americana no per\u00edodo. Italiano educado nos EUA, como chef\u00e3o da Random House \u2013 na \u00e9poca a maior editora dos EUA \u2013 era um temido porta-voz da ind\u00fastria editorial americana nas negocia\u00e7\u00f5es com a Feira de Livros de Frankfurt, principalmente a respeito da localiza\u00e7\u00e3o dos estandes. Esse tema o fez ter v\u00e1rios atritos com Peter Weidhaas, descritos pelo alem\u00e3o em seu livro de mem\u00f3rias, <em>See You in Frankfurt<\/em> (Locus Publishers, New York, 2010). Foram alguns embates catacl\u00edsmicos, o do poderio e arrog\u00e2ncia dos americanos contra o poderio e a arrog\u00e2ncia dos alem\u00e3es.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nVamos a alguns trechos da entrevista de Vitale:<\/p>\n<p>\u201cAntes de mais nada, expliquei para as pessoas na Random House que, para ser saud\u00e1veis e independentes, precis\u00e1vamos ganhar dinheiro, e que se n\u00e3o se ganha dinheiro, fica-se sempre com as m\u00e3os estendidas pedindo ajuda. [&#8230;] Se voc\u00ea n\u00e3o ganhar dinheiro voc\u00ea perde a independ\u00eancia. Em alguns c\u00edrculos isso foi uma terapia de choque.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUma das primeiras coisas que fiz foi sentar com o diretor da Pantheon e dizer a ele: \u201cTemos que ganhar dinheiro\u201d, j\u00e1 que eles estavam perdendo muito dinheiro. Queria que ele preparasse um or\u00e7amento, e ele recusou-se a preparar um or\u00e7amento, ent\u00e3o eu disse \u201cadeus\u201d a ele. O que aconteceu logo em seguida foi ver autores fazendo piquete na porta da empresa. Foi desagrad\u00e1vel&#8230; mas o resultado final \u00e9 que a Pantheon ainda est\u00e1 viva e muito bem hoje. Essas foram algumas das primeiras mudan\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Bem, o \u201cdiretor da Pantheon\u201d era Andr\u00e9 Schiffrin, que muitos anos depois, em 2000, publicou sua vers\u00e3o, no livro <em>The Business of Books. How International Conglomerates Took Over Publishing and Changed the Way We Read<\/em> (Verso, N. York, 2000 \u2013 H\u00e1 edi\u00e7\u00e3o brasileira de 2006, pela Casa da Palavra).<\/p>\n<p>A vers\u00e3o de Schiffrin, evidentemente, \u00e9 bem diferente.<\/p>\n<p>A Pantheon foi fundada em 1942 por um grupo de intelectuais europeus que fugiram para os EUA para escapar do nazismo. Era um grupo de intelectuais de esquerda, mas n\u00e3o comunistas, e editou uma lista de t\u00edtulos muito importantes. Em 1961 foi absorvida pela Knopf, que ent\u00e3o j\u00e1 era parte da Random House. No mesmo ano, Schiffrin foi nomeado diretor. O conglomerado Randon House j\u00e1 n\u00e3o era mais independente, fazia parte da RCA. Em 1980, a Random House (e demais selos) foram vendidos para S. I Newhouse, um controvertido financista. Em 1989, Alberto Vitale foi contratado por Newhouse como presidente da Random House. <\/p>\n<p>Desde a aquisi\u00e7\u00e3o por Newhouse, a Pantheon sofria press\u00f5es para aumentar sua lucratividade. Schiffrin argumentou que a editora n\u00e3o era nenhuma estrela, mas que, tal como sempre acontecera tradicionalmente na atividade editorial, compensava as poucas vendas dos t\u00edtulos importantes emplacando alguns best-sellers. Schiffrin, em um ponto do livro, relata inclusive que qualquer t\u00edtulo que lan\u00e7asse tinha uma venda praticamente garantida de mais de 2.000 exemplares para bibliotecas dos EUA e da Inglaterra, e que preju\u00edzo real n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>Com a chegada de Vitale foi acentuado o processo \u2013 que j\u00e1 vinha em curso \u2013 de buscar o lucro em cada t\u00edtulo editado, e n\u00e3o mais no conjunto dos t\u00edtulos considerados em um determinado per\u00edodo. <\/p>\n<p>Na verdade, isso \u00e9 uma fal\u00e1cia, pois jamais se conseguiu predeterminar com seguran\u00e7a quais t\u00edtulos se transformar\u00e3o em best-sellers, vender\u00e3o bem ou ser\u00e3o simplesmente fracassos. Mas essa busca do sucesso para cada t\u00edtulo levou, certamente, a privilegiar a publica\u00e7\u00e3o dos livros \u201cmenos arriscados\u201d, seja de literatura, seja de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Ou, como diz o pr\u00f3prio Vitale, nessa entrevista de hoje, \u00e9 preciso editores que sejam \u201ccomo produtores, como no cinema! Tem [o editor] que ser algu\u00e9m que tenha uma mente criativa para sentar com o autor e pensar o que mais pode ser feito com um livro usando tecnologia digital\u201d, para acrescentar valor&#8230; Para Vitale, cada livro deve ser um produto a ser explorado o m\u00e1ximo poss\u00edvel em seu conte\u00fado. Logo, se o conte\u00fado n\u00e3o pode ser explorado das mais diferentes maneiras, n\u00e3o \u00e9 um bom livro.<\/p>\n<p>Schiffrin diz, em seu livro, que essa hist\u00f3ria do or\u00e7amento pedido foi parte de uma disputa onde ele apresentava um programa de publica\u00e7\u00f5es e Vitale exigia o or\u00e7amento com os cortes de pessoal e a \u00eanfase em livros que tivessem tiragens maiores \u2013 ou seja, que tivessem essa \u201cpegada\u201d de best-seller. Ele, Schiffrin, \u00e9 que pediu o or\u00e7amento que, segundo ele, mostrava que a Pantheon seria menos lucrativa com os cortes \u201cdraconianos\u201d propostos. Diz ele que Vitale gritava: \u201cQual o sentido de publicar livros com tiragens t\u00e3o baixas?\u201d. E, parafraseando Vitale, prossegue, \u201cN\u00e3o est\u00e1vamos envergonhados conosco mesmos? Como eu podia me olhar no espelho a cada manh\u00e3 sabendo que queria publicar esses t\u00edtulos certamente n\u00e3o lucrativos?\u201d. E mais adiante, \u201cVitale me disse claramente, apesar de negar depois, que dever\u00edamos parar de publicar \u2018tantos livros de esquerda\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A troca de insultos entre os dois \u00e9 impressionante. Vitale se lembra do caso acontecido h\u00e1 vinte e dois anos, agora dando o troco ao que Schiffrin publicou em 2000.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das diferen\u00e7as pessoais, a trajet\u00f3ria dos dois reflete as profundas modifica\u00e7\u00f5es ocorridas no \u00faltimo quarto do s\u00e9culo XX no mundo editorial americano. Em 1998 a Randon House foi novamente vendida, para o conglomerado alem\u00e3o Bertelsmann. A cultura de que \u201ccada livro tem que dar lucro por si pr\u00f3prio\u201d continuou preponderando.<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Schiffrin foi extensamente criticada, principalmente por autores, e v\u00e1rios deixaram a casa \u2013 n\u00e3o apenas a Pantheon, mas tamb\u00e9m a Knopf e outros selos da Random House \u2013 por conta disso. Andr\u00e9 Schiffrin montou outra editora \u201csem objetivo de lucro\u201d, a New Press. Vitale hoje est\u00e1 aposentado, mas continua defendendo o modelo ultraliberal e conservador de editora que implementou na casa que j\u00e1 teve uma ilustre trajet\u00f3ria de publica\u00e7\u00e3o de literatura de qualidade. <\/p>\n<p>Para Vitale, o mercado evolui positivamente e a nova gera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 capaz de encontrar respostas para os desafios do mundo editorial. Schiffrin, muito mais pessimista, lamenta o que considera como decad\u00eancia da publica\u00e7\u00e3o de qualidade nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que se a editora n\u00e3o tiver lucro n\u00e3o poder\u00e1 continuar a existir, e dessa maneira seu projeto inevitavelmente fracassa. Mas as vers\u00f5es dos dois personagens do que seja lucro, do quanto deve ser buscado e o modo de fazer isso diferem muito. Guerra de vers\u00f5es, ou de princ\u00edpios. Ou as duas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto de pensar no verso de Shakespeare como um tributo \u00e0 guerra de vers\u00f5es. Os nomes &#8211; Montecchio ou Capuleto \u2013 assumem significados conforme a posi\u00e7\u00e3o de quem os diz para quem, e a trag\u00e9dia se arma a partir da\u00ed. Ou seja, depende do ponto de vista. 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