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MARCELA NEUBLUM – JOVEM EDITORA, COM FUTURO

A editora Marcela Neublum, convidada pelo Publish News, fez sua primeira incursão à Feira de Frankfurt, com o compromisso de relatar suas impressões de neo-marinheira no maior evento editorial do mundo. Foram seis posts bem escritos e divertidos, nos quais ela conseguiu retratar bem tanto o gigantismo como a diversidade e os desafios de estar ali.

Em sua última coluna, publicada na segunda-feira 24, Marcela Neublum termina com algumas reflexões. Apesar da coluna estar no ar no site, transcrevo o que comentarei em seguida:

“E se, em 2017, você enviasse à Feira aquele seu editor que há anos faz os livros da sua editora acontecerem? E se, em 2017, você incluísse em sua agenda reuniões com editoras menores, não tão conhecidas pelo mercado? E se, em 2017, de cinco projetos com possibilidade de lucro, você aprovasse um pensando apenas em divulgar um ótimo novo escritor ou imaginando as consequências reais que aquele conteúdo poderá gerar no seu leitor?”

Marcela, essa foi uma observação bem pertinente.

Como ex-sócio de uma editora que sobreviveu dezoito anos até ser engolida no turbilhão, estive – juntamente com a Maria José Silveira e o Márcio Souza – várias vezes na Feira. Depois do falecimento da Marco Zero, ainda voltei muitas outras, como diretor da CBL, como curador do Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira e como editor da Machado de Assis Magazine – Literatura Brasileira em Tradução.

Sua última observação – “questionamento” – você diz que seria importante aprovar pelo menos um projeto “pensando apenas em divulgar um ótimo novo escritor, ou imaginando as consequências reais que aquele conteúdo poderá gerar no seu leitor”.

Pois bem, Marcela, quero dizer – e transmito também a experiência da Maria José e do Márcio -, que garimpar pelos corredores da Feira olhando com atenção os estandes menores pode render não apenas a “descoberta de novos autores”, como oportunidades de ótimos negócios.

As condições em que viajávamos para Frankfurt eram bem precárias. Geralmente ficávamos na casa de amigos, na maioria das vezes arranjados pelo Teo Mesquita, proprietário da única livraria que vendia livros brasileiros, portugueses e da África lusófona em Frankfurt. E nossa “verba” para aquisições era reduzidíssima.

O primeiro livro de Margareth Atwood traduzido.
O primeiro livro de Margareth Atwood traduzido.

Por isso mesmo, nada de entrar em leilões ou tentar comprar bestsellers. Íamos atrás precisamente do novo, do inusitado. Não apenas na Feira, é claro.

Nosso amigo Domingos Demasi apareceu um dia na editora com um paperback de “Lady Oracle”. Márcio Souza havia conhecido a Margaret Atwood em um festival literário em Toronto. Como resultado desse contato, Karin Schindler – sua agente, um ouro de pessoa – nos vendeu os direitos de “Madame Oráculo”, que é primeiro livro traduzido da autora que escreve em inglês e já tinha muito prestígio no Canadá, nos EUA e no Reino Unido. Desde então, até a morte da Marco Zero, Margaret Atwood ficou conosco. Ainda que Karin Schindler recebesse ofertas de outras editoras, ela preferia manter seus livros na Marco Zero, onde Maria José traduziu alguns de seus romances. Depois, foi para a Rocco.

dicionario-kazar054-2015_01_15-01_29_24-utc a_cor_1-2015_01_15-01_29_24-utc Anne Rice ainda era uma recém-lançada romancista de temas góticos quando publicamos “O Vampiro Lestat” – que também depois foi parar na Rocco.

“A Cor Púrpura”, lançado em 1982, em 1984 ainda não tinha o reconhecimento que teve depois. Maria José o localizou e comprou por uma bagatela que estava dentro do nosso orçamento. Nem sabíamos que o livro havia sido comprado pelo Spielberg para se transformar no famoso filme.

Outro caso emblemático foi o do “Dicionário Kazar”, de Milorad Pavic. Escritor da então Iugoslávia, não havia sido traduzido para nenhum idioma. Passando pelo estande, a Maria José conversou com o pessoal, achou a ideia do romance fantástica – inclusive o fato de ter duas versões, a “masculina” e a “feminina” – e fez uma oferta dentro das nossas possibilidades. O agente do Pavic vendeu os direitos para o idioma português dentro do nosso orçamento. Foi uma dureza para traduzir. Quando o livro foi lançado pela Knopf (que adquiriu os direitos mundiais – menos para o português), a editora portuguesa teve que comprar nossa tradução. E foi um dos romances de maior sucesso da Marco Zero.

Esses foram casos de sucesso. Poderia citar muitos outros casos em que as aquisições foram prestigiosas, mas não venderam tanto. Aliás, essa história das razões pelas quais bons livros não vendem tanto quanto o merecido foi o que levou a me empenhar no conhecimento do mercado editorial.

Essa situação que você reflete, da busca pelos livros em função do desempenho de vendas, etc., há anos vêm distorcendo o papel das editoras e do mercado editorial. Os departamentos de marketing cada vez mais assumem um papel preponderante na definição das linhas editorais, e a missão das editoras, de promover esse diálogo de vozes do mundo inteiro com os leitores, fica relegada a um segundo plano, obscurecida.

André Schiffrin, que foi editor da Pantheon (fundada por seu pai), mais tarde comprada – e vendida – pela Random House, mostra a regressão, diríamos assim, do modelo em que as editoras procuravam manter um equilíbrio com o conjunto dos lançamentos, procurando mesclar livros com maior possibilidade de sucesso com títulos considerados culturalmente importantes, de modo que havia uma espécie de “subsídio interno” para novos autores, etc. Esse modelo foi substituído por uma mentalidade corporativista na qual cada livro deveria sempre alcançar objetivos de vendas cada vez maiores. Isso levou, é claro, à diminuição da busca por novos autores, autores arriscados, novas propostas. Hoje, apenas editoras menores realmente ousam. O livro de Schiffrin ao qual me refiro, “The Business of Book”, foi traduzido. Vale a pena ler. É ilustrativo.

É claro que existem exceções. No Brasil, essa mentalidade ainda não está totalmente consolidada, e vemos até mesmo grandes editores publicando alguns – poucos – autores nacionais, mas raramente com os investimentos necessários para de marketing, promoção e comercialização para que alcancem o merecido sucesso. Mas a verdade é que os investimentos vão muito mais para eventuais autores, jovens ou não, publicados pelas editoras estrangeiras, que avaliam as condições de fazer ações de marketing significativas, e recuperam parte dos advances precisamente na venda dos direitos internacionais. E as nacionais aproveitam dessa repercussão global.

O resto são os blogueiros, vlogueiros e o escambau.

É muito importante que jovens editores percebam essa situação e os perigos decorrentes. Por isso, gostei muito do seu post.

Parabéns e boa sorte em sua carreira.

CANDIDATURAS E O OLHAR DE BONS ENSAÍSTAS – O LONDON REVIEW OF BOOKS

capturar Desde quando o chanceler Bismark observou que é melhor o povo não saber como são feitas as salchichas e as leis, o interesse por esses mecanismos “ocultos” da construção do poder desperta crescente curiosidade. É certo que Marx e os filósofos já vinham explicando os grandes movimentos de classe na conformação do Estado e das transformações sociais. Mas o pão-com-manteiga recebia uma abordagem menos sistemática. Apesar do próprio Marx, em A Luta de Classes na França, no 18 Brumário de Luís Bonaparte, e nos ensaios sobre a Comuna de Paris já tratar desses mecanismos, o cotidiano “normal” da política passa a ser progressivamente uma área da ciência política (inclusive da antropologia). Ainda assim, conversa para iniciados.

Além dos próprios políticos, que podiam não teorizar, mas sabiam muito bem manobrar a prática desse jogo que existe por trás das estruturas de poder.
A London Review of Books,  que subscrevo, de vez em quando manda uma seleção de artigos ou resenhas anteriormente publicados que têm a ver com assuntos candentes do momento, na Inglaterra ou no panorama internacional (O Brasil já saiu várias vezes, mas em números normais).
Semana passada o e-mail veio com artigos sobre os antecessores do Barack Obama, seja analisando livros sobre, ou ensaios de alguns dos articulistas da LRB. São peças fantásticas. E todos os textos colocam foco em vários aspectos desse “mundo real” – e oculto – da política institucional.

O do Christopher Hitchins sobre Bill Clinton, e que pega de passagem vários aspectos da atividade política da Hillary, é uma dessas. Disseca a carreira do ex-presidente, suas ligações com os conservadores desde que, como Democrata, fazia campanha para o McGovern, lá em 1992, no Texas. O cara se aliou, de fato, aos tipos conservadores do Partido Republicano para pavimentar suas ações futuras, dez anos antes de se lançar como candidato. E Hitchins vai listando as posições que ele tomou à direita do Bush pai sobre vários temas da campanha.

Do ponto de vista pessoal, o levantamento do ensaísta inglês também é devastador. Lá pelas tantas ele diz que Bill “É um cachorro difícil de manter na varanda” (é o título em inglês do artigo), significando que, tal como o dito lulu, se passa uma cadela no cio, ele não se contém e sai atrás. Hitchens chama atenção sobre como as feministas, paradoxalmente, se uniram para defendê-lo em várias situações. E, é claro, como Hillary aprovou e supervisionou o levantamento dos podres das mulheres às quais Bill havia, digamos, prestado homenagem, para destruir a credibilidade de cada uma delas. Tema, aliás, que o Trump vem retomando…

Mas outros dois temas aparecem. O caso imobiliário Whitewater, que chegou a provocar suicídio de um dos advogados sócios do escritório – do qual Hillary fazia parte – e várias demissões na equipe presidencial. E um obscuro aeroporto em Arkansas usado para levar armas para os Contra nicaraguenses – e trazer de volta “ouro branco”. Tudo arquitetado pelo coronel Oliver North com as bênçãos do Reagan.

E mais as transações em que a política dos EUA foi usada para defender interesses das empresas ligadas ao financiamento das campanhas de Clinton, incluindo os grandes criadores de porco, e o aval às políticas do Yeltsin.

 

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“DA CELULOSE VIESTES, À CELULOSE HÁS DE RETORNAR”

A propósito da recente pseudo polêmica que surgiu depois que a CosacNaify anunciou que os saldos de estoque (cerca de 400.000 exemplares, segundo li em algum lugar) seriam picados, caso não fossem vendidos até 31 de dezembro. Por enquanto, todos os títulos estão sob venda/distribuição pela Amazon, e algumas livrarias ainda têm estoques de alguns deles.

Digo pseudo polêmica porque a marola surgiu nas publicações de pessoas que não entendem nada do mercado editorial e ficaram indignados diante da ameaça de “destruição” dos belos livros da falecida. Henrique Farinha e André Palme, no PublishNews, colocaram vários pontinhos nos iis sobre o assunto.

Na época em que a dita autopublicação acontecia somente em impresso, o esperançoso poeta, contista, ensaísta ou romancista ia até uma gráfica (que se colocava como editora, noblesse oblige) e encomendava a impressão de quinhentos ou mil exemplares (antigamente, a tiragem de mil exemplares era a mais comum, com a conversa dos gráficos de que o “preço por unidade” ficava menor). Pagava e levava a obra para casa.

Se o sujeito morasse numa quitinete, não sobrava espaço nem para o catre. Se ainda morasse com os pais, este arrenegavam a ideia, que ocupava a despensa, o eventual quarto de empregada e o quarto do desventurado autor, que somava suas imprecações contra as cruéis editoras, que não reconheciam seu talento, aos amigos que não compravam os livros. Que eram então distribuídos: papai, mamãe, irmãos, tios, tias, primos recebiam seus exemplares, devidamente autografados. Colegas de trabalho, colegas de escola, amigos vários recebiam também. Às vezes dois ou três exemplares. Ao ponto de cruzarem a rua ao verem o desditoso autor, acenando e dizendo “Já ganhei, já ganhei. Ganhei dois exemplares”.

Márcio Souza, meu amigo e autor que passou por experiência semelhante quando a UBE-Amazonas o premiou com uma edição de mil exemplares de “O Mostrador de Sombras”, seu primeiro livro, com críticas de cinema, cunhou o dito: “É mais fácil livrar-se de um cadáver que de mil exemplares de um livro”.

Multiplique-se o dilema por quatrocentos mil, uma empresa que tem que pagar armazenagem, impostos sobre o estoque (que se desvaloriza muuiiito lentamente e continua como ativo que “gera lucro”), e pode-se ter uma ideia do tamanho da encrenca.

Ora, um dos problemas da CosacNaify sempre foi o da estocagem. O projeto da editora, na minha opinião, sempre foi inviável, e só subsistia enquanto a família do Charles Cosac se dispunha a gastar uma parte dos lucros das minas em Goiás, e seu cunhado, que é grande investidor em empresas de tecnologia, também estivesse disposto a colocar uma grana na editora.

Os projetos gráfico-editoriais da editora – sempre bonitos e muito bem cuidados e produzidos – eram caros. Muito acima dos padrões do mercado editorial brasileiro. E olha que os padrões da indústria editorial (e da indústria gráfica) melhoraram muito, muito mesmo, nos últimos vinte anos. Todos os anos testemunho isso quando participo do júri do Prêmio Fernando Pini, da ABIGRAF.

Só que os deles ultrapassavam muito esse padrão. Inclusive com formatos esdrúxulos, que desperdiçam papel, por exemplo. O inevitável resultado: ou os livros eram forçosamente apresentados ao mercado com preços mais altos que os das outras editoras (e por isso vendiam muito menos que as exclamações de admiração deixavam entender), ou eram oferecidos a preços subsidiados e davam prejuízo, de qualquer maneira.

Some-se a isso a rejeição do Charles Cosac em diversificar a linha com livros que pudessem alcançar nichos mais populares e, inclusive, vendas para o governo. A história da série do “Capitão Cueca” é exemplar. Era uma série de livros para jovens que vendia, era popular e… detestada pela turma. A quantidade de diretores de vendas que passou por lá, com grandes profissionais da área, nem é bom listar.

Até quando chegou a hora da verdade. Algum, ou os três donos do dinheiro, decidiram que a coisa já estava cara demais.

É importante notar – e faço questão de afirmar isso alto e bom som – que qualidade editorial e gráfica não significam, necessariamente, preciosismo e muito menos o que se pode chamar de “over” produção e sofisticação. Na minha modesta opinião, aliás, o bom produtor gráfico e designer editorial busca alcançar resultados fantásticos e qualidade superior precisamente respeitando as contingências mercadológicas e as contingências materiais da produção. Ir além disso é coisa para quem produz livros para mesinha de centro de sala, financiados por empresas para distribuição a clientes. A Taschen, justamente famosa pela qualidade dos livros que publica, busca alcançar exatamente esse equilíbrio, ainda que haja quem torça o nariz pelo fato de poucos títulos serem impressos em cuchê, ou com capas com aplicação de vernizes especiais e coisas do gênero.

No final das contas, porém, existe a possibilidade de alternativa à destruição dos exemplares: a venda dos saldos para os atacadistas que compram ponta de estoques. E que depois revendem como livros de R$ 5,00 ou R$ 10,00 nas feiras por aí. Isso é possível supondo-se que as demandas contratuais com os autores já tenham sido equacionadas.

Fora isso, é a dura verdade de que livros são feitos de papel, e papel é celulose, matéria prima altamente reciclável.

Quem sabe, a papeleira que comprar esses livros pode lançar uma linha “premium” de papel reciclado, anunciado como “papel reciclado com os livros da CosacNaify”? Vai encontrar quem pague até mais caro por isso…

 

MAIS UMA ENTIDADE?

Ao ler, no dia 24 de agosto, a notícia da formalização da criação da Associação Brasileira de Licenciamento Coletivo (Abralc), tive duas reações. A primeira, um tanto irônica, de satisfação por saber que finalmente os editores fizeram autocrítica do ato insensato que perpetraram há quase quinze anos, quando fundiram a ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, com a ABPDEA – Associação Brasileira de Proteção dos Direitos Editoriais e Autorais.

Ato insensato porque a ABDR havia sido fundada precisamente para usar a prática do licenciamento para o combate da pirataria, enquanto a ABPDEA surgiu em contraposição a isso, defendendo a exclusividade de ações repressoras no combate ao que então se chamava de “xeroqueiros” (o que desagradava profundamente a Xerox, que apoiou a fundação da ABDR).

A segunda reação foi ao anúncio de que a CCR – Copyrigth Clearance Center fora a escolhida como modelo operacional da nova entidade, como se praticamente fosse a única alternativa tecnológica disponível. Isso não é verdade.

Mas, vamos por partes, pois acompanhei boa parte dessa discussão, nos seus inícios.

Já em 2012, aqui no PublishNews, publiquei um post intitulado REPROGRAFIA, DIREITO AUTORAL E LICENCIAMENTO – PARA LEMBRAR DA HISTÓRIA, do qual publico alguns trechos em seguida:

“No começo dos anos 90, a CBL – Câmara Brasileira do Livro, instalou uma Comissão para debater e apresentar propostas relacionadas com o assunto [reprografia]. A partir das informações da IPA, essa Comissão, que foi presidida por Raul Wassermann, da Summus, propôs a criação da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos – ABDR. A ABDR foi fundada em 1992 e Raul Wassermann foi seu primeiro presidente”.

Como já disse, alguns editores rejeitaram a perspectiva de cobrar pelo licenciamento, e defendiam, na época, a exclusividade das ações de repressão.

“O resultado foi que, no ano 2000, esses editores, seguindo uma das mais lamentáveis e tradicionais tendências do mercado editorial brasileiro, resolveram fundar mais uma associação. E assim nasceu a ABPDEA – Associação Brasileira de Proteção dos Direitos Editoriais e Autorais, com sede no Rio de Janeiro. A ABPDEA deixava claro que considerava a solução da repressão como a mais correta, e divulgou amplamente o fechamento de copiadoras, prisão de “xeroqueiros”, etc.

A divisão obviamente não facilitou a vida de ninguém.

Pior, a questão acabou entrando na disputa da sucessão de Raul Wassermann na presidência da CBL, em 2002. O Sr. Oswaldo Siciliano, adversário de José Henrique Grossi, o candidato apoiado por Wassermann, comprometeu-se com a ABPDEA a apoiar suas posições, caso eleito. E foi, como se sabe.

O resultado foi que já em meados de 2003 as duas associações foram “fundidas”. Na verdade, da ABDR só sobrou o nome. As formas e métodos de atuação que passaram a ser executadas desde então foram as da antiga ABPDEA, que não faziam inveja aos da RIIA [Recording Industry Association of America – o órgão das gravadoras] a não ser pela menor capacidade econômica dos brasileiros: apreensões, prisões, fechamento de copiadoras, e liquidação dos contratos de licenciamento.

O resultado, lamentavelmente, também foi parecido com o da indústria musical: foi oferecido de bandeja ao moribundo movimento estudantil um prato feito, o da “luta contra os gananciosos editores, que pouco se importam com a formação dos jovens universitários”.

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SÉRGIO MACHADO, EDITOR

Capturar

A morte do Sérgio Machado, para além do sentimento de perda de um amigo – pois assim o considerava – suscita algumas reflexões sobre a nossa indústria editorial, a partir da sua vida.

Estava no comando do grupo Record, o maior grupo editorial “trade” do país, desde 1991, quando da morte de seu pai e fundador da editora, Alfredo Machado. Sérgio, economista de formação, já estava há alguns anos trabalhando na empresa da família. A Record, fundada por Alfredo e seu cunhado, Décio Abreu, morreu naquele ano, deixando a editora nas mãos de três filhos: Sérgio, Alfredo Jr. e Sonia. A editora, fundada no âmbito e com as características de empresa familiar, continuava sob controle da família, sem capital aberto.

Um dos grandes desafios das empresas familiares, de todos os ramos, é a solução da sucessão do fundador. Todos os irmãos trabalhavam na editora, mas Sérgio e Alfredo tinham pontos de vista diferentes sob vários pontos. As divergências entre herdeiros provocam turbulência e podem mesmo por a pique a empresa. Sérgio comprou a parte de Alfredo e, com a irmã, assumiu o controle total do grupo.

Em 1997, um evento abalou a família Machado e o mercado editorial brasileiro. Sonia Machado Jardim foi sequestrada, e permaneceu semanas em poder dos seus captores. Sérgio estava nos EUA, onde fazia um curso – coincidentemente sob negociações – e voltou ao Brasil. Junto com o irmão e o marido de Sonia, Antonio Carlos, conduziram as negociações que resultaram na libertação de Sonia, em troca do pagamento de um resgate de valor não especificado.

Durante todos esses anos, o processo de concentração do setor editorial avançou muito, principalmente com a chegada de grupos editorais estrangeiros, que investiram pesadamente, seja na aquisição de empresas já existentes (Santillana comprou a Moderna; a Planeta se instalou por aqui, assim como outras espanholas, como a SM e a Oceano, e portuguesas, como a Leya). Sérgio sempre afirmava que, como comerciante, estava sempre aberto para negociações, pois comprar e vender era o que sabia fazer.

Só que, em vez de esperar que sua editora fosse comprada, Sérgio e Sonia partiram para o crescimento, adquirindo eles mesmo várias editoras nacionais. Desse modo, foram incorporadas ao grupo a Bertrand Brasil (que já era controladora da Civilização Brasileira e da Difel), a José Olympio (que faliu com os sucessores do patriarca e fundador e passou pelas mãos do BNDES e de Henrique Gregory um executivo da Xerox do Brasil), a BestSeller, comprada de Richard Civita, e mais recentemente a Paz & Terra, comprada dos herdeiros de seu fundador, Fernando Gasparian, e a Rosa dos Tempos, fundada por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar. Paralelamente, fundou outras editoras/selos, como a Galera e a Galerinha Record, a Nova Era, BestBolso, BestBusiness e a Verus. Com isso, a Record foi firmando seu pé em vários segmentos do mercado, como o de livros infantis e juvenis, a literatura feminista, negócios, esotérica e de fantasia.

Ao robustecer sua empresa, usou a mesma tática das estrangeiras, ampliando sua ação.

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OS TIPOS MÓVEIS DE GUTENBERG

Johannes Gutenberg, em gravura produzida depois de sua morte.
Johannes Gutenberg, em gravura produzida depois de sua morte.

No grande universo dos livros, um dos campos pelo qual sempre fui fascinado é o da sua fabricação. Sou da época em que se compunha com linotipo, recebia-se as provas feitas com tira-prova e depois das correções o livro ia para as impressoras e depois para o acabamento. Atravessei a época dos fotolitos (ainda com composição a quente), pela composição com uma espécie de máquina de datilografia aperfeiçoada da IBM, que produzia textos justificados e já com uma boa variedade de tipos (as “bolinhas” eram trocadas). Esse material ia para uma mesa de paste-up e depois era fotolitado. Hoje todo mundo usa editoração eletrônica e o resultado é enviado por e-mail e já vai direto para a impressora, pelo sistema computer-to-plate.

Mas antes dos livros, ainda adolescente, trabalhei em jornal, em Manaus, que ainda usava composição a quente (linotipo, monotipo e clichês) e impressão em máquinas planas. Uma coisa! Uma vez vi uma página mal amarrada estourar e espalhar colunas de linotipo e blocos de clichês para todo lado, com risco de ferir um gráfico. Aliás, essa exigência técnica de produzir uma página completamente “amarrada” da tipografia perdeu-se na etapa seguinte do paste-up, e o que se viu de colunas tortas e fotos mal ajustadas… Só a editoração eletrônica recuperou a beleza de uma página bem montada.

Cada uma dessas etapas vividas só aumentava minha admiração pelo sujeito que inventou o básico: a impressão com tipos móveis. Sim, o famoso Johann Gutenberg.

gutenberg museum
Gutenberg Museum – Mainz

Nunca fui a Mainz, sua cidade e sede de um museu e de um centro de estudos sobre tipografia, embora a cidade esteja bem perto de Frankfurt, tantas vezes visitada nas feiras.  Mas sempre vou ao estande do Museu na feira, brinco de impressor e há muito tenho minha cópia tipográfica de uma página da famosa Bíblia de 42 linhas.

Facsímile da B-42, impressa por Gutenberg
Facsímile da B-42, impressa por Gutenberg

Recentemente li uma das poucas biografias sérias de Gutenberg existentes em tradução. Os trabalhos sobre a descoberta e vida dele são quase todos em alemão. É “Johann Gutenberg – The Man and his Invention”, de Albert Kapr. Achar o livro foi difícil. Encomendei através da Amazon mas o livro nunca chegou. Achei em um sebo por aqui e consegui comprar e ler.

É certamente um livro fascinante, com uma sólida abordagem do contexto da vida do inventor. Mainz estava feudalmente submetida a um Bispo Eleitor do Sacro Império Alemão, personagem político de primeira grandeza. Mas a cidade vivia às turras com os bispos, principalmente no período de vida de Gutenberg, quando o crescimento da burguesia já era evidente e entrava em choque com aquelas instituições feudais.

A família de Gutenberg (as explicações sobre os sobrenomes na época são deliciosas) fazia parte da nobreza, e em vários momentos, por conta das disputas, teve que se exilar para a cidade-sede do bispado, Eltville (onde também estão alguns dos principais vinhedos do Reno). Essa origem social perpassa muitos aspectos da vida de Gutenberg, inclusive a disputa com o sócio Fust, episódio muito importante no desenvolvimento da imprensa.

Não se conhece a data exata de seu nascimento (entre 1400 e 1403). Estudou em Efurt e sabe-se que se aperfeiçoou em ourivesaria e em técnicas de estampagem, que seriam fundamentais para o desenvolvimento da tipografia.

Alguns detalhes que ressaltei da biografia.

– O processo de “invenção” da tipografia foi extremamente complicado. Gutenberg foi o primeiro – e aí está a raiz de tudo – a conceber um processo viável e simples de fundição de tipos. As tentativas anteriores de impressão incluíam tipos de madeira, cerâmica e a impressão em blocos de madeira, como xilogravuras, com os textos desenhados. O tipo móvel é a primeira e a mais fundamental das descobertas de Gutenberg. Ele inventou uma espécie de portador dos moldes que permitiu a fabricação rápida dos tipos de impressão a partir de uma patriz (escultura das letras em punções com instrumentos de ourives). Essas punções eram aplicadas em uma barra de cobre, criando as matrizes. Como o golpe deformava a matriz, era necessário retificá-las (outra habilidade de ourives) e daí se tinha uma matriz final. Essa, usando o tal fundidor de tipos, gerava os caracteres necessários para a impressão. Só para a impressão da B-42, Gutenberg fundiu cerca de dois milhões de tipos, de 290 formatos.  Esse processo necessariamente tinha que ter muita precisão, para que os tipos pudessem se alinhar e se ajustar entre si. Para isso, também se fundiram ligaduras (combinações de letras, como o Æ), sinais de pontuação, etc.

Donatus, manual de ensino de latim, foi o primeiro livro completo impresso por Gutenberg
Donatus, manual de ensino de latim, foi o primeiro livro completo impresso por Gutenberg
Réplica no Gutenberg Museum - Mainz
Réplica no Gutenberg Museum – Mainz

 

 

 

 

 

– A impressora foi construída a partir de modelos de prensas de vinho, com adaptações importantes: uma bandeja deslizante para se colocar a composição. Essa bandeja tinha que deslizar de modo bem preciso, para que a mancha ficasse sempre no mesmo lugar, e depois para que impressões de cores não perdessem o registro. A impressão propriamente dita se dava quando uma prancha de madeira descia por uma alavanca manejada pelo impressor e “carimbava” o papel colocado (também ajustado) sobre a composição.

– Finalmente, Gutenberg teve que desenvolver uma tinta que não borrasse e permitisse a impressão com clareza. A tinta usada por Gutenberg era feita a partir da fuligem de candeeiros, verniz, albume e urina humana como prováveis aditivos. A qualidade da tinta de Gutenberg até hoje impressiona quem vê um exemplar da B-42.

– O primeiro impresso atribuído a Gutenberg, em Estrasburgo, é um trecho intitulado “Fragmento do Weltgerich”.

Fragment vom Weltgericht - possivelmente um dos primeiros impresso de Gutenberg, em Estrasburgo
Fragment vom Weltgericht – possivelmente um dos primeiros impresso de Gutenberg, em Estrasburgo

Mas os primeiros livros, já impressos em Mainz (com tipos fabricados em Estrasburgo) foram os chamados Donatus. Eram simplesmente livros didáticos, um manual escolar de latim.

Gutenberg regressa a Mainz por volta de 1448, e estabelece a oficina na casa de sua família, a Gurtenberghof. Lá imprimiu várias tiragens do Donatus, mas o local e as condições eram insuficientes para desenvolver seu grande projeto, a impressão da Bíblia.

É aí que entra em cena Fust, comerciante (também livreiro, de manuscritos), e ligado às corporações da cidade. Fust investe pesadamente no empreendimento e também coloca lá Peter Schoeffer, seu filho adotivo. Schoeffer era escriba, e provavelmente também recebeu formação de ourives. Há quem diga que o desenho da letra da B-42 teve sua participação. Para compor e imprimir a B-42, novas instalações foram montadas na Humbrechthof, uma casa muito maior, alugada por Fust. Provavelmente todos os artesãos envolvidos na empreitada moravam ali, como geralmente acontecia nas oficinas dos mestres medievais.

A B-42 foi impressa entre 1452 e 1455, e o impacto da qualidade do trabalho, como sabemos, repercute até hoje.

As relações entre Gutenberg e Fust se deterioraram, por conta de dinheiro, é claro, e o assunto foi parar nos tribunais. Fust ganhou a causa e ficou com a imprensa e os tipos que estavam na Humbrechthof. Mas Gutenberg, segundo Kapr, continuou com a oficina na Gutenberghof, até que foi obrigado a se exilar de Mainz em mais um confronto entre as corporações e o bispo-eleitor. Gutenberg mudou-se para Eltville, continuou imprimindo (embora sem a qualidade da B-42) e recebeu honrarias do bispo.

Bíblia de Mogúncia - 1462 - Biblia Pulchra, impressa por Fust & Schoeffer, da qual há um exemplar na Biblioteca Nacional - RJ
Bíblia de Mogúncia – 1462 – Biblia Pulchra, impressa por Fust & Schoeffer, da qual há um exemplar na Biblioteca Nacional – RJ

Fust e Schoeffer também continuaram imprimindo e produziram alguns dos incunábulos mais preciosos da primeira idade da impressão, como uma edição dos Salmos e outra da Bíblia, em 1562.

Ex-libris de Schoeffer, o primeiro a ser usado para identificar o impressor
Ex-libris de Schoeffer, o primeiro a ser usado para identificar o impressor

Já no século XVI, um dos filhos de Schoeffer tentou atribuir ao pai a invenção dos tipos móveis, movido evidentemente por interesses comerciais.

Todo o desenvolvimento da impressão deu-se no meio das tensões religiosas que já prenunciavam a reforma e a cisão do cristianismo, e não é à toa que, além dos Donatus, o que se imprimiu mais foram livros religiosos, inclusive missais, e indulgências que, vendidas, podiam não garantir a salvação eterna para os compradores, mas rendiam grandes recursos para os emitentes, bispos, mosteiros e o papa.

Uma curiosidade que está no livro de Kapr é que a primeira tradução da Bíblia para o vernáculo não foi a de Lutero, em 1522. Dois dos impressores de Colônia, Bartholomäus von Unkel e Heinrich Quentell imprimiram versões nos dialetos baixo-alemão

Bíblia em Baixo Alemão
Bíblia em Baixo Alemão impressa por Bartholomäus von Unkel e Heinrich Quentell

e saxão, entre os mais de 400 itens bibliográficos que produziram, entre 1479 e 1500. Evidentemente os eruditos sabem disso, mas eu achava que Lutero era o pioneiro.  E me refiro aqui a traduções impressas, porque outros manuscritos traduzidos e “editados” da Bíblia já haviam sido feitos, como se pode ler aqui.

No final da leitura eu me perguntava se o conceito de tipos móveis, como o elemento central da invenção da imprensa, ainda persistia. Não se tratava da discussão de McLuhann sobre o fim da “Galáxia de Gutenberg”, uma bobagem que a continuada produção de livros (ou superprodução) já desmentiu. O que eu me perguntava era se a ideia dos tipos móveis permanecia vigente na era da editoração eletrônica.

Acho que sim.

A comunicação entre os homens, depois que deixou de ser puramente oral, passou por várias formas de escrita. Mas nenhuma com a complexidade e flexibilidade do alfabeto. Um pequeno conjunto de sinais combinados permite expressar… tudo. Depois da escrita, que permitiu esse registro, a composição com tipos móveis é que foi o motor da multiplicação da palavra. Desde a composição manual, até hoje, é a combinação de letras formando palavras, frases, livros, expressando o pensamento e as sensações da humanidade e a sua infinita reprodutibilidade.

Afinal, o que é a composição digital senão o uso de impulsos eletrônicos para emendar uma letra após a outra? O livro não deve “ser convertido em algum tipo de aparelho tecnológico ou outro”, como diz Kapr. O fundamental da comunicação e reprodutibilidade da palavra escrita é essa combinação, primeiro mecânica e hoje eletrônica, que permite a leitura de todas as expressões do pensamento humano por bilhões de pessoas.

É por isso é que Gutenberg permanece ainda hoje como uma figura viva: porque estabeleceu esse ideal para o futuro, quaisquer que sejam as metamorfoses que seus tipos de chumbo e antimônio tenham passado, ou venham a passar.

AS MUDANÇAS NO PAPEL DE EDITORES E LIVREIROS

O começo do ano é sempre oportunidade para pensar perspetivas e tendências em cada ramo de atividades, e o mercado editorial não escapa disso. Foram vários artigos e posts publicados em janeiro tentando dar conta do que anda acontecendo no mercado editorial e livreiro.

Como quase tudo, o foco principal se situa ao redor do mercado editorial dos EUA. É o maior mercado do mundo e o que acontece por lá, em maior ou menor medida, acaba se refletindo por aqui também. Como meu estoque de pensamentos originais anda baixo, procurei refletir a partir de alguns dos que li.

Mike Shatzkin, conhecido consultor do mercado editorial internacional, publicou recentemente em seu blog Idealog um post no qual afirma que “a indústria editorial vive em um ambiente moldado por forças mais amplas, e sempre foi assim”. No fundo, é uma observação de senso comum: nenhum segmento econômico vive exclusivamente a partir de sua própria dinâmica. Como fenômeno social, sempre está sujeito a forças sociais e econômicas mais amplas. Na verdade, o que Shatzkin queria enfatizar era o contexto histórico da evolução da indústria editorial dos EUA, e como isso foi moldando a situação atual.

Para tanto, lembra de alguns marcos importantes. O papel de Andrew Carnegie no estabelecimento de um amplo sistema de bibliotecas públicas; a introdução do sistema de devoluções, pela Simon&Schuster e a Putnan, por conta da depressão; a entrada dos distribuidores de revistas no negócio, que originou a revolução dos livros de bolso; finalmente, o interesse de Wall Street nas superlojas em shopping centers e a inflexão das editoras para a busca dos grandes bestsellers. Em todo esse período, assinala Shatzkin, as editoras se dedicavam a um modelo de negócios business-to-business. A questão era vender para as livrarias, para as cadeias de livrarias, para as grandes superfícies. Para apoiar isso, a promoção nos jornais, resenhas, entrevistas de autores no rádio e na TV.

Até 1995. Até a Amazon. E, concomitantemente, com o fortalecimento dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”: Amazon, Apple, Facebook e Google.

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O modelo de negócios da Amazon, como todos sabem, começou com os livros. Mas a venda de livros foi só o início do projeto Bezos de construir sua loja que vende de tudo, a partir do conhecimento extenso do que os clientes compram (e capacidade de transformar isso em desejo).

Mas, como assinala Shatzkin, o projeto da Amazon ia muito além disso. “Amazon operava em um ambiente sem restrições geográficas; suas vendas não eram restringidas ao local, como as livrarias físicas. Podiam efetivamente prestar serviço para clientes de qualquer lugar. Assim, mesmo no início, quanto tomavam apenas pequenas parcelas do mercado das lojas, tão pouco que estes mal notavam, a Amazon construía uma substancial base de clientes para si própria”.

Era como a história do sapo na panela: a água vai esquentando pouco a pouco, até que…

Shatzkin nota um aspecto interessante da operação da Amazon, no seu início. A empresa usava um banco de dados (de livros) da Baker & Taylor muito “sujo”, com muitos títulos fora de catálogo. A Amazon reverteu isso a seu favor: se o cliente procurava um livro em uma loja e não encontrava, podia procurar em outra, e outra. A Amazon dizia de cara: fora do catálogo, o que induzia eventualmente à busca de outro título. E um dos primeiros grupos de clientes influentes que passaram a usar a Amazon foi o pessoal da academia. E assim a Amazon se transformou no local primário de busca de títulos – posição que era anteriormente ocupada pelas superlojas.

E vai por aí.

Mas a ênfase que Shatzkin quer dar é que, com isso, a Amazon multiplicou a força dos clientes na escolha dos livros. O seu esforço de prestar o melhor serviço e indicar alternativas modificou radicalmente o escopo do negócio. Para as editoras, não se tratava mais de decidir o que publicar, mas sim como fazer que o livro chamasse a atenção do leitor. Isso, no modelo anterior, era secundário: na medida em que convencesse as livrarias a expor os livros que decidiam publicar, os leitores eram induzidos a comprá-los.

Nesse novo cenário, o leitor/cliente passa a ter um papel muito mais relevante. E a Amazon está posicionada para atendê-lo. Certamente a Apple também se esforça nesse sentido – e tentou tirar as editoras das garras de um dos “Cavaleiros do Apocalipse” para que gentilmente se entregassem em suas mãos. Não teve o sucesso que esperava, mas continua no jogo.

E os outros dois “Cavaleiros”, Google e Facebook? Bom, a Google – que tem um papel muito menos na venda de produtos – tem, no entanto, um papel crucial no fortalecimento da Amazon, já que seu mecanismo de buscas aponta, de forma dominante, o banco de dados da empresa como fonte de informação sobre autores e títulos procurados na Internet. Com o Google + também atua, subsidiariamente com o Facebook, no papel de criar presença e “descobertabilidade” para títulos e autores.

Greenlight Bookstore - as independentes  ganham mais espaço nos EUA, com tecnologia e apoio da comunidade
Greenlight Bookstore – as independentes ganham mais espaço nos EUA, com tecnologia e apoio da comunidade

A disputa final – e aí ainda estão no jogo tanto as cadeias quanto as livrarias independentes – é para que os leitores/clientes se acostumem a usar um dos canais de venda disponíveis: online (dominantemente Amazon, com presença de outros concorrentes similares que variam de país a país), as superlojas e as livrarias independentes.

O jogo, assim, muda de configuração.

Mesmo quem parecia descartado em um determinado momento – as livrarias independentes – passaram a usar instrumentos tecnológicos para melhorar seu desempenho, e não apenas subsistir, como voltar a crescer.

Um recente post escrito por Erin Cox, na Publishing Perspectives, assinala isso de modo claro. No post, que entrevista vários livreiros independentes e também Oren Teicher, que é o executivo da ABA – American Booksellers Association, este declara que “Na medida em que o custo da tecnologia diminui, as pequenas empresas podem ter acesso à mesma tecnologia que as grandes corporações”. Não apenas para promoção em websites, mídias sociais e campanhas de email, mas também na tecnologia usada para operar o negócio, como sistemas de pontos de venda, administração de estoque, contabilidade e web design. “Somos agora capazes de conduzir os negócios de modo mais eficiente, a um custo suportável”, conclui Teicher.

No caso das independentes, outro fator importante é o da ligação com a comunidade. A tecnologia permite que as mensagens sejam bem desenhadas para o público local, de uma maneira como não é possível para as grandes lojas – nem para a Amazon. No caso, o apelo é comunitário, enquanto o da Amazon é completamente individualizado.

Cabe notar que a disponibilização de instrumentos tecnológicos avançados, no caso das livrarias independentes, conta com um apoio de infraestrutura enorme proporcionado pela própria ABA, como relatei aqui.

O interessante é que, em todos os casos, o foco passa a ser uma autonomia muito maior do leitor na escolha do que deseja ler/comprar, com mecanismos de busca que ultrapassam de longe o que se podia escolher nas grandes lojas. A disputa se concentra em tornar os livros “acháveis” – não adianta simplesmente lotar as vitrines das lojas – e levar o cliente a fidelizar as compras, mesmo que use mecanismos de busca externos, como o Google ou o Bing.

Cabe notar, finalmente, que para as independentes terem condições de crescer nesse ambiente, tiveram que fortalecer a ABA e fazer discussões a sério, como a que acontece nesses dias em Denver, no “Winter Institute”. Essa é uma reunião anual (não é uma convenção), com pautas quentíssimas, e tem uma lotação de quinhentos participantes (máximo dois por empresa). Oren Teicher até me convidou para assistir, o que farei algum dia, talvez…

 

A CONVENÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL DEZ ANOS DEPOIS

Capturar A Convenção Sobre a Proteção da Diversidade das Expressões Culturais completou, em 2015 seu décimo aniversário de promulgação. A Convenção foi o resultado de longas negociações, que se formalizaram no âmbito da Unesco em 2003, e resultaram em sua adoção na Assembleia de 2005. Atualmente, a Convenção já foi ratificada por 140 Estados Membros. O Brasil teve papel importante nas etapas finais da negociação, mas sem dúvida os países que mais se destacaram nesse processo foram a França e o Canadá. É de se anotar que os Estados Unidos até hoje não ratificaram a convenção – e buscam sabotar sua aplicação em todas as negociações comerciais, tratando de evitar a inclusão de várias cláusulas previstas nesse instrumento internacional.

Ao comemorar o décimo aniversário do estabelecimento da Convenção, a UNESCO encomendou a catorze especialistas internacionais, além do pessoal da administração da Convenção, um documento síntese de análise dessa etapa, intitulado “Repensar As Políticas Culturais”. Infelizmente só consegui acesso ao resumo executivo, disponível em espanhol (por iniciativa do governo sueco!) aqui. Os autores assinam cada uma das secções do documento. (Às vezes é bem difícil conseguir a íntegra desses documentos, a nossa representação na UNESCO não reproduz nem traduz nada. É nossa diplomacia cultural em ação…).

O documento da UNESCO está dividido em quatro secções:

➊ Apoiar sistemas de governança cultural sustentáveis;

➋ Conseguir alcançar um fluxo equilibrado de serviços e bens culturais, e incrementar a mobilidade dos artistas e dos profissionais culturais;

➌ Integrar a cultura em processos de desenvolvimento sustentável,

➍ Promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

Cada uma dessas secções está dividida em vários capítulos, cada um deles abordando algum aspecto específico do tema. É importante lembrar que o documento da UNESCO pretende mapear as ações dos signatários da Convenção, destacando principalmente o “rumo” das modificações e sua implementação. Assinala, entretanto, que ainda falta muito para alcançar as metas da Convenção.

Esse é o tom de todas as secções. Assinala avanços, mas sempre destaca que falta muito para alcançar os objetivos do instrumento multilateral. Não vou abordar aqui todos os pontos do documento.

Quero destacar, entretanto, a descrição do fluxo de bens e serviços culturais a nível mundial.

Duas “mensagens-chave” dessa secção do documento chamam atenção: “A soma total das exportações de bens culturais a nível mundial em 2013 foi de 212,8 bilhões de dólares. A percentagem dos países em desenvolvimento é de 46,7%, o que representa um incremento marginal diante do ano 2004. Apenas a China e a Índia competiram significativamente com os países desenvolvidos no mercado global”.

A segunda mensagem é ainda mais significativa: “A soma total das exportações de serviços culturais a nível mundial em 2012 foi de 128,5 bilhões de dólares. A percentagem dos países em desenvolvimento representa apenas 1,6%. Os países desenvolvidos dominam este campo, com 98%. Isso se deve principalmente ao incremento de fluxos de serviços audiovisuais e artísticos transmitidos eletronicamente”.

Para além de uma terminologia econômica meio ultrapassada, o que o dado revela/esconde é o fato dos Estados Unidos não terem ratificado até hoje a Convenção da Diversidade Cultural. Mais ainda, eles procuram ativamente forçar, nas negociações comerciais com países e blocos de países, para que não se recorra aos mecanismos da Convenção para manter a autonomia desses países na formulação de políticas chamadas de “exceção cultural”. Na prática, exige de quem quiser exportar matéria-prima para o Big Brother do norte ter que aceitar o ingresso livre de barreiras de filmes, música, apps e etcéteras vindos de lá.

A indústria cinematográfica dos Estados Unidos é, depois do comércio de armas, o mais valioso item de exportação daquele país. “Serviços culturais” incluem, hoje, não apenas o download de música e cinema, como também o de livros. Lembremos que a Amazon não vende “a propriedade” do que é descarregado na Internet. Apenas licencia o uso. Daí ser um serviço e não exportação de bens.

Apesar de não haver retificado a Convenção, os EUA voltaram a fazer parte da UNESCO há pouco mais de dez anos atrás, justamente antes da negociação final desse instrumento. Atuaram – principalmente em dobradinha com Israel – de forma dura para tentar impedir o acordo final. Felizmente foram derrotados, mas não ratificaram a convenção. Cabe lembrar que a delegação brasileira na Conferência (Gilberto Gil era o Ministro da Cultura) teve um papel importante nas articulações para a aprovação do instrumento.

Ora, o país que não a ratifica fica praticamente fora dos mecanismos de controle, mediação e resolução de conflitos previstos na Convenção, que incluem aspetos relacionados com a OMC – Organização Mundial do Comércio.

A linguagem diplomática do documento da UNESCO encobre esse grande problema, que continua em aberto, e diminui consideravelmente o impacto do instrumento multilateral.

O então assessor internacional do Ministério da Cultura, Ministro Conselheiro (na época Conselheiro) Marcelo Dantas da Costa, teve um importante papel nessas negociações. Hoje é o delegado alterno da Delegação Permanente do Brasil na UNESCO (a titular é a Embaixadora Eliana Zugaib). No entanto, infelizmente, a página da representação, cujo link está aqui e as notícias que se consegue captar pela imprensa e pela Internet não têm mostrado uma atuação muito vibrante. Ano passado, por ocasião do Salon du Livre de Paris (quando o Brasil foi homenageado), estive na UNESCO em busca de informações sobre o Index Translationum, e soube que o programa estava desativado “por razões orçamentárias”. Escrevi para a Delegação Permanente sobre o assunto. Espero até hoje uma resposta.

Acredito que seja importante que o Ministério da Cultura, e o Itamaraty, aproveitem o ensejo da publicação desse documento da UNESCO para promover uma revisão do que foi feito por aqui dentro das propostas da Convenção sobre a Diversidade Cultural, e quais as dificuldades, entraves e qual a ação diplomática brasileira para avançar internacionalmente na aplicação desse importantíssimo instrumento multilateral. Que, não custa lembrar sempre, pode também ter impactos significativos nas negociações comerciais

MACHADO DE ASSIS MAGAZINE ANUNCIA PARTICIPANTES DO NÚMERO 7

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A Machado de Assis Magazine – Literatura Brasileira em Tradução, anunciou hoje os autores e textos que participam de seu número 7, que será lançado oficialmente na FIL – Feira Internacional de Libro de Guadalajara, no próximo dia 30.

A revista é uma coedição entre a Fundação Biblioteca Nacional e o Itaú Cultural, e já publicou 143 excertos traduzidos de autores brasileiros, em inglês, espanhol, alemão e francês. Muitos desses já foram publicados em vários países, e os números online da Machado de Assis Magazine paulatinamente se transformam em um banco de dados no qual agentes e editores podem buscar amostras da qualidade e diversidade de nossos autores.

Como declarou o professor Renato Lessa, presidente da FBN, a Machado de Assis Magazine “é complemento estratégico da política brasileira de apoio à internacionalização da literatura brasileira. Tal política tem como eixo central o Programa de Apoio à Tradução, reconhecida iniciativa de projeção internacional da literatura feita no país e conduzido pelo Centro de Cooperação e Difusão da Biblioteca Nacional”.

O site da Machado de Assis Magazine já recebeu mais de 840.000 visitas desde que está no ar, e já foram feitos cerca de 53.000 downloads de trechos traduzidos ou do conteúdo total da revista.

A lista dos publicados no número 7 da Machado de Assis Magazine é a seguinte:

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Como podem ver, dos vinte e um excertos publicados, 17 estão em inglês e quatro em espanhol. Quanto aos gêneros, catorze são trechos de romances, quatro de livros para crianças e jovens, poesia, ensaio e conto, com um trecho cada.

VETOS E DADOS – OS 16 BILHÕES

 

Na quinta-feira passada, dia 8, nosso editor do PublishNews publicou um artigo intitulado “De onde vêm os 16 bi da Dilma”,  comentando o publicado no blog do Planalto, onde afirmava que o custo de uma das “pautas-bomba” vetadas pela Presidenta e em exame na Câmara dos Deputados custaria 16 bilhões de reais até 2019. O artigo vetado dizia respeito a uma proposta que modificava a legislação do Imposto de Renda cuja primeira formulação é de 1995, com valores reajustados todos os anos. A modificação deste ano é a tal Lei 13.149/2015, parcialmente vetada, e que isentava os professores de pagar Imposto de Renda se comprassem o valor em livros.

Foi uma matéria importante e oportuna, pois o Leonardo Neto levantou um assunto para o qual poucas pessoas (eu inclusive) não estavam prestando atenção. O Leonardo Neto fuxicou um pouco o assunto e, com base nas informações do mercado (produção editorial e faturamento), divulgada pelo SNEL e pela CBL, concluiu: “A matemática palaciana parece equivocada. Tomando por base a pesquisa encomendada à Fipe, pela CBL e pelo SNEL, o faturamento total das editoras em 2014 foi de R$ 5.409 bilhões. Dados da Nielsen dão conta que no ano passado o mercado varejista de livros faturou R$ 1.461 bi. Muito a grosso modo, pelas contas da presidente Dilma e de sua equipe econômica, a isenção que seria dada a professores na compra de livros seria algo em torno de R$ 4 bilhões/ano ou 74% do faturamento das editoras ou quase três vezes o tanto que o varejo faturou com a vendas de livros, segundo os dados da Nielsen.”

A notícia chocou e provocou comentários irados de leitores, que diziam que “era assim a tal Pátria Educadora”, “como é possível negar dinheiro para os professores comprarem livros”, etc. Confesso que também levei o maior susto, quando li a notícia.

A conta do Leonardo Neto estava certa, com os dados que usou.

Só que houve um equívoco, quanto aos dados a serem comparados. Essa certeza adquiri depois de, eu mesmo, fuxicar dados e a própria legislação.

Com a minha idade, já tenho uma casca de ceticismo bem grossa quanto às afirmações do governo. Todo governo – seja lá qual for sua tendência política – tende a mascarar ou manipular dados. Só que o esforço de transparência nos dados, aqui e alhures, torna essas tentativas de manipulação mais evidentes. É possível conferir quase tudo indo direto às fontes.

No caso, não houve nenhuma tentativa de mascarar ou manipular dados. A razão de divulgar o veto dessa maneira é que mostrou-se incompetente.

Mas comecei buscando ver de onde vinham os tais 16 bi. Macaco velho, fui direto no site da Receita Federal. Todos que já preencheram uma declaração de IR sabem que ali deve ser declarada a profissão, que indica a origem principal dos rendimento declarados. Portanto, “professor” seria, necessariamente, um dado na compilação de informação da Receita Federal.

E me perdi no site, diante da enorme massa de informações fiscais disponíveis.

Fui para o Portal da Transparência, por onde se exerce o direito de informação legal, fiz o cadastro e perguntei: “Necessito de informações sobre o recolhimento de imposto de renda de pessoas físicas, consolidado anualmente de 2010 a 2014, com especificação da categoria profissional dos declarantes (p. ex. professor, advogado, etc.)”.

Três horas depois recebi a resposta da SRF, com os links que me levaram precisamente aonde eu queria. O link me levou ao site onde estão as informações, e lá dentro outro link  me levou direto aos grandes dados das declarações de Imposto de Renda – ano calendário 2013, Declaração de Imposto de Renda de 2014. É o último ano consolidado, já que as declarações referentes ao ano calendário 2014 ainda estão em processamento.

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